Cheguei ao prédio do jornal e toquei o interfone.
- Pois não?
- Eu vim pela vaga de fotografo.
A porta se abriu.
Entrei pela sala e cheguei ao balcão.
A secretaria era um andróide.
- Por favor. O senhor Startakos o espera em sua sala.
Entrei e dei de cara com aquele esquisito que encontrei outro dia na praça. O cara de chapéu.
- Eu estava a sua espera cavalheiro.
- Você... Você é o maluco da praça. Queria comprar o rabisco do pombo.
- Ah... O Pombo... Que criatura adorável. – Ficou por alguns segundos contemplando a memória do pombo, então voltou. - Meu nome é Franz Favos Startakos sou diretor do Clarim Intradimencional.
Estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ele parecia desconhecer o gesto.
- Prazer. Meu nome é Vermelho. Vim pelo anuncio lá fora, fotografo.
- Sim... Então quer o emprego?
- Sim.
- É seu.
- Simples assim?
- É... Tenho uma missão pra você.
- Que tipo de missão?
Startakos fechou as cortinas. Então tirou da gaveta um anúncio de uma tradicional casa de tortas.
- Senhor Tortas é nosso maior patrocinador. Ele tem um problema e quer que agente resolva.
- Senhor Tortas?
- Não idiota! É claro que esse não é o nome dele! É um nome fictício. Mas vamos usar códigos. Tudo bem?
- Ok. – Me sentia tão maluco quanto ele no meio daquela conversa.
- Há pouco mais de dois meses, uma nova casa de tortas chegou à cidade. – Então me entregou o anúncio. Publicidade barata. - Nós temos as melhores tortas, os melhores preços, os melhores recheios, mas eles têm o garoto...
- O garoto?
- Sim o garoto da novela!
- E qual é o problema?
- Você sabe o quanto eles amam o garoto da novela. Comem a porcaria que for, fazem tudo que o garoto da novela diz.
- Não gosto do garoto da novela.
- Também não. E é aí que você entra. Quero uma foto do garoto da novela em algo comprometedor. Algo sujo! Quero que a sociedade o odeie. Quero que o persigam com seus tridentes e tochas! É isso que eu quero.
- Considere feito senhor.
Então ele assinou um cheque e me passou.
- Espere! –Disse antes que eu saísse.
Tirou uma maquina fotográfica da gaveta. Uma Pentax K1000.
- Use essa.
Deixei o prédio e peguei o caminho da taverna.
Cheguei, e lá estava o misterioso cara do violão com seu paletó amarelo. Sem conversa, passei reto. Entrei no bar e peguei uma garrafa de vinho barato.
- O que você sabe sobre o garoto? – Perguntei ao barman. Então mostrei o anúncio das tortas.
- Ah... O garoto da novela! – Ligou a TV – Está bem na hora.
Segredos da paixão.
Um parque de diversões abandonado. Uma roda gigante. Lá estava o garoto, e com ele... Não, eu não pude acreditar...
Era Laura na TV... Ela me olhava de dentro da tela e sorria.
- Fugindo como sempre...?
- Talvez.
- Você é um covarde!
O mesmo sorriso.
- Acho que sim.
- Matou alguém?
- Não... Só quero ir embora daqui
- Meu nome é Laura.
- Meu nome é...
A TV saiu do ar. Tudo apagou. A completa escuridão tomou conta do bairro.
- Sempre acaba a luz por aqui? – Perguntei meio preocupado.
- É... – Respondeu o barman.
Então pude ouvir um som nefasto. Como o rugido de mil bestas das profundezas mais nefastas do inferno. Um grito de desespero e ódio.
- Aaaaaaaaaaaaahh!!!
As pessoas pararam em tudo o que estavam fazendo.
O cara que jogava sinuca parou. A gótica fumando um cigarro engoliu seco seu ultimo trago. O punk que passava um copo pelo buraco da orelha parou. O gordo engasgou com um arroto, então tossiu bem baixinho, depois parou também.
Aquele grito vinha da terra.
Então o silencio prevaleceu por uns vinte segundos.
Olhávamos uns para os outros, como pastéis, imóveis.
Então tudo voltou ao normal.
- Algum tipo de terremoto?!
- Não, é só o ódio da terra.
- Essa cidade tem vida.
Era o cara do violão. Acendeu um cigarro.
Tragou a fumaça e então soprou no ar.
As imagens tomavam forma na fumaça. Imagens destorcidas.
- O fundador dessa cidade tinha um sonho... Ele sonhava com uma terra livre onde as pessoas pudessem viver fora da sombra da ignorância. Arquitetos, poetas, cientistas, artistas de todos os cantos do mundo vieram fundar essa cidade.
A cidade prosperava como capital das artes e da ciência. Laboratórios, teatros, instalações arquitetônicas fantásticas. Nenhuma igreja, ou instituição moral que pudesse reprimir a criatividade dos habitantes da cidade.
Então eles vieram...
Entre a fumaça tomavam forma quatro cavaleiros. No alto da colina com seus olhares amaldiçoados.
- A cidade comemorava seu décimo segundo aniversário. E pela madrugada enquanto todos dormiam, eles entraram. Um exército.
Massacraram a população, eram arrastados para fora de suas casas e os executavam a sangue frio em plena madrugada.
Na manhã seguinte as ruas estavam vermelhas, rios de sangue.
Então um homem de armadura negra apareceu por entre a fumaça. Ele dizia:
- Uma sociedade não pode existir sem a lei de Deus! Essa cidade vive no pecado, é amaldiçoada por aqueles que permitem que essa aberração continue.
O estranho terminou sua dose e colocou uma nota na mesa.
- Enterraram nosso fundador vivo nessa mesma terra. A dor e o sofrimento dele foram consumidos. O solo se tornou infértil, tomou a consciência e o espírito do fundador, então a cidade foi engolida pela terra, banida para outra dimensão.
- Então a terra está viva?
Ele virou as costas e saiu.
- Melhor ir para casa, amigo. Amanhã vai ser um dia daqueles.

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