terça-feira, 20 de outubro de 2009

Janela de eletréns - XIII

Saí do bar, tentei segui-lo. Atravessou a praça e entrou num beco. Assim que percebeu que eu o estava seguindo ele disse:

- Melhor parar de me seguir, cara.

- Ok.

Então ele se foi, estranho como sempre.

Precisava de um lugar pra dormir. Caminhei horas pelas ruas até chegar num ferro velho abandonado. Passei por um buraco na cerca e encontrei um velho Opala.

Eu entrei pela janela e deitei no banco de trás. Cheirava mofo e mijo de gato e aquário, mas parecia um bom lugar pra ficar.

No sonho eu estava sozinho num parque de diversões. Tudo era preto e branco.

Então eu via Ana me acenando da roda gigante. Feliz.

- Ei, Vermelho sou eu, Ana!

O parque estava cheio.

Estava feliz em vê-la tão contente. Eu acenava com as duas mãos enquanto ela me mandava beijos no vento.

- Ela vai ficar bem. – ouvi uma voz ao meu ouvido.

Era Laura. Linda como sempre. Usava um vestido preto, como naqueles filmes antigos de faroeste. Todos no parque usavam roupas estranhas. Paletós, chapéus, bengalas e relógios de bolso. Até eu tinha um.

- Onde nós estamos...?

-Estamos dentro de uma fotografia. Coloquei todos eles aqui.

Eu olhei ao redor e pude ver Alex com seus pés de porco. Se preparava para acertar o alvo. Ele equilibrava uma marreta pesada no ar, estava sorrindo.

Era estranho, estavam todos tão contentes. Talvez o inferno não fosse um lugar tão ruim, pensei.

- Tirei as almas deles do inferno e as coloquei aqui. Era o mínimo que eu poderia fazer. Eram inocentes.

Pude ver Stu no carrossel feliz da vida como se fosse uma criança de novo.

- Matou toda essa gente? – Tive que perguntar, o parque estava cheio de almas.

- Não, Vermelho. A maioria já estava na fotografia. Ela foi tirada em 1915 pelo meu avô.

- Avô?

- Meu avô me levava ao parque todos os domingos quando eu era criança.

A cidade tinha se tornado maligna.

-Criei essa dimensão. Um lugar só meu... Como nos sonhos. E agora ele parece ter vida de novo.

- Foi uma boa idéia traze-los aqui Laura.

- É acho que foi sim.

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