quarta-feira, 14 de outubro de 2009

XI

Acordei. Levantei e sorri. O guarda dormia. Gordo.

Sai pela porta da frente da delegacia, como muitos outros já fizeram antes.

Eu tinha que encontrar Laura.

Eu era um homem marcado. Não tinha onde me esconder. Peguei a avenida e segui em fuga.

Bati na porta, mas Ana não apareceu.

A procurei no restaurante e nada. Ada não estava em lugar algum.

Fechei meus olhos então pude escutar.

Sua voz cantando uma triste canção.

Eu vi você entrar por entre a porta aberta

Porque o bem me acompanha se é o mau que me completa.

Eu vi você me olhar por entre a porta aberta

Por que então me abandona? Se é que o mau em mim desperta...

A dor

Eu vi você passar por entre a luz da porta.

Minha amiga me acompanha enquanto a solidão conforta.

Eu vi você fumar por entre a luz da porta.

Envolvida do silencio seco das palavras mortas.

Eu que odiava o sol maldita luz do dia...

Sangrando nesse ódio que o meu ócio conduzia...

Eu escrevi essa musica pra ela.

Então eu pude vê-la. Projetada no fundo da minha lembrança...

Era um quarto escuro e calmo.

Ela chorava rios de sangue.

Eu vi você caindo com um beijo

Em Vermelho coloria a alegria em meu desejo.

Eu vi você caindo por um beijo

E o seu sangue refletia os passarinhos no azulejo.

Em suas mãos estava Laura Revolver.

Ada ia se matar. Eu não podia deixar.

Fechei meus olhos.

Projetei minha alma no infinito, deixando meu corpo ali imóvel.

Procurei na imensidão daquele vazio e então eu pude sentir sua tristeza.

Segui confuso em dimensão sonora seguindo um rio de sangue junto ao som dos seus soluços.

Então eu a vi...

Ela estava de joelhos com a arma apontada para cabeça.

- Ana. Não!

- Eu não posso ficar, Vermelho. Eu tenho que ir. – Ela soluçava. Se afogava na própria tristeza.

– Você me acha bonita?

Foi seu adeus, sua despedida. Ela sorriu fechou os olhos e puxou o gatilho.

Laura...

Meus olhos se encheram em ódio vivo.

Vermelhos de sangue.

-Eu te mato Laura. Te levo de volta pro inferno nem que seja a ultima coisa que eu faça

- A garota era um entrave Vermelho. Tive que fazer.

- Pro inferno você e o plano maior. Teve que fazer?! O que esta dizendo?

- Agora nada ficara entre nós, Vermelho. Se não se lembra temos uma missão a cumprir. A garota tinha que morrer.

- Ela não precisava morrer Laura. Foda-se o esquema. Foda-se os planos maiores. Foda-se você. Eu só queria que minha vida voltasse no tempo antes de todo esse inferno começar. Ana era o único elo com o meu passado e você a destruiu. Você é uma cobra.

- Vermelho. Não há tempo para emoções no campo de batalha. Sentimentos como amizade, amor e ódio, são ilusões que nos separam do nosso objetivo. Puro apego da alma que nos aprisiona às coisas mundanas. A verdadeira liberdade se conquista quando aprendemos a viver sem medo.

O veneno era doce nas suas palavras. Queria vomitar.

-Essa noite eu fiz Vermelho. – ela olhou nos meus olhos e disse: - Quando corria em pesadelo sem saber o que me seguia, eu fiz. Olhei para trás e vi o meu reflexo no espelho. Vi que eu mesma me perseguia. Precisa confiar em mim.

Eu não tinha mais em quem confiar. Ada estava morta. Eu só tinha Laura e ela de certo modo me tinha.

Voltei ao plano material.

Não sabia qual era o próximo passo a ser tomado. Minhas decisões já não me valiam de nada. A cada lugar que eu ia eu era manipulado em uma situação mais estranha. Entendia agora o que Laura havia me dito dias atrás.

Você acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres.

Sentimentos como amor, liberdade, ódio são ilusões. Você é uma peça nesse jogo assim como eu.

Eu não queria ser a peça, não queria ser o jogo.

Mas a cada dia que se passava naquela cidade eu me sentia mais preso.

Eu percebia que as regras não faziam sentido. E por mais que eu quisesse entender esse jogo, as cartas mudavam sua ordem e faziam-se ocultas.

Não me sinto feliz nem triste. Só sinto o enorme vazio que existe aqui.

As cidades e suas garras nos fazem raízes solitárias.

Pra sugar tudo aquilo que não presta. E apodrecer como uma batata.

Uma professora do primário uma vez me deu uma batata e disse:

- Vermelho, escreva nessa batata tudo aquilo que te chateia.

Então eu escrevi.

Passaram dias e dias e onde quer que eu fosse eu levava comigo a minha batata. Olhar para ela e ver meus sentimentos escritos ali me davam a impressão de que um dia eu iria apodrecer como ela.

Então ela me disse:

- Todos temos feridas expostas.

Era uma força maligna que eu sentia ali, que me fazia ficar, perder a rodada, voltar dez casas e esperar o fim.

E perder o jogo.

Se dissesse a flor que tu tinhas nas mãos. Que o maior desperdício da vida é viver por amor. Talvez pedisse ao vento:

Sopra-me quando todo mal me aquece...

Quem vai notar?

Se nessa doce solidão quem te acompanha não for eleita a perfeição eterna...

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