quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Janela de eletrons - Capitulo dez

X

De súbito eu voltei à consciência.

- Acorda vagabundo!

Era o policial. O mesmo da primeira noite na cidade. Me jogou numa cela suja e escura. Pervertidos, bêbados e andarilhos. Era a cela dos bebuns.

- Olha só quem chegou ao purgatório – Disse um dos Bêbados. Parecia ser o líder deles.

- Se afastem de mim seus vermes! Eu tenho uma faca.

- Não. Você não tem não. Mas eu tenho.

Tirou uma lamina, enferrujada, letal e infecciosa.

- Meu nome é Medo. Esse à esquerda é Fúria. Á direita aqui tem nosso amigo Dor, aquele de bigode. Bem... Aquele é o Bigode.

- E aquele estirado ali, o barbudo? – Perguntei.

- Aquele eu não conheço não. Ta dormindo dês de que agente chegou.

- Ah...

- Agente ouviu falar de você. Vermelho. Soube que tem muita gente atrás da sua cabeça. Pelo que ouvimos você foge da ordem. É o portador da alma “Z”.

- Alma Z?

- É um novo tipo de alma. Desenvolvida pelo plano maior. As forças divinas desconfiam que esse fluido espiritual seja o inicio de uma nova era. Alguém lá no topo quer começar tudo de novo. E mandou esse novo tipo de alma para testes na terra. Acredita-se que um novo deus surgirá para tomar o trono do antigo. Ambos os lados. Céu e Inferno se vêem ameaçado por esse individuo esse novo tipo de alma. E o que parece é que você é a chave.

- Como você sabe tudo isso?

- Não somos bêbados Vermelho. Somos Monges.

- Monges?

- Isso. Nossa doutrina estuda os planos maiores há séculos. Estamos infiltrados nessa cidade há décadas a sua espera.

- E como é que sabiam que eu estaria aqui?

- Essa cidade é uma distorção entre o tempo e espaço. A cidade não existe fisicamente. É uma aberração super-dimencional do tempo. Um reduto de almas sobre suspeita de Z. E o que parece é que o maior suspeito é você Vermelho.

- Merda!

Há essa hora o oficial Pereira deve estar ligando para um de seus superiores. Informando que você esta sob custódia. Escuta Vermelho! Você precisa sair daqui agora!

- Como eu vou sair daqui? Sou um rato enjaulado, fodido e mal pago, assim como todos vocês.

- Se você é o Z. deve ter poderes psíquicos, espirituais. Sei lá você deve fazer alguma coisa!

Eu estava perdido. Minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a explodir e espalhar feijão pra todo lado.

A musica ficava forte e cada vez mais alta na minha cabeça.

O feio, o belo e o esquisito, são partes do meu show.

O preto o branco, o bloco, o ciclo, imagens do que sou.

A obra prima, a falta, a rima, o erro e o perdão.

Cortei duas metades do meu eu interior perdido em...

Impressões

-O que ele ta cantando?

- Sei la... – respondeu o Medo - Ele é o Z.

Uma aura vermelha envolvia o meu corpo. Minha mente podia alcançar o infinito.

- Sim...

- Corra amigo. Semeie o tempo!

Fechei os olhos e desapareci.

Era como uma brincadeira.

Quando era criança eu lembro que brincava de esquecer o mundo.

Eu fechava os olhos e dizia:

- Onde estou? Quem sou eu? Que lugar é esse?

Eu deixava aquela sensação me embrulhar o estomago então eu abria os olhos e tentava esquecer das perguntas. Pensava em desenho animado. Formiga. Coisas de criança

Abri meus olhos e senti meus pés no chão outra vez.

Estava fora da cela. Sentia-me o mestre do tele transporte.

Então resolvi testar meus novos poderes psíquicos.

Vi uma poça d’água no chão. Me agachei e toquei meus dedos na água. Pensei na água toda escorregadia, fria e molhada. Desabei.

Virei água, escorria pra onde quisesse. Corri pelas ruas. Molhei o asfalto. Parei e pensei na minha forma humana e lá estava eu de volta.

Estava feliz com os meus novos poderes, tinha despertado como uma fênix pra dominar o meu poder.

Então eu pude ouvir vozes na minha cabeça.

- Vermelho. Acorda!

- Ele ta inconsciente.

- Droga o velho Pereira está voltando. Acorda Vermelho o seu corpo ainda está aqui!

Droga. Não tinha me tele transportado porra nenhuma. Minha consciência estava livre, mas meu corpo estava na mesma cela com Medo e os rapazes.

Pensei. Preciso voltar.

Imaginei a cela. Fechei os olhos e a sensação voltou. Me senti no elevador do Playcenter. Em queda livre. Alegria estúpida.

Um flash.

Estava de volta.

- Ei galera! Eu estou de volta.

Todos olharam para mim com espanto.

- Ah? Quem é você cara? – Perguntou Bigode.

- Vermelho porra!

Olhei pro lado e vi meu corpo imóvel no chão. Droga! Voltei no corpo do cara estranho que estava em coma alcoólico na cela. Aquele que ninguém sabia quem era. O barbudo.

Chegou Pereira. Cuspiu no chão como quem odeia onde pisa.

- Caramba, o anormal ai acordou? Pensei que estava morto.

Então ele viu meu corpo estirado no chão da cela, ficou roxo. Teve um chilique.

- O que o Vermelho ta fazendo caído ai. Seus bêbados! O que vocês fizeram.

Olhei para Medo e pisquei.

- Ele tava enchendo o saco seu guarda – Falou. – Aí agente deu um jeito nele.

- Droga! Tenho que levar o idiota pra interrogatório seus cretinos. Estão fodendo tudo.

Estava puto. Com certeza tinha ordens dos seus superiores para me levar dali. Abriu a cela. Entraram, ele e mais dois guardas. Tiraram meu corpo imóvel de lá.

- Tentem reanimar ele. Preciso dele falando! – Ordenou aos seus subordinados.

Então eles saíram.

- Ainda fodo vocês seus bêbados. Esperem e vão ver.

Saiu pisando fundo. Como quem odeia o chão.

- Essa foi por pouco, Vermelho. Que excelente idéia, voltar no corpo do indigente.

- É. Eu tinha que pensar numa maneira de não ser pego.

A verdade é que tudo não passou de um engano. Mas assumir pra que? Fiz pose de malandro e fiquei.

- E agora o que vai fazer?

- Vou esperar. Esse bêbado aqui deve sair em algumas horas.

- Tem razão eles não deixam os bêbados aqui por muito tempo. Depois de uns dias eles começam a feder mais do que o normal.

- Há quanto tempo estão presos aqui?! – O cheiro era insuportável.

Sentia-me horrível naquele corpo. Varias partes doíam e a barba fedia. Tinha carrapatos, Hemorróidas e mau hálito. Sentia-me o rei da porquisse.

Esperamos horas e horas naquela cela imunda.

Então chegou Pereira e seus homens.

- Você, você, você e você podem sair. Estão livres.

Seguiram felizes em rumo à liberdade.

Levantei-me e fui andando em direção a porta. Então Pereira colocou o dedo na minha fuça e disse:

- Nem tão cedo vagabundo. Ainda não acabei com você.

Fodeu. Pensei. Problema.

- Não achou que ia fazer o que fez e sair assim?

- O que eu fiz?

- Não se faça de retardado seu porco. Garotos! Leva esse pedaço de merda para a sala de eletrocussão.

- O que?!

Estava fodido. Pensei. Problema.

Carregaram-me até uma sala escura. Iluminada por uma única lâmpada no teto. Sentaram-me na cadeira elétrica. Amarraram meus braços, minhas pernas. Colocaram um capacete escroto e amarraram no meu queixo.

Deve ser um susto. Eu pensei. Não tem como eu ser executado sem nem mesmo um julgamento. É loucura.

- Não posso ser executado assim. Não tive um julgamento. Sou inocente porra.

- Ok, Ok. – Apontou para o guarda do lado direito e disse.

- Soldado Ferreira você será o advogado de defesa do senhor Belias.

- Sim senhor.

- Soldado Matias. Vai ser o advogado de acusação.

- Mas e o juiz? – Perguntei embora já esperasse a resposta cruel.

- O juiz. É eu!

Eu estava fodido...

- O senhor está sendo acusado por esse tribunal pela lei municipal 526532746532746. Parágrafo 2.

- Hã?

- Urinar em público!

- Fui condenado à cadeira elétrica por urinar em publico?

- Não meu amigo. Você foi condenado por infringir a lei. As leis foram feitas para serem seguidas, não questionadas.

- Cara...

Eu não tinha como argumentar contra as leis da sociedade. Eles iam me fritar de qualquer modo.

- Ta. Podem me fritar nessa cadeira idiota então.

- E nós iremos.

Puxou a alavanca. Meu advogado de defesa. Nunca confie no seu advogado.

Com a primeira descarga e pude sair daquele corpo. Vi ele se retorcendo na cadeira. Foi horrível.

Sai pela sala. Precisava encontrar meu corpo verdadeiro antes que o provisório virasse churrasco.

Passei pelos corredores escuros. Seguia minha intuição. Sentia sua presença e fui correndo até dar de cara com uma porta de metal.

A placa dizia: sala de interrogatório.

Pensei na água, fria escorregadia e desabei.

Escorri por baixo da porta metálica e retomei minha forma natural. Lá estava meu corpo, debruçado na mesa. Sem vida.

De volta à carne.

Um flash. Era bom ser um mesmo de novo.

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