VII
- Acorda otário. Não acabei com você ainda.
Foi um chute cruel no estomago.
Cuspi uma poça de sangue densa, mercúrio vermelho pela minha garganta. Eu estava cego. A embaçada atmosfera dos meus olhos assim como a minha mente, poluída demais para ver, odiar, e reconhecer quem me agredia.
- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.
Alex...
O grandalhão estúpido. Com seus amigos punks. Droga. Devia ter imaginado. O filho da puta me pegou enquanto estava atormentado. Dói tanto que até rima.
- Sabia que ia te encontrar amigo. Porque um covarde sempre deixa rastro de medo onde passa.
Deu outro chute na boca do estomago. Me fez vomitar sangue. E ódio.
– Eu não sei quem é você e de onde veio. Sei que se acha melhor que todo mundo aqui, mas a verdade é que você esta entre os porcos agora, amigo, então se acostume com o chiqueiro. – Outro chute - Vou dizer só mais uma vez. Estaremos de olho em você, a cada esquina a cada rua, a cada peido que der, estaremos lá. E mais uma coisa, fique longe da Laura ta me entendendo.
- Eu vou matar vocês seus putos. Eu vou matar todos.
Não conseguia levantar. Era fraco, eles riam como porcos. Uma risada nasal e estúpida. Levantei os olhos e pude ver. Seus pés eram estranhos. Eram pés de porco, coxas de porco, eram porcos até a cintura.
- Alex! Seus pés! – Eu ria – Você tem pés de porco! Hahahahahahaha!
Há muito tempo não dava uma boa risada, era ridículo, ele estava se transformando num porco.
Seus amigos se afastaram pra longe, correram. E varias pessoas começavam a chegar de todos os lados.
- Merda o que ta acontecendo comigo – Ele estava em pânico, chorava, tremia. – Não olhem pra mim! Eu estou feio... – Ele chorava, tentando cobrir as pernas.
Eu ria do fundo dos meus pulmões era hilário. Ria do ódio do meu coração.
- Olhem só que otário – Gritavam um grupo de garotas que acabava de chegar, - Ele é feio. Feio como um porco.
- Não! Eu não sou assim. – Alex começou a encolher como nos desenhos animados até ficar muito pequeno. Ele chorava. Um choro nasal e estúpido.
- Sim Alex é o que você é: Um porco. Tem pernas de porco. Chora como um porco e fede como um porco.
- Porcalhão, porcalhão, Porcalhão! – gritavam em coro as meninas.
- Olha só pessoal ele esta comendo a própria caca – eu apontava pra ele e me sentia forte, bonito, vivo de novo.
Eles riam, todos riam, eu estava oferecendo um espetáculo de violência e humilhação gratuita. Me sentia o cara que inventou a TV. Me sentia forte, bonito.
Os garotos que estavam lá jogavam cenouras e restos de comida nele.
- Hora do lanche porquinho – Dizia um dos garotos. – Tem que comer tudinho.
Jogava restos de comida nele.
Comecei a me sentir desconfortável com aquilo tudo, sabe. Comecei a pensar que fomos longe demais na brincadeira.
Mas ai alguém gritou:
- Ele tem uma arma!
Alex puxou o gatilho. Foram cinco disparos. Cinco tiros certeiros. A multidão se espalhara e sobre o chão só ficaram cinco corpos.
Eu pude ver em suas mãos.
Laura. Seus olhos brilhavam. Anéis de fogo.
Só tinha mais uma bala, só uma. Laura era um revolver de seis tiros eu tinha certeza.
Só restara eu e ele naquela Avenida fria.
Olhou nos meus olhos. E os seus eram frios como o espaço, cores frias e o zero absoluto. Apontou pra minha cara. Voltou a arma contra sua própria cabeça e apertou o gatilho.
O atirador sorria provocando a morte.
Não havia arma depois disso. Laura sumia diante dos meus olhos.
Eu o vi cair.
Senti um frio na espinha.
Eu corri como se não houvesse amanhã.
De certo modo me sentia responsável por tudo que aconteceu. Me sentia sujo, estava fora de mim.
Não sabia nem quem eu era.
Como poderia estar fora de mim se nem sabia quem eu era.
Talvez fosse um assassino.

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