domingo, 8 de novembro de 2009

Janela de eletrons - Capitulo XVII

Os dias passavam e a garota se recuperava como uma fênix em vivo fogo. Cada sorriso seu era como um dia de sol, uma canção pura.

Ocupei-me com os versos e as canções e cantava pra ela enquanto cuidava de suas feridas expostas, suas asas quebradas.

Chamei-a de Artie. Ensinei-a cantar e sobre as coisas confusas do mundo que eu mesmo não conhecia muito bem. Falei sobre as pessoas e sobre todas as coisas estranhas que eu não sabia explicar.

A curiosidade é uma semente. Chegamos até as ultimas paginas do livro.

- Fim.

- Por que fim?

- Tudo tem que ter um fim, afinal às coisas não duram pra sempre.

- E o fim, não acaba?

- Acho que pra tudo tem exceção.

- Então tudo tem um fim, menos o fim. Isso é ridículo...

- Estamos acabando a partir do momento que começamos, é só uma maneira de ver as coisas. Talvez não exista começo nem fim. Só pessoas contando, e dividindo.

- Contando?

- É, onde começam e terminam as coisas. Olha, pega um livro ali.

- Esse?

- Pode ser qualquer um.

- Eu quero o vermelho.

Era Divina Comédia de Dante Alighieri.

Meu sangue pulsou verde, e eu tive aquela velha sensação de estar perto de um trem à vapor.

- Você está bem?

Um poema composto por três partes.

Inferno, purgatório e paraíso.

- Por que começar pelo inferno? – Perguntei.

- Por que é por onde começa a história.

- Todas as histórias são uma só. È só perceber.

- E quem vai ler tudo isso?

- Todos juntos. Cada um mastiga a sua parte e a humanidade come o bolo. Ninguém pode dominar o todo sozinho. Pense nas células do seu corpo, cada uma domina seu universo, e todas juntas determinam o funcionamento do seu organismo, e assim o seu organismo interfere no seu modo de sentir, ver, se expressar. O que afeta as outras pessoas também, o mundo.

- Minhas asas doem.

-Suas asas fazem um barulho estranho. Às vezes me assusta. Talvez se parasse de mexê-las um pouco. Você é linda. Deixa-me ver essas asas.

- Acho que entendo por que as coisas acabam.

- Entende?

- Acho que sim.

Corri aquela tarde até o escritório de Star e ele estava em sua mesa como sempre.

- Sabe o que eu acho disso tudo?

Ele fumava um charuto.

- Não faz sentido. Quero dizer. Você consegue se lembrar da sua vida antes de chegar aqui?

- Tudo o que lembro é de um relógio quebrado numa quarta feira de agosto.

Startakos tirou um relógio e um revolver do bolso.

Os ponteiros parados.

- Uma quarta-feira de agosto, 1949. Não envelheci um segundo.

Tive medo do que ele pudesse fazer.

-ESSE RELÓGIO!! Tem algo a ver com esse relógio!

- Calma Star, agente vai sair daqui.

- EU QUERO MEU TEMPO DE VOLTA!

Apontou o revolver para o relógio.

- Não! Star pode haver um enigma... O relógio.

Puxei o relógio o mais rápido que pude, o tiro passou de raspão, abriu um buraco na mesa.

- Escuta Star, enquanto não descobrirmos a origem e o porquê de tudo isso não destruiremos os relógios.

- Ok, ok, você está certo, vamos investigar tudo isso.

Agora tínhamos um objetivo.

Só nos faltava uma direção.

Voltei pra casa.

- Artie, fique longe da janela.

- Eu não vou voar.

- Eu e Star vamos sair por uns dias, você fica bem?

- Quero ir.

- É perigoso.

- Então não te deixo ir.

- Artie...

- Eu vou.

- Já disse que não, volto no final de semana.

- Vermelho, eu tive um sonho.

- Não tenho tempo agora Artie, me conta depois...

- EU VOU ESQUECER!

- Ta, então conta. Não é nada gentil gritar com as pessoas.

- Eu sei, mas você me irrita...

- Vamos Artie conte-me o sonho.

- Agora eu esqueci, eu disse! Disse pra me deixar contar. Eu quero ir com vocês.

- Artie...

- Lembrei! Olha foi assim. Tinha um relógio...

- Um relógio?! Conta Artie, e o que mais.

- Bem era um relógio muito bonito. Eu achei. Sei que não se deve roubar. Mas não roubei! Estava ali. E eu quis.

- Sim Artie e o que tinha o relógio?

- Não dava para ver as horas, estava quebrado. Então eu o sacudi bem forte. E senti uma voz mágica.

- Que tipo de voz mágica?

- Que vem de dentro da cabeça, às vezes eu escuto... Minhas asas doem.

- Foque no sonho! O que a voz dizia?

- Eu não sei... Não posso me lembrar. Acho que posso escrever.

- Então escreva Artie, vamos.

Então ela debruçou sobre a mesa e começou a rabiscar.

- Vamos Artie, depressa...

- Ta, calma.

Tempo é surreal.

Ele se arrasta e espira quando frita um ovo e a gema é um olho ciclope pronto pra devorar as horas.

Minha percepção do tempo é a ultima formiga do formigueiro, talvez a última guerreira da terra. O tempo é uma folha dez vezes maior, mais pesada e amarela que a própria formiga solitária em noite de outubro.

- Isso não faz sentido.

- Talvez seja um enigma...

- Um enigma?

- Você me disse o outro dia, que o inconsciente se comunica com os sonhos, por meio de códigos.

- Tempo é surreal...

Eu não sabia bem ao certo, mas Star e eu aquele dia fomos até o grande relógio da praça.

Ciganos por toda parte. Com as mãos estendidas, como galhos secos a pedir dinheiro, com os olhos traiçoeiros cheios de ódio, como pombos estúpidos. Como eu os odiava.

Tempo é surreal...

O relógio da igreja bateu... Uma, duas, várias vezes e todos ficam imóveis.

- Star! O relógio parou...

O silencio paralisou todos, menos eu... E por algum motivo as ruas se tornaram escuras em plena tarde quente que fazia sol, muito sol.

Então no silencio eu pude vê-los...,

Numa caravana negra que ganhava as ruas de longe.

Moviam-se como sombras, eu tive medo de me mover e ser morto ou feito prisioneiro Então eu só parei e observei.

Todos entraram numa fila uniforme para dentro da igreja.

Três cavalheiros de branco carregavam um baú.

Três sacerdotisas e um manto negro

E eu fiquei lá parado, com medo de morrer.

- Star... Acorda Star... Tem uma seita muito estranha ali. PORQUE TODO MUNDO VIROU PEDRA?!

Merda. Pensei, tempo é surreal. Olhei nos ponteiros do meu relógio e eles moviam. Não parados como sempre, apenas lentos de cansaço.

Eu entrei pela porta aberta e segui agachado, escondido entre os bancos da igreja.

O baú foi aberto e eu sabia que algo de muito ruim estava para acontecer.

- Do sacrifício nasce o novo ser. Com a força do antigo, com a sabedoria do inconsciente.

Um ovo negro.

O sacerdote tirou o capuz. Um monstro. Meio bode, meio homem.

Eu conhecia aquele ser. Na primeira semana.

Bode de terno. Então para minha maior surpresa lá estava ela.

Eu pude vê-la entrar por entre a porta aberta

E pensei...

“Por que o bem me acompanha se é o mal que me completa?”

Laura trazia um relógio de bolso, assim como o de Star.

E ela dizia:

- Está tudo pronto para o despertar.

O bode.

- Cadê a garota?!

Então dois homens de capuz entraram. Arrastavam Artie pelas asas.

Eu vi meu sangue correr frio levando uma mensagem escura para meu cérebro. Talvez estivesse morta.

- Vamos logo... O tempo não para pra sempre.

- O sangue é puro?

- Com certeza puro.

Laura tinha um sorriso nos olhos, cheio de morte e satisfação.

Tirou um punhal e começou a ferir os braços de Artie, cortes profundos que eu sentia em minha própria carne.

Ela chorava com olhos de anjo e a dor se tornava insuportável.

Laura arrastou seu corpo e deixou o sangue escorrer na caixa.

Eu não podia protegê-la. Estava de todo sozinho numa dimensão do tempo que só meus inimigos podiam viver.

Não entendia por que eu devia estar ali enquanto todos estavam amparados do profundo desespero, parados no sono das horas.

Talvez fosse parte deles, de certo modo me sentia inimigo de mim mesmo. Uma parte de mim queria morrer e a outra viver.

Tempo é surreal... Talvez exista uma saída...

Peguei o relógio de bolso de Star e um velho isqueiro de metal.

O coloquei sobre a chama e desejei de todo coração que o tempo queimasse rápido.

Os ponteiros lentamente voltaram a se mexer e os minutos aos poucos iam tomando vida novamente.

As faces ocultas dos sacerdotes foram se desabando pouco a pouco. Suas linhas da vida mediam curtos segundos na dimensão real. Enquanto eu envelhecia segundos, anos eram subtraídos dos meus inimigos. Artie não envelhecia, talvez não pertencesse a nenhuma das duas dimensões. Laura estava bem.

Olhou-me com os olhos cheios de fogo.

Veio em minha direção feito um tigre e cravou a lâmina em meu peito.

- Vamos, não grite, nem dói tanto assim.

Empurrei seu corpo do meu, negando o amor que sentia por aquele momento mesmo envolto pela dor sufocante, leve deleite do fim. E pelo som de dois disparos ela caiu.

Star estava na porta.

Ela sorria.

Um terceiro disparo e eu caí.

- Star, seu porco!

- Nada pessoal Vermelho. Eu só precisava do ovo.

Arrancou o relógio das minhas mãos e foi em direção ao baú.

- Ele nos usou Vermelho. Ambos fomos passados para trás.

Star tomou a forma do próprio demônio em carne e osso. Cavou um buraco no chão e sumiu.

Estranho como sempre...

- É assim que acaba?

Artie levantava com suas belas asinhas de anjo.

- Acho que é o fim Artie.

- Por que tudo tem que ter um fim. – Disse Laura.

- No fim acho que não existe um fim, só pessoas contando e dividindo...

- Onde começam e terminam as coisas...

- Uma grande história...

- E a humanidade come o bolo...

Olhei no relógio e as horas voltavam a correr direito. De modo que meus olhos pesaram e senti de novo aquela velha sensação.

Senti que era o fim. A bela morte tal como diziam os guerreiros Nórdicos. E quando abri os olhos estava num lugar bom.

Paredes brancas e mais nada.

Nada de janelas...

Portas, nada além de uma cama branca e um criado mudo com um vaso amarelo. No vaso amarelo uma rosa vermelha e na rosa um bilhete.

Sua presença nem sempre certa me fez duvidar

A foto, o retrato do estado, a janela da minha lembrança.

A imagem que tinge o vazio do meu quarto é que me faz pensar

Na estranha da infância que ainda procura o que a incomoda.

As paredes eram prisões sólidas, brancas como o vazio que eu sentia por dentro.

Não era feliz nem triste.

Não a trégua.

Não a nada que meça o vazio que existe aqui dentro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Janela de elétrons - capitulo XVI

XVI

-É uma garota! – Alguém gritou na multidão.

Todos disparam seus flashes, metralhadoras impiedosas.

- Aaaaaaaaaah!

- Vocês vão matá-la seus idiotas!

- Quem liga otário? Agente só quer as fotos.

Parti para cima do imbecil e comecei a socar a face amarela dele.

Então todos entraram em guerra.

- Parem seus idiotas!

A garota estava em pânico.

Um homem grande a puxou pelas asas e a colocou nas costas.

- Você é minha!

Parti em direção do grandalhão, mas era um oceano, um mar de gente inavegável.

O homem grande cruzou a rua

O homem grande a colocou num carro.

A garota estava desacordada.

Suas asas deixavam um rastro de tristeza.

Pude ouvir as sirenes da policia se aproximando em uníssono.

Só então me dei conta do que havia acontecido nas ultimas horas.

Corri mas não pude alcançá-los.

Então um carro subiu a ladeira, rasgando as trevas com faróis altos.

- É melhor subir logo se não quiser ser pego.

Startakos.

Subi no carro.

Saímos em disparada, um belo Cadillac dourado.

- No porta luvas! Abra.

Uma arma.

- Acha que consegue acertar os pneus?

- Não sei... Nunca atirei na vida.

- Quer dirigir?

- Não... Eu atiro.

Mirei bem. Não estava pronto.

Um disparo.

Nada!

Outro.

Bateu na lataria deixando um buraco.

- Minha avó atira melhor com esse trabuco do que você. Vamos! Concentre-se nos pneus!

Fechei meus olhos, o mundo ao meu redor, como um liquidificador silencioso.

Puxei o gatilho.

Estourei a porra da lanterna traseira.

-Me dá essa merda.

Startakos puxou a arma da minha mão com muita raiva e ela acidentalmente disparou acertando seu braço esquerdo.

- Aaaaaaaaaaah!

-Não solte a porra do volante Star!

- Você me acertou seu filho da puta!

-A culpa é toda sua. Bicha!

- Pegue o volante! Eu atiro!

Estiquei meu braço e segurei o volante com firmeza. O braço de Star sangrava muito. O sangue tinha manchado todo o pára-brisa, ele suava, e o sangue escorria era impossível enxergar a estrada. Então ele se pendurou na janela e mandou três disparos certeiros no velho wolkswagen branco.

O motorista misterioso abriu a porta do carro ainda movimento, e naquele instante eu sabia o que ele iria fazer.

Ele jogou a garota pela porta afora a uma velocidade de 80.

- A garota!

Puxei o volante o mais rápido que pude.

Desviado o carro pro acostamento. Quase passamos por cima dela.

- Será que está morta?

- Não sei...

Descemos do carro e fomos direção ao anjo. Era linda mesmo quase morta. Era bela e estava coberta de sangue.

Naquele momento eu prometi a mim mesmo que cuidaria dela pra sempre.

Suas asas quebradas, suas feridas expostas. Vingaria de toda fúria do mundo aquele que seu mal desejasse.

- Está viva.

Viva.

- Ela vai ficar bem.

Colocamos a garota no carro e dirigimos a noite inteira.

- Eu conheço um médico, não é longe daqui. Preciso de um trago.

Tirou uma garrafa de Vodka do porta luvas e virou no gargalo.

Chegamos à casa do médico.

Startakos tocava a campainha freneticamente.

- Vamos seu puto abra essa porta!

Um senhor abriu a porta. Rosto vermelho.

- Oh meu Deus! Seu filho da puta, você está sangrando!

Tirei a garota do carro.

Os olhos dela tremiam. Febre alta.

O Médico.

- Ela vai ficar bem.

- Faça o que puder velho.

Startakos me perguntou.

- Conseguiu as fotos?

- Acho que sim. Pouco importa, ele está morto.

- Agente se vê no escritório amanhã

- Ok. Mas e a garota?

- Não sei... Você a libertou. Deve existir uma razão. Você tem que assumir as responsabilidades.

- Star...

- Sim?

- Quem é o velho?... O médico?

- Meu pai.

sábado, 31 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XV

XV

Acordei no outro dia com mais sono do que eu tinha antes de dormir. Gritei com o relógio e fui até a cozinha. Peguei uma banana, joguei fora e comi a casca. Dei um berro:

- Aaaaaaaah!

Não entendi por que. Então dei com o dedinho no pé do sofá.

O tempo parecia correr de trás pra frente naquela manhã. Olhei no relógio e os ponteiros corriam para trás, feito loucos como sempre. Olhei na janela e o sol nascia do lado errado. Nada fazia sentido.

Vesti o calçado e depois a meia por cima, então a cueca por cima da calça. Despenteei meus cabelos com o pente. Sentia-me horrível, mas não podia me controlar. Tudo saia trocado, as palavras, os pensamentos e até o meu jeito de sentir.

Desci as escadas de costas e saí pela rua. Todo mundo estava meio perdido. Senti-me mal, Depois ri, então fiquei surpreso.

Vi Startakos. O tempo maluco parecia não incomoda-lo.

- Bom dia cavalheiro.

- Ei! Star, o que ta havendo aqui? Ta tudo meio maluco essa manhã.

- Ah. Primeiro dia do trocado?

- Dia do trocado!? Que porra é essa? Só sei que hoje de manhã balanguei o pinto, desci a tampa da privada, mijei em cima.

- É isso mesmo, amigo. Aqui os dias acabam de trinta em trinta, logo é preciso rebobinar. Sabe? Como as fitas VHS.

- Até quando vai rolar isso?

- É só por alguns dias.

- Dias?!

- Oh. Vou te ensinar um macete. Tudo o que for fazer... Nada de seqüências. Pense de trás pára frente. Entendeu?

- Ah, vou tentar.

- Algum progresso com o garoto?

- Ainda não. Ele é um tipo que aparece pouco.

- Ele vai estar num concerto hoje, às vinte e uma horas. Esteja lá.

- Feliz dia do trocado pra você Startakos.

Parei no ponto de ônibus e esperei.

Um ônibus chegou de marcha ré. Previsível. Mas um dia de sol naquela cidade estranha.

O dia prosseguiu estranho, mas aos poucos fui me acostumando com a sensação.

Comprei ingressos para o concerto. O cara do guichê era incrivelmente igual ao cara da loja de conveniência do posto.

- Aproveite o show.

Eu voltei pro quarto deitei no sofá deixando minha cabeça suspensa no ar. Precisava pensar, precisava de oxigênio.

Se tinha alguma coisa estranha com o garoto eu ia descobrir hoje.

Vinte um. O relógio que rodava até agora parou nessa hora, hora do concerto. Eu estava lá. Estádio Janela de elétrons.

Abri espaço por entre a multidão, Cyberpunks, Riots, Pin-ups, gente para todos os lados, de todos os tipos.

A banda entrou no palco.

O publico.

Gritavam como animais agonizando a beira da morte. Eu tinha que encontrar o garoto.

No camarote fechado com seguranças dos dois lados. Lá estava. Fiquei observando. Seu sorriso tinha um ar de escárnio, os outros fotógrafos batiam fotos em disparada, uma metralhadora de luz.

De repente o sorriso se transforma na expressão mais demoníaca de ódio.

- Chega!

Os fotógrafos todos de imediato param as máquinas. Menos um, um moleque magricela. Deixou escapar um ultimo flash quando todos haviam parado.

Todos ficaram imóveis.

A celebridade apenas franziu a testa.

- Dessa vez passa.

Todos riram.

Então um homem apareceu e soprou algumas palavras no ouvido do garoto.

- Está pronta? Ótimo, já estou indo.

Ele passou por um corredor e entrou numa porta sozinho, enquanto os dois grandalhões ficaram de guarda do lado de fora.

Dei a volta por trás do camarote e preparei a câmera. Havia uma janela, lá no alto.

Puxei um caixote e subi me pondo a espiar na janela.

Pude ver uma garota, estava nua, acorrentada nas paredes da sala mal iluminada. Ele se maquiava de costas para ela numa dessas mesas com lâmpadas no espelho. Sua aparência agora era de um monstro. Grotesco.

- Eu sou uma grande fã. – Ela dizia, parecia estar dopada.

- Cala a boca!

Ela se calava por instante e então continuava a dizer frases que para mim não faziam sentido.

- Por que os olhos tristes?

- Vocês não entendem. Ninguém. Só querem pedaços de mim!

- Eu sou uma grande fã.

- Preciso relaxar, é só uma dose do que eu preciso.

Abriu a gaveta e tirou comprimidos pretos de um frasco, engoliu. Tremia.

- Por que os olhos tão frios?

- É só uma foto... É só uma foto... Não... Não é uma foto. Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.

- Sou sua maior fã!

Ela gritava e se debatia entre as correntes. Então ele foi pra cima dela.

Dava-lhe golpes, mordia sua pele. Devorava sua carne e se transformava num monstro cada vez maior.

Preparei a câmera e bati a foto.

- Aaaaaaaaaaah!

Olhou pra mim com os olhos mais frios que eu já havia visto. O sangue jorrava da sua boca aberta.

- Por que me expõem?!

Pulei para trás e cai do caixote. Comecei a correr mais rápido que pude.

Então eu o vi sair pela pequena janela.

Nas suas costas cresciam asas negras.

- Por que me expõem?!

Disparei por entre a multidão. Corria sem olhar pra trás, sem pensar no perigo. Sentia suas asas negras me observando. Entre a atmosfera nefasta daquela feira de horrores.

Os seus gritos de ódio eram fortes como os da terra. Preste a devorar o universo.

Olhei no relógio, os ponteiros de novo estavam a rodar depressa.

Olhei para o céu e pude ver, entre as luzes pesadas e o ar.

Suas asas negras tinham feixes dourados de luz.

A besta.

- Porque me expõem? Malditos, sujos!

A besta batia as asas pesadas e um som ensurdecedor dominava a multidão em pânico.

De repente eu ouvi um disparo.

Um dos projeteis do show de pirotecnia atravessou o ar estilhaçando numa explosão incrivelmente mágica uma das asas da besta que desabou no centro das atenções naquele estádio lotado.

Uma multidão de curiosos fez um circulo a sua volta, disparando suas maquinas fotográficas como uma chuva de cometas.

A cada fotografia era como se uma parte da sua alma fosse arrancada, destruída.

- O flash!

Eu corri em direção dos fotógrafos.

- O flash! Parem suas bestas! Vocês vão matá-lo!

Então suas palavras foram essas:

- O que você procura não está aqui. Está do lado de fora e uma vez que sair não será mais o mesmo.

Estava morto.

Então das suas entranhas ela surgiu.

A garota mais bonita que eu já vi.

Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.

A besta escondia em suas entranha a beleza mais pura do mundo.

Sua beleza interior era uma jovem com asas de anjo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Janela de elétrons - capitulo XIV

Cheguei ao prédio do jornal e toquei o interfone.

- Pois não?

- Eu vim pela vaga de fotografo.

A porta se abriu.

Entrei pela sala e cheguei ao balcão.

A secretaria era um andróide.

- Por favor. O senhor Startakos o espera em sua sala.

Entrei e dei de cara com aquele esquisito que encontrei outro dia na praça. O cara de chapéu.

- Eu estava a sua espera cavalheiro.

- Você... Você é o maluco da praça. Queria comprar o rabisco do pombo.

- Ah... O Pombo... Que criatura adorável. – Ficou por alguns segundos contemplando a memória do pombo, então voltou. - Meu nome é Franz Favos Startakos sou diretor do Clarim Intradimencional.

Estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ele parecia desconhecer o gesto.

- Prazer. Meu nome é Vermelho. Vim pelo anuncio lá fora, fotografo.

- Sim... Então quer o emprego?

- Sim.

- É seu.

- Simples assim?

- É... Tenho uma missão pra você.

- Que tipo de missão?

Startakos fechou as cortinas. Então tirou da gaveta um anúncio de uma tradicional casa de tortas.

- Senhor Tortas é nosso maior patrocinador. Ele tem um problema e quer que agente resolva.

- Senhor Tortas?

- Não idiota! É claro que esse não é o nome dele! É um nome fictício. Mas vamos usar códigos. Tudo bem?

- Ok. – Me sentia tão maluco quanto ele no meio daquela conversa.

- Há pouco mais de dois meses, uma nova casa de tortas chegou à cidade. – Então me entregou o anúncio. Publicidade barata. - Nós temos as melhores tortas, os melhores preços, os melhores recheios, mas eles têm o garoto...

- O garoto?

- Sim o garoto da novela!

- E qual é o problema?

- Você sabe o quanto eles amam o garoto da novela. Comem a porcaria que for, fazem tudo que o garoto da novela diz.

- Não gosto do garoto da novela.

- Também não. E é aí que você entra. Quero uma foto do garoto da novela em algo comprometedor. Algo sujo! Quero que a sociedade o odeie. Quero que o persigam com seus tridentes e tochas! É isso que eu quero.

- Considere feito senhor.

Então ele assinou um cheque e me passou.

- Espere! –Disse antes que eu saísse.

Tirou uma maquina fotográfica da gaveta. Uma Pentax K1000.

- Use essa.

Deixei o prédio e peguei o caminho da taverna.

Cheguei, e lá estava o misterioso cara do violão com seu paletó amarelo. Sem conversa, passei reto. Entrei no bar e peguei uma garrafa de vinho barato.

- O que você sabe sobre o garoto? – Perguntei ao barman. Então mostrei o anúncio das tortas.

- Ah... O garoto da novela! – Ligou a TV – Está bem na hora.

Segredos da paixão.

Um parque de diversões abandonado. Uma roda gigante. Lá estava o garoto, e com ele... Não, eu não pude acreditar...

Era Laura na TV... Ela me olhava de dentro da tela e sorria.

- Fugindo como sempre...?

- Talvez.

- Você é um covarde!

O mesmo sorriso.

- Acho que sim.

- Matou alguém?

- Não... Só quero ir embora daqui

- Meu nome é Laura.

- Meu nome é...

A TV saiu do ar. Tudo apagou. A completa escuridão tomou conta do bairro.

- Sempre acaba a luz por aqui? – Perguntei meio preocupado.

- É... – Respondeu o barman.

Então pude ouvir um som nefasto. Como o rugido de mil bestas das profundezas mais nefastas do inferno. Um grito de desespero e ódio.

- Aaaaaaaaaaaaahh!!!

As pessoas pararam em tudo o que estavam fazendo.

O cara que jogava sinuca parou. A gótica fumando um cigarro engoliu seco seu ultimo trago. O punk que passava um copo pelo buraco da orelha parou. O gordo engasgou com um arroto, então tossiu bem baixinho, depois parou também.

Aquele grito vinha da terra.

Então o silencio prevaleceu por uns vinte segundos.

Olhávamos uns para os outros, como pastéis, imóveis.

Então tudo voltou ao normal.

- Algum tipo de terremoto?!

- Não, é só o ódio da terra.

- Essa cidade tem vida.

Era o cara do violão. Acendeu um cigarro.

Tragou a fumaça e então soprou no ar.

As imagens tomavam forma na fumaça. Imagens destorcidas.

- O fundador dessa cidade tinha um sonho... Ele sonhava com uma terra livre onde as pessoas pudessem viver fora da sombra da ignorância. Arquitetos, poetas, cientistas, artistas de todos os cantos do mundo vieram fundar essa cidade.

A cidade prosperava como capital das artes e da ciência. Laboratórios, teatros, instalações arquitetônicas fantásticas. Nenhuma igreja, ou instituição moral que pudesse reprimir a criatividade dos habitantes da cidade.

Então eles vieram...

Entre a fumaça tomavam forma quatro cavaleiros. No alto da colina com seus olhares amaldiçoados.

- A cidade comemorava seu décimo segundo aniversário. E pela madrugada enquanto todos dormiam, eles entraram. Um exército.

Massacraram a população, eram arrastados para fora de suas casas e os executavam a sangue frio em plena madrugada.

Na manhã seguinte as ruas estavam vermelhas, rios de sangue.

Então um homem de armadura negra apareceu por entre a fumaça. Ele dizia:

- Uma sociedade não pode existir sem a lei de Deus! Essa cidade vive no pecado, é amaldiçoada por aqueles que permitem que essa aberração continue.

O estranho terminou sua dose e colocou uma nota na mesa.

- Enterraram nosso fundador vivo nessa mesma terra. A dor e o sofrimento dele foram consumidos. O solo se tornou infértil, tomou a consciência e o espírito do fundador, então a cidade foi engolida pela terra, banida para outra dimensão.

- Então a terra está viva?

Ele virou as costas e saiu.

- Melhor ir para casa, amigo. Amanhã vai ser um dia daqueles.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

janela de elétrons - capitulo XIII

Acordei com o sol na cara e peguei o rumo da estrada. Voltei ao centro da cidade.

Entre os prédios e as estruturas metálicas. Um paraíso de cinza de concreto e válvulas. Um inferno frio. Caminhei até chegar num prédio onde li numa placa.

Precisa-se de fotografo.

Precisava de um emprego, olhei numa vitrine e então me vi refletido.

Uma aparência horrível.

Precisava de roupas novas. Precisava de um banho.

Voltei até a pousada, Lar Doce Lar.

- Não tem pão velho. – Respondeu a senhoria e fechou a porta na minha cara.

Parei a porta com o pé e me apressei em dizer.

- Não lembra de mim dona?! Me hospedei aqui uma semana atrás.

- Sim agora me lembro... Você é o maluco que quebrou minha mobília. – Fechou a cara e voltou a bater a porta. Parei a porta com o pé outra vez.

- Quer parar de fazer isso com o pé?!

- Eu fui assaltado senhora, só preciso de umas roupas emprestadas. Tenho uma entrevista de emprego hoje e...

- Pro inferno você, garoto! Sai daqui se não eu chamo a policia!

Fechou a porta. Bateu a cara, voltou a fechar a porta e desta vez eu nem tinha colocado o pé.

Não teve jeito...

Olhei por cima do muro e vi algumas roupas estiradas no varal. Pensei. Vou roubar.

Pulei o muro peguei uma camisa, uma calça, uma cueca, meias, tudo que tinha direito, então pude ouvir a senhoria gritando:

- Ladrão!

Corri com tudo o que podia e me joguei por cima do muro.

Eu tinha roupas.

As coisas começavam a dar certo para mim. Tomei banho no rio. Roubei o sabão, mas não tinha toalha. Então fiquei secando pelado no sol.

Limpei meus sapatos e me preparei para a entrevista de emprego.

Tudo corria dentro do plano.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Janela de eletréns - XIII

Saí do bar, tentei segui-lo. Atravessou a praça e entrou num beco. Assim que percebeu que eu o estava seguindo ele disse:

- Melhor parar de me seguir, cara.

- Ok.

Então ele se foi, estranho como sempre.

Precisava de um lugar pra dormir. Caminhei horas pelas ruas até chegar num ferro velho abandonado. Passei por um buraco na cerca e encontrei um velho Opala.

Eu entrei pela janela e deitei no banco de trás. Cheirava mofo e mijo de gato e aquário, mas parecia um bom lugar pra ficar.

No sonho eu estava sozinho num parque de diversões. Tudo era preto e branco.

Então eu via Ana me acenando da roda gigante. Feliz.

- Ei, Vermelho sou eu, Ana!

O parque estava cheio.

Estava feliz em vê-la tão contente. Eu acenava com as duas mãos enquanto ela me mandava beijos no vento.

- Ela vai ficar bem. – ouvi uma voz ao meu ouvido.

Era Laura. Linda como sempre. Usava um vestido preto, como naqueles filmes antigos de faroeste. Todos no parque usavam roupas estranhas. Paletós, chapéus, bengalas e relógios de bolso. Até eu tinha um.

- Onde nós estamos...?

-Estamos dentro de uma fotografia. Coloquei todos eles aqui.

Eu olhei ao redor e pude ver Alex com seus pés de porco. Se preparava para acertar o alvo. Ele equilibrava uma marreta pesada no ar, estava sorrindo.

Era estranho, estavam todos tão contentes. Talvez o inferno não fosse um lugar tão ruim, pensei.

- Tirei as almas deles do inferno e as coloquei aqui. Era o mínimo que eu poderia fazer. Eram inocentes.

Pude ver Stu no carrossel feliz da vida como se fosse uma criança de novo.

- Matou toda essa gente? – Tive que perguntar, o parque estava cheio de almas.

- Não, Vermelho. A maioria já estava na fotografia. Ela foi tirada em 1915 pelo meu avô.

- Avô?

- Meu avô me levava ao parque todos os domingos quando eu era criança.

A cidade tinha se tornado maligna.

-Criei essa dimensão. Um lugar só meu... Como nos sonhos. E agora ele parece ter vida de novo.

- Foi uma boa idéia traze-los aqui Laura.

- É acho que foi sim.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XII

XII

Ainda chovia muito quando eu saí. Peguei um ônibus e parei no centro daquela cidade perversa. Abri o guarda-chuva e fui seguindo.

Eu vi Laura entrar no prédio do velho teatro. Corri, mas a perdi de vista. Talvez não fosse ela. Eu pensava. Mas não poderia deixá-la ir.

Mesmo que não fosse ela.

Comprei entradas. Entrei, subi as escadas e procurei entre as poltronas. Nada. Eu estava louco.

Sentei num dos acentos e fiquei. Esperando o show começar.

As luzes se apagaram.

Um homem apareceu no palco e disse algumas palavras:

- A função mais nobre do teatro é divertir.

Eu não conseguia me divertir.

A atmosfera dos risos e aplausos da platéia me deprimia como se eu comesse um biscoito Cream Cracker no meio do deserto do Saara, sozinho, engolindo seco toda tristeza como se eu fosse a batata. Talvez fosse a minha insensibilidade ou minha incapacidade de rir naquele momento que me deprimia mais ainda, não sei.

Distração, entretenimento são fugas da realidade. Momentos sem pensar em você mesmo ou no amanhã. O egoísmo do egoísmo.

A atmosfera ficava cada vez mais densa... Então a moçinha no palco disse:

- Quando deus criou o homem. Fez o cérebro e o pênis como suas partes mais importantes. – Houve silêncio... - Mas o sangue era pouco, de modo que o homem só pode usar um de cada vez. Fazer o que?

De repente eu ri. Senti-me estranho com aquela sensação.

Então o homem dizia:

- Pior é a mulher. Pinto não tem e o cérebro não usa. Todo mês tem que jogar o sangue fora.

Eu ria como se não houvesse amanhã.

- Deus fez o homem. E então pensou: Posso fazer melhor. E assim criou a mulher.

- Fez a mulher por ultimo por que não queria ouvir palpite. Isso sim.

E o casal da peça brigava. Era hilário.

Como era doce aquele momento. Eu estava envolvido com o espetáculo, a dança. A distração me conquistava por completo. Não pensava em Ana, não pensava nos planos maiores e o que era melhor: Não pensava em Laura.

Saí da peça mais leve. Sai pela rua. Precisava de um lugar pra dormir. Precisava de algo pra comer. Precisava de alguém pra amar. Precisava de um emprego. Eu estava fodido e nem dava conta disso. Eu precisava de um banho e de roupas novas. Eu precisava de um relógio que funcionasse e uma lanterna pra me guiar nessa escuridão maligna.

Cheguei num bar. Pedi uma Coca-Cola. Tive a impressão de ouvir um violão. Na calçada do outro lado da rua estava um cara muito estranho tocando. As outras pessoas pareciam não interferir na sua existência inerte.

Eu quero ser a luz que alisa, eu quero a sua mão.

Tentei soprar no seu ouvido, A cor ataca os meus sentidos...

Era um cara bem estranho.

- Quem é o estranho? – Perguntei a um dos caras sentados no balcão.

- Ninguém sabe o nome dele. Ele vem aqui todas as noites. Pede uma dose de Vodca e vai sentar lá do outro lado pra tocar sozinho. As meninas já foram puxar papo com ele, mas ele parece não se interessar por nada que não seja a bebida e o violão. Acho que é retardado.

- Talvez seja um gênio.

- Quem sabe...?

Chegaram três motoqueiros em suas motos. Todos carecas, uniformizados. Neonazistas, assassinos. Vai saber o que eram? Só sei que a galera começou a sair e o bar se esvaziou por completo.

Os caras davam medo. Um deles tinha uma cicatriz enorme no rosto, devia ter uns dois metros de altura. Abaixei a cabeça pra evitar os olhos. A coca-cola me ajudava a engolir o medo.

- Isso é musica de homossexual. – disse um dos brutamontes. – Poe uma de homem ai nessa Juke Box cara.

Colocou Ace Spade do MötorHead. Isso acalmou o animal. Gostava do MötorHead, mas preferia os Beatles.

- Você! – Fingi que não era comigo continuei tomando a coca-cola. – Ei mané eu to falando com você! Não ta me ouvindo?

- Ah...

- Você é algum tipo de retardado?

- Talvez... Posso ser um gênio.

- Ta fazendo piada comigo otário?

- Não amigo. Eu não quero confusão. Já estava de saída. Foi um prazer conhecer vocês.

Tentei sair, mas ai o idiota me puxou pelo ombro.

- Nem tão cedo amigão.

Deu-me um soco bem no meio do estomago. Não foi o primeiro.

- Agente quer fazer umas perguntinhas amigo. - Ele puxou um canivete do bolso e colocou na minha garganta.

- Conhece um cara chamado Vermelho?

- Posso dizer com certeza que sim. O filho da puta me deve uma grana.

- Ah é? – Olhou para seus companheiros esquisitos. – Roger, eu podia jurar que esse idiota aqui é o Vermelho.

- Pois é. – Respondeu Roger. – Tive a mesma impressão.

- Sem problemas amigos. As pessoas me dizem isso o tempo todo. Sabe como é.

- Não. Eu não sei...

Nisto entrou o cavalheiro estranho com seu violão. Passou entre os motoqueiros e parou em frente o balcão. Tinha cabelos pretos compridos e usava um paletó amarelo. Parecia nem notar o inferno que estava acontecendo ali.

- Ei otário! O bar fechou por hoje. – Disse o careca da cicatriz. – Melhor encher o cú em outro buteco.

O cavalheiro parecia nem notar os brutamontes. Era muito corajoso ou burro. Parou no balcão e pediu:

- Vodca e limão.

- Não ouviu o que eu falei bicha?

O estranho olhou com desprezo para o brutamonte e apenas disse:

- Vai se foder.

O careca ficou puto, me jogou no chão e foi pra cima do cavalheiro, mas antes que pudesse pensar em lhe acertar a cara, o estranho já tinha lhe deferido com um soco bem no meio do nariz estúpido e nazista. Arrebentou num estrondo horrível.

O grandalhão curvou que nem um anzol com as duas mãos no nariz sangrando. – Meu nariz! Ele quebrou meu nariz - Um chute no meio do peito e ele caiu de costas no chão do bar.

- Bicha! – Gritou Roger. Então foi pra cima do violeiro com o seu canivete.

O estranho pegou uma garrafa de cerveja e arrebentou na fuça do infeliz. Sem dó. Segurou pela nuca e começou a pressionar as mandíbulas com os polegares. Destruía a face dele como se a cabeça fosse uma abóbora podre.

O terceiro estava imóvel com um taco de sinuca na mão.

- Se afaste seu monstro.

- Ele é apenas humano – Gritava o chefe. – Acerte-o com o taco, idiota.

- Eu não faria isso.

O cara mordia os lábios, estava cagando de medo. Tentou cair pra cima do estranho, mas ele desviou do golpe fácil, pegou o idiota pelas costas numa chave de braço e bateu a sua cabeça no balcão de pedra.

Então o deixou deslizar inconsciente pelo balcão até cair de cara no chão. Como uma pedra.

- Sinto pelo transtorno, senhor. – Disse o estranho para o barman. - Eu já estou de saída. Colocou o dinheiro na mesa, virou o seu drink num gole e saiu.

Nunca vi ninguém lutar assim. Ele não era humano com certeza.