segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XII

XII

Ainda chovia muito quando eu saí. Peguei um ônibus e parei no centro daquela cidade perversa. Abri o guarda-chuva e fui seguindo.

Eu vi Laura entrar no prédio do velho teatro. Corri, mas a perdi de vista. Talvez não fosse ela. Eu pensava. Mas não poderia deixá-la ir.

Mesmo que não fosse ela.

Comprei entradas. Entrei, subi as escadas e procurei entre as poltronas. Nada. Eu estava louco.

Sentei num dos acentos e fiquei. Esperando o show começar.

As luzes se apagaram.

Um homem apareceu no palco e disse algumas palavras:

- A função mais nobre do teatro é divertir.

Eu não conseguia me divertir.

A atmosfera dos risos e aplausos da platéia me deprimia como se eu comesse um biscoito Cream Cracker no meio do deserto do Saara, sozinho, engolindo seco toda tristeza como se eu fosse a batata. Talvez fosse a minha insensibilidade ou minha incapacidade de rir naquele momento que me deprimia mais ainda, não sei.

Distração, entretenimento são fugas da realidade. Momentos sem pensar em você mesmo ou no amanhã. O egoísmo do egoísmo.

A atmosfera ficava cada vez mais densa... Então a moçinha no palco disse:

- Quando deus criou o homem. Fez o cérebro e o pênis como suas partes mais importantes. – Houve silêncio... - Mas o sangue era pouco, de modo que o homem só pode usar um de cada vez. Fazer o que?

De repente eu ri. Senti-me estranho com aquela sensação.

Então o homem dizia:

- Pior é a mulher. Pinto não tem e o cérebro não usa. Todo mês tem que jogar o sangue fora.

Eu ria como se não houvesse amanhã.

- Deus fez o homem. E então pensou: Posso fazer melhor. E assim criou a mulher.

- Fez a mulher por ultimo por que não queria ouvir palpite. Isso sim.

E o casal da peça brigava. Era hilário.

Como era doce aquele momento. Eu estava envolvido com o espetáculo, a dança. A distração me conquistava por completo. Não pensava em Ana, não pensava nos planos maiores e o que era melhor: Não pensava em Laura.

Saí da peça mais leve. Sai pela rua. Precisava de um lugar pra dormir. Precisava de algo pra comer. Precisava de alguém pra amar. Precisava de um emprego. Eu estava fodido e nem dava conta disso. Eu precisava de um banho e de roupas novas. Eu precisava de um relógio que funcionasse e uma lanterna pra me guiar nessa escuridão maligna.

Cheguei num bar. Pedi uma Coca-Cola. Tive a impressão de ouvir um violão. Na calçada do outro lado da rua estava um cara muito estranho tocando. As outras pessoas pareciam não interferir na sua existência inerte.

Eu quero ser a luz que alisa, eu quero a sua mão.

Tentei soprar no seu ouvido, A cor ataca os meus sentidos...

Era um cara bem estranho.

- Quem é o estranho? – Perguntei a um dos caras sentados no balcão.

- Ninguém sabe o nome dele. Ele vem aqui todas as noites. Pede uma dose de Vodca e vai sentar lá do outro lado pra tocar sozinho. As meninas já foram puxar papo com ele, mas ele parece não se interessar por nada que não seja a bebida e o violão. Acho que é retardado.

- Talvez seja um gênio.

- Quem sabe...?

Chegaram três motoqueiros em suas motos. Todos carecas, uniformizados. Neonazistas, assassinos. Vai saber o que eram? Só sei que a galera começou a sair e o bar se esvaziou por completo.

Os caras davam medo. Um deles tinha uma cicatriz enorme no rosto, devia ter uns dois metros de altura. Abaixei a cabeça pra evitar os olhos. A coca-cola me ajudava a engolir o medo.

- Isso é musica de homossexual. – disse um dos brutamontes. – Poe uma de homem ai nessa Juke Box cara.

Colocou Ace Spade do MötorHead. Isso acalmou o animal. Gostava do MötorHead, mas preferia os Beatles.

- Você! – Fingi que não era comigo continuei tomando a coca-cola. – Ei mané eu to falando com você! Não ta me ouvindo?

- Ah...

- Você é algum tipo de retardado?

- Talvez... Posso ser um gênio.

- Ta fazendo piada comigo otário?

- Não amigo. Eu não quero confusão. Já estava de saída. Foi um prazer conhecer vocês.

Tentei sair, mas ai o idiota me puxou pelo ombro.

- Nem tão cedo amigão.

Deu-me um soco bem no meio do estomago. Não foi o primeiro.

- Agente quer fazer umas perguntinhas amigo. - Ele puxou um canivete do bolso e colocou na minha garganta.

- Conhece um cara chamado Vermelho?

- Posso dizer com certeza que sim. O filho da puta me deve uma grana.

- Ah é? – Olhou para seus companheiros esquisitos. – Roger, eu podia jurar que esse idiota aqui é o Vermelho.

- Pois é. – Respondeu Roger. – Tive a mesma impressão.

- Sem problemas amigos. As pessoas me dizem isso o tempo todo. Sabe como é.

- Não. Eu não sei...

Nisto entrou o cavalheiro estranho com seu violão. Passou entre os motoqueiros e parou em frente o balcão. Tinha cabelos pretos compridos e usava um paletó amarelo. Parecia nem notar o inferno que estava acontecendo ali.

- Ei otário! O bar fechou por hoje. – Disse o careca da cicatriz. – Melhor encher o cú em outro buteco.

O cavalheiro parecia nem notar os brutamontes. Era muito corajoso ou burro. Parou no balcão e pediu:

- Vodca e limão.

- Não ouviu o que eu falei bicha?

O estranho olhou com desprezo para o brutamonte e apenas disse:

- Vai se foder.

O careca ficou puto, me jogou no chão e foi pra cima do cavalheiro, mas antes que pudesse pensar em lhe acertar a cara, o estranho já tinha lhe deferido com um soco bem no meio do nariz estúpido e nazista. Arrebentou num estrondo horrível.

O grandalhão curvou que nem um anzol com as duas mãos no nariz sangrando. – Meu nariz! Ele quebrou meu nariz - Um chute no meio do peito e ele caiu de costas no chão do bar.

- Bicha! – Gritou Roger. Então foi pra cima do violeiro com o seu canivete.

O estranho pegou uma garrafa de cerveja e arrebentou na fuça do infeliz. Sem dó. Segurou pela nuca e começou a pressionar as mandíbulas com os polegares. Destruía a face dele como se a cabeça fosse uma abóbora podre.

O terceiro estava imóvel com um taco de sinuca na mão.

- Se afaste seu monstro.

- Ele é apenas humano – Gritava o chefe. – Acerte-o com o taco, idiota.

- Eu não faria isso.

O cara mordia os lábios, estava cagando de medo. Tentou cair pra cima do estranho, mas ele desviou do golpe fácil, pegou o idiota pelas costas numa chave de braço e bateu a sua cabeça no balcão de pedra.

Então o deixou deslizar inconsciente pelo balcão até cair de cara no chão. Como uma pedra.

- Sinto pelo transtorno, senhor. – Disse o estranho para o barman. - Eu já estou de saída. Colocou o dinheiro na mesa, virou o seu drink num gole e saiu.

Nunca vi ninguém lutar assim. Ele não era humano com certeza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário