XV
Acordei no outro dia com mais sono do que eu tinha antes de dormir. Gritei com o relógio e fui até a cozinha. Peguei uma banana, joguei fora e comi a casca. Dei um berro:
- Aaaaaaaah!
Não entendi por que. Então dei com o dedinho no pé do sofá.
O tempo parecia correr de trás pra frente naquela manhã. Olhei no relógio e os ponteiros corriam para trás, feito loucos como sempre. Olhei na janela e o sol nascia do lado errado. Nada fazia sentido.
Vesti o calçado e depois a meia por cima, então a cueca por cima da calça. Despenteei meus cabelos com o pente. Sentia-me horrível, mas não podia me controlar. Tudo saia trocado, as palavras, os pensamentos e até o meu jeito de sentir.
Desci as escadas de costas e saí pela rua. Todo mundo estava meio perdido. Senti-me mal, Depois ri, então fiquei surpreso.
Vi Startakos. O tempo maluco parecia não incomoda-lo.
- Bom dia cavalheiro.
- Ei! Star, o que ta havendo aqui? Ta tudo meio maluco essa manhã.
- Ah. Primeiro dia do trocado?
- Dia do trocado!? Que porra é essa? Só sei que hoje de manhã balanguei o pinto, desci a tampa da privada, mijei em cima.
- É isso mesmo, amigo. Aqui os dias acabam de trinta em trinta, logo é preciso rebobinar. Sabe? Como as fitas VHS.
- Até quando vai rolar isso?
- É só por alguns dias.
- Dias?!
- Oh. Vou te ensinar um macete. Tudo o que for fazer... Nada de seqüências. Pense de trás pára frente. Entendeu?
- Ah, vou tentar.
- Algum progresso com o garoto?
- Ainda não. Ele é um tipo que aparece pouco.
- Ele vai estar num concerto hoje, às vinte e uma horas. Esteja lá.
- Feliz dia do trocado pra você Startakos.
Parei no ponto de ônibus e esperei.
Um ônibus chegou de marcha ré. Previsível. Mas um dia de sol naquela cidade estranha.
O dia prosseguiu estranho, mas aos poucos fui me acostumando com a sensação.
Comprei ingressos para o concerto. O cara do guichê era incrivelmente igual ao cara da loja de conveniência do posto.
- Aproveite o show.
Eu voltei pro quarto deitei no sofá deixando minha cabeça suspensa no ar. Precisava pensar, precisava de oxigênio.
Se tinha alguma coisa estranha com o garoto eu ia descobrir hoje.
Vinte um. O relógio que rodava até agora parou nessa hora, hora do concerto. Eu estava lá. Estádio Janela de elétrons.
Abri espaço por entre a multidão, Cyberpunks, Riots, Pin-ups, gente para todos os lados, de todos os tipos.
A banda entrou no palco.
O publico.
Gritavam como animais agonizando a beira da morte. Eu tinha que encontrar o garoto.
No camarote fechado com seguranças dos dois lados. Lá estava. Fiquei observando. Seu sorriso tinha um ar de escárnio, os outros fotógrafos batiam fotos em disparada, uma metralhadora de luz.
De repente o sorriso se transforma na expressão mais demoníaca de ódio.
- Chega!
Os fotógrafos todos de imediato param as máquinas. Menos um, um moleque magricela. Deixou escapar um ultimo flash quando todos haviam parado.
Todos ficaram imóveis.
A celebridade apenas franziu a testa.
- Dessa vez passa.
Todos riram.
Então um homem apareceu e soprou algumas palavras no ouvido do garoto.
- Está pronta? Ótimo, já estou indo.
Ele passou por um corredor e entrou numa porta sozinho, enquanto os dois grandalhões ficaram de guarda do lado de fora.
Dei a volta por trás do camarote e preparei a câmera. Havia uma janela, lá no alto.
Puxei um caixote e subi me pondo a espiar na janela.
Pude ver uma garota, estava nua, acorrentada nas paredes da sala mal iluminada. Ele se maquiava de costas para ela numa dessas mesas com lâmpadas no espelho. Sua aparência agora era de um monstro. Grotesco.
- Eu sou uma grande fã. – Ela dizia, parecia estar dopada.
- Cala a boca!
Ela se calava por instante e então continuava a dizer frases que para mim não faziam sentido.
- Por que os olhos tristes?
- Vocês não entendem. Ninguém. Só querem pedaços de mim!
- Eu sou uma grande fã.
- Preciso relaxar, é só uma dose do que eu preciso.
Abriu a gaveta e tirou comprimidos pretos de um frasco, engoliu. Tremia.
- Por que os olhos tão frios?
- É só uma foto... É só uma foto... Não... Não é uma foto. Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.
- Sou sua maior fã!
Ela gritava e se debatia entre as correntes. Então ele foi pra cima dela.
Dava-lhe golpes, mordia sua pele. Devorava sua carne e se transformava num monstro cada vez maior.
Preparei a câmera e bati a foto.
- Aaaaaaaaaaah!
Olhou pra mim com os olhos mais frios que eu já havia visto. O sangue jorrava da sua boca aberta.
- Por que me expõem?!
Pulei para trás e cai do caixote. Comecei a correr mais rápido que pude.
Então eu o vi sair pela pequena janela.
Nas suas costas cresciam asas negras.
- Por que me expõem?!
Disparei por entre a multidão. Corria sem olhar pra trás, sem pensar no perigo. Sentia suas asas negras me observando. Entre a atmosfera nefasta daquela feira de horrores.
Os seus gritos de ódio eram fortes como os da terra. Preste a devorar o universo.
Olhei no relógio, os ponteiros de novo estavam a rodar depressa.
Olhei para o céu e pude ver, entre as luzes pesadas e o ar.
Suas asas negras tinham feixes dourados de luz.
A besta.
- Porque me expõem? Malditos, sujos!
A besta batia as asas pesadas e um som ensurdecedor dominava a multidão em pânico.
De repente eu ouvi um disparo.
Um dos projeteis do show de pirotecnia atravessou o ar estilhaçando numa explosão incrivelmente mágica uma das asas da besta que desabou no centro das atenções naquele estádio lotado.
Uma multidão de curiosos fez um circulo a sua volta, disparando suas maquinas fotográficas como uma chuva de cometas.
A cada fotografia era como se uma parte da sua alma fosse arrancada, destruída.
- O flash!
Eu corri em direção dos fotógrafos.
- O flash! Parem suas bestas! Vocês vão matá-lo!
Então suas palavras foram essas:
- O que você procura não está aqui. Está do lado de fora e uma vez que sair não será mais o mesmo.
Estava morto.
Então das suas entranhas ela surgiu.
A garota mais bonita que eu já vi.
Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.
A besta escondia em suas entranha a beleza mais pura do mundo.
Sua beleza interior era uma jovem com asas de anjo.

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