Os dias passavam e a garota se recuperava como uma fênix em vivo fogo. Cada sorriso seu era como um dia de sol, uma canção pura.
Ocupei-me com os versos e as canções e cantava pra ela enquanto cuidava de suas feridas expostas, suas asas quebradas.
Chamei-a de Artie. Ensinei-a cantar e sobre as coisas confusas do mundo que eu mesmo não conhecia muito bem. Falei sobre as pessoas e sobre todas as coisas estranhas que eu não sabia explicar.
A curiosidade é uma semente. Chegamos até as ultimas paginas do livro.
- Fim.
- Por que fim?
- Tudo tem que ter um fim, afinal às coisas não duram pra sempre.
- E o fim, não acaba?
- Acho que pra tudo tem exceção.
- Então tudo tem um fim, menos o fim. Isso é ridículo...
- Estamos acabando a partir do momento que começamos, é só uma maneira de ver as coisas. Talvez não exista começo nem fim. Só pessoas contando, e dividindo.
- Contando?
- É, onde começam e terminam as coisas. Olha, pega um livro ali.
- Esse?
- Pode ser qualquer um.
- Eu quero o vermelho.
Era Divina Comédia de Dante Alighieri.
Meu sangue pulsou verde, e eu tive aquela velha sensação de estar perto de um trem à vapor.
- Você está bem?
Um poema composto por três partes.
Inferno, purgatório e paraíso.
- Por que começar pelo inferno? – Perguntei.
- Por que é por onde começa a história.
- Todas as histórias são uma só. È só perceber.
- E quem vai ler tudo isso?
- Todos juntos. Cada um mastiga a sua parte e a humanidade come o bolo. Ninguém pode dominar o todo sozinho. Pense nas células do seu corpo, cada uma domina seu universo, e todas juntas determinam o funcionamento do seu organismo, e assim o seu organismo interfere no seu modo de sentir, ver, se expressar. O que afeta as outras pessoas também, o mundo.
- Minhas asas doem.
-Suas asas fazem um barulho estranho. Às vezes me assusta. Talvez se parasse de mexê-las um pouco. Você é linda. Deixa-me ver essas asas.
- Acho que entendo por que as coisas acabam.
- Entende?
- Acho que sim.
Corri aquela tarde até o escritório de Star e ele estava em sua mesa como sempre.
- Sabe o que eu acho disso tudo?
Ele fumava um charuto.
- Não faz sentido. Quero dizer. Você consegue se lembrar da sua vida antes de chegar aqui?
- Tudo o que lembro é de um relógio quebrado numa quarta feira de agosto.
Startakos tirou um relógio e um revolver do bolso.
Os ponteiros parados.
- Uma quarta-feira de agosto, 1949. Não envelheci um segundo.
Tive medo do que ele pudesse fazer.
-ESSE RELÓGIO!! Tem algo a ver com esse relógio!
- Calma Star, agente vai sair daqui.
- EU QUERO MEU TEMPO DE VOLTA!
Apontou o revolver para o relógio.
- Não! Star pode haver um enigma... O relógio.
Puxei o relógio o mais rápido que pude, o tiro passou de raspão, abriu um buraco na mesa.
- Escuta Star, enquanto não descobrirmos a origem e o porquê de tudo isso não destruiremos os relógios.
- Ok, ok, você está certo, vamos investigar tudo isso.
Agora tínhamos um objetivo.
Só nos faltava uma direção.
Voltei pra casa.
- Artie, fique longe da janela.
- Eu não vou voar.
- Eu e Star vamos sair por uns dias, você fica bem?
- Quero ir.
- É perigoso.
- Então não te deixo ir.
- Artie...
- Eu vou.
- Já disse que não, volto no final de semana.
- Vermelho, eu tive um sonho.
- Não tenho tempo agora Artie, me conta depois...
- EU VOU ESQUECER!
- Ta, então conta. Não é nada gentil gritar com as pessoas.
- Eu sei, mas você me irrita...
- Vamos Artie conte-me o sonho.
- Agora eu esqueci, eu disse! Disse pra me deixar contar. Eu quero ir com vocês.
- Artie...
- Lembrei! Olha foi assim. Tinha um relógio...
- Um relógio?! Conta Artie, e o que mais.
- Bem era um relógio muito bonito. Eu achei. Sei que não se deve roubar. Mas não roubei! Estava ali. E eu quis.
- Sim Artie e o que tinha o relógio?
- Não dava para ver as horas, estava quebrado. Então eu o sacudi bem forte. E senti uma voz mágica.
- Que tipo de voz mágica?
- Que vem de dentro da cabeça, às vezes eu escuto... Minhas asas doem.
- Foque no sonho! O que a voz dizia?
- Eu não sei... Não posso me lembrar. Acho que posso escrever.
- Então escreva Artie, vamos.
Então ela debruçou sobre a mesa e começou a rabiscar.
- Vamos Artie, depressa...
- Ta, calma.
Tempo é surreal.
Ele se arrasta e espira quando frita um ovo e a gema é um olho ciclope pronto pra devorar as horas.
Minha percepção do tempo é a ultima formiga do formigueiro, talvez a última guerreira da terra. O tempo é uma folha dez vezes maior, mais pesada e amarela que a própria formiga solitária em noite de outubro.
- Isso não faz sentido.
- Talvez seja um enigma...
- Um enigma?
- Você me disse o outro dia, que o inconsciente se comunica com os sonhos, por meio de códigos.
- Tempo é surreal...
Eu não sabia bem ao certo, mas Star e eu aquele dia fomos até o grande relógio da praça.
Ciganos por toda parte. Com as mãos estendidas, como galhos secos a pedir dinheiro, com os olhos traiçoeiros cheios de ódio, como pombos estúpidos. Como eu os odiava.
Tempo é surreal...
O relógio da igreja bateu... Uma, duas, várias vezes e todos ficam imóveis.
- Star! O relógio parou...
O silencio paralisou todos, menos eu... E por algum motivo as ruas se tornaram escuras em plena tarde quente que fazia sol, muito sol.
Então no silencio eu pude vê-los...,
Numa caravana negra que ganhava as ruas de longe.
Moviam-se como sombras, eu tive medo de me mover e ser morto ou feito prisioneiro Então eu só parei e observei.
Todos entraram numa fila uniforme para dentro da igreja.
Três cavalheiros de branco carregavam um baú.
Três sacerdotisas e um manto negro
E eu fiquei lá parado, com medo de morrer.
- Star... Acorda Star... Tem uma seita muito estranha ali. PORQUE TODO MUNDO VIROU PEDRA?!
Merda. Pensei, tempo é surreal. Olhei nos ponteiros do meu relógio e eles moviam. Não parados como sempre, apenas lentos de cansaço.
Eu entrei pela porta aberta e segui agachado, escondido entre os bancos da igreja.
O baú foi aberto e eu sabia que algo de muito ruim estava para acontecer.
- Do sacrifício nasce o novo ser. Com a força do antigo, com a sabedoria do inconsciente.
Um ovo negro.
O sacerdote tirou o capuz. Um monstro. Meio bode, meio homem.
Eu conhecia aquele ser. Na primeira semana.
Bode de terno. Então para minha maior surpresa lá estava ela.
Eu pude vê-la entrar por entre a porta aberta
E pensei...
“Por que o bem me acompanha se é o mal que me completa?”
Laura trazia um relógio de bolso, assim como o de Star.
E ela dizia:
- Está tudo pronto para o despertar.
O bode.
- Cadê a garota?!
Então dois homens de capuz entraram. Arrastavam Artie pelas asas.
Eu vi meu sangue correr frio levando uma mensagem escura para meu cérebro. Talvez estivesse morta.
- Vamos logo... O tempo não para pra sempre.
- O sangue é puro?
- Com certeza puro.
Laura tinha um sorriso nos olhos, cheio de morte e satisfação.
Tirou um punhal e começou a ferir os braços de Artie, cortes profundos que eu sentia em minha própria carne.
Ela chorava com olhos de anjo e a dor se tornava insuportável.
Laura arrastou seu corpo e deixou o sangue escorrer na caixa.
Eu não podia protegê-la. Estava de todo sozinho numa dimensão do tempo que só meus inimigos podiam viver.
Não entendia por que eu devia estar ali enquanto todos estavam amparados do profundo desespero, parados no sono das horas.
Talvez fosse parte deles, de certo modo me sentia inimigo de mim mesmo. Uma parte de mim queria morrer e a outra viver.
Tempo é surreal... Talvez exista uma saída...
Peguei o relógio de bolso de Star e um velho isqueiro de metal.
O coloquei sobre a chama e desejei de todo coração que o tempo queimasse rápido.
Os ponteiros lentamente voltaram a se mexer e os minutos aos poucos iam tomando vida novamente.
As faces ocultas dos sacerdotes foram se desabando pouco a pouco. Suas linhas da vida mediam curtos segundos na dimensão real. Enquanto eu envelhecia segundos, anos eram subtraídos dos meus inimigos. Artie não envelhecia, talvez não pertencesse a nenhuma das duas dimensões. Laura estava bem.
Olhou-me com os olhos cheios de fogo.
Veio em minha direção feito um tigre e cravou a lâmina em meu peito.
- Vamos, não grite, nem dói tanto assim.
Empurrei seu corpo do meu, negando o amor que sentia por aquele momento mesmo envolto pela dor sufocante, leve deleite do fim. E pelo som de dois disparos ela caiu.
Star estava na porta.
Ela sorria.
Um terceiro disparo e eu caí.
- Star, seu porco!
- Nada pessoal Vermelho. Eu só precisava do ovo.
Arrancou o relógio das minhas mãos e foi em direção ao baú.
- Ele nos usou Vermelho. Ambos fomos passados para trás.
Star tomou a forma do próprio demônio em carne e osso. Cavou um buraco no chão e sumiu.
Estranho como sempre...
- É assim que acaba?
Artie levantava com suas belas asinhas de anjo.
- Acho que é o fim Artie.
- Por que tudo tem que ter um fim. – Disse Laura.
- No fim acho que não existe um fim, só pessoas contando e dividindo...
- Onde começam e terminam as coisas...
- Uma grande história...
- E a humanidade come o bolo...
Olhei no relógio e as horas voltavam a correr direito. De modo que meus olhos pesaram e senti de novo aquela velha sensação.
Senti que era o fim. A bela morte tal como diziam os guerreiros Nórdicos. E quando abri os olhos estava num lugar bom.
Paredes brancas e mais nada.
Nada de janelas...
Portas, nada além de uma cama branca e um criado mudo com um vaso amarelo. No vaso amarelo uma rosa vermelha e na rosa um bilhete.
Sua presença nem sempre certa me fez duvidar
A foto, o retrato do estado, a janela da minha lembrança.
A imagem que tinge o vazio do meu quarto é que me faz pensar
Na estranha da infância que ainda procura o que a incomoda.
As paredes eram prisões sólidas, brancas como o vazio que eu sentia por dentro.
Não era feliz nem triste.
Não a trégua.
Não a nada que meça o vazio que existe aqui dentro.
