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De súbito eu voltei à consciência.
- Acorda vagabundo!
Era o policial. O mesmo da primeira noite na cidade. Me jogou numa cela suja e escura. Pervertidos, bêbados e andarilhos. Era a cela dos bebuns.
- Olha só quem chegou ao purgatório – Disse um dos Bêbados. Parecia ser o líder deles.
- Se afastem de mim seus vermes! Eu tenho uma faca.
- Não. Você não tem não. Mas eu tenho.
Tirou uma lamina, enferrujada, letal e infecciosa.
- Meu nome é Medo. Esse à esquerda é Fúria. Á direita aqui tem nosso amigo Dor, aquele de bigode. Bem... Aquele é o Bigode.
- E aquele estirado ali, o barbudo? – Perguntei.
- Aquele eu não conheço não. Ta dormindo dês de que agente chegou.
- Ah...
- Agente ouviu falar de você. Vermelho. Soube que tem muita gente atrás da sua cabeça. Pelo que ouvimos você foge da ordem. É o portador da alma “Z”.
- Alma Z?
- É um novo tipo de alma. Desenvolvida pelo plano maior. As forças divinas desconfiam que esse fluido espiritual seja o inicio de uma nova era. Alguém lá no topo quer começar tudo de novo. E mandou esse novo tipo de alma para testes na terra. Acredita-se que um novo deus surgirá para tomar o trono do antigo. Ambos os lados. Céu e Inferno se vêem ameaçado por esse individuo esse novo tipo de alma. E o que parece é que você é a chave.
- Como você sabe tudo isso?
- Não somos bêbados Vermelho. Somos Monges.
- Monges?
- Isso. Nossa doutrina estuda os planos maiores há séculos. Estamos infiltrados nessa cidade há décadas a sua espera.
- E como é que sabiam que eu estaria aqui?
- Essa cidade é uma distorção entre o tempo e espaço. A cidade não existe fisicamente. É uma aberração super-dimencional do tempo. Um reduto de almas sobre suspeita de Z. E o que parece é que o maior suspeito é você Vermelho.
- Merda!
Há essa hora o oficial Pereira deve estar ligando para um de seus superiores. Informando que você esta sob custódia. Escuta Vermelho! Você precisa sair daqui agora!
- Como eu vou sair daqui? Sou um rato enjaulado, fodido e mal pago, assim como todos vocês.
- Se você é o Z. deve ter poderes psíquicos, espirituais. Sei lá você deve fazer alguma coisa!
Eu estava perdido. Minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a explodir e espalhar feijão pra todo lado.
A musica ficava forte e cada vez mais alta na minha cabeça.
O feio, o belo e o esquisito, são partes do meu show.
O preto o branco, o bloco, o ciclo, imagens do que sou.
A obra prima, a falta, a rima, o erro e o perdão.
Cortei duas metades do meu eu interior perdido em...
Impressões
-O que ele ta cantando?
- Sei la... – respondeu o Medo - Ele é o Z.
Uma aura vermelha envolvia o meu corpo. Minha mente podia alcançar o infinito.
- Sim...
- Corra amigo. Semeie o tempo!
Fechei os olhos e desapareci.
Era como uma brincadeira.
Quando era criança eu lembro que brincava de esquecer o mundo.
Eu fechava os olhos e dizia:
- Onde estou? Quem sou eu? Que lugar é esse?
Eu deixava aquela sensação me embrulhar o estomago então eu abria os olhos e tentava esquecer das perguntas. Pensava em desenho animado. Formiga. Coisas de criança
Abri meus olhos e senti meus pés no chão outra vez.
Estava fora da cela. Sentia-me o mestre do tele transporte.
Então resolvi testar meus novos poderes psíquicos.
Vi uma poça d’água no chão. Me agachei e toquei meus dedos na água. Pensei na água toda escorregadia, fria e molhada. Desabei.
Virei água, escorria pra onde quisesse. Corri pelas ruas. Molhei o asfalto. Parei e pensei na minha forma humana e lá estava eu de volta.
Estava feliz com os meus novos poderes, tinha despertado como uma fênix pra dominar o meu poder.
Então eu pude ouvir vozes na minha cabeça.
- Vermelho. Acorda!
- Ele ta inconsciente.
- Droga o velho Pereira está voltando. Acorda Vermelho o seu corpo ainda está aqui!
Droga. Não tinha me tele transportado porra nenhuma. Minha consciência estava livre, mas meu corpo estava na mesma cela com Medo e os rapazes.
Pensei. Preciso voltar.
Imaginei a cela. Fechei os olhos e a sensação voltou. Me senti no elevador do Playcenter. Em queda livre. Alegria estúpida.
Um flash.
Estava de volta.
- Ei galera! Eu estou de volta.
Todos olharam para mim com espanto.
- Ah? Quem é você cara? – Perguntou Bigode.
- Vermelho porra!
Olhei pro lado e vi meu corpo imóvel no chão. Droga! Voltei no corpo do cara estranho que estava em coma alcoólico na cela. Aquele que ninguém sabia quem era. O barbudo.
Chegou Pereira. Cuspiu no chão como quem odeia onde pisa.
- Caramba, o anormal ai acordou? Pensei que estava morto.
Então ele viu meu corpo estirado no chão da cela, ficou roxo. Teve um chilique.
- O que o Vermelho ta fazendo caído ai. Seus bêbados! O que vocês fizeram.
Olhei para Medo e pisquei.
- Ele tava enchendo o saco seu guarda – Falou. – Aí agente deu um jeito nele.
- Droga! Tenho que levar o idiota pra interrogatório seus cretinos. Estão fodendo tudo.
Estava puto. Com certeza tinha ordens dos seus superiores para me levar dali. Abriu a cela. Entraram, ele e mais dois guardas. Tiraram meu corpo imóvel de lá.
- Tentem reanimar ele. Preciso dele falando! – Ordenou aos seus subordinados.
Então eles saíram.
- Ainda fodo vocês seus bêbados. Esperem e vão ver.
Saiu pisando fundo. Como quem odeia o chão.
- Essa foi por pouco, Vermelho. Que excelente idéia, voltar no corpo do indigente.
- É. Eu tinha que pensar numa maneira de não ser pego.
A verdade é que tudo não passou de um engano. Mas assumir pra que? Fiz pose de malandro e fiquei.
- E agora o que vai fazer?
- Vou esperar. Esse bêbado aqui deve sair em algumas horas.
- Tem razão eles não deixam os bêbados aqui por muito tempo. Depois de uns dias eles começam a feder mais do que o normal.
- Há quanto tempo estão presos aqui?! – O cheiro era insuportável.
Sentia-me horrível naquele corpo. Varias partes doíam e a barba fedia. Tinha carrapatos, Hemorróidas e mau hálito. Sentia-me o rei da porquisse.
Esperamos horas e horas naquela cela imunda.
Então chegou Pereira e seus homens.
- Você, você, você e você podem sair. Estão livres.
Seguiram felizes em rumo à liberdade.
Levantei-me e fui andando em direção a porta. Então Pereira colocou o dedo na minha fuça e disse:
- Nem tão cedo vagabundo. Ainda não acabei com você.
Fodeu. Pensei. Problema.
- Não achou que ia fazer o que fez e sair assim?
- O que eu fiz?
- Não se faça de retardado seu porco. Garotos! Leva esse pedaço de merda para a sala de eletrocussão.
- O que?!
Estava fodido. Pensei. Problema.
Carregaram-me até uma sala escura. Iluminada por uma única lâmpada no teto. Sentaram-me na cadeira elétrica. Amarraram meus braços, minhas pernas. Colocaram um capacete escroto e amarraram no meu queixo.
Deve ser um susto. Eu pensei. Não tem como eu ser executado sem nem mesmo um julgamento. É loucura.
- Não posso ser executado assim. Não tive um julgamento. Sou inocente porra.
- Ok, Ok. – Apontou para o guarda do lado direito e disse.
- Soldado Ferreira você será o advogado de defesa do senhor Belias.
- Sim senhor.
- Soldado Matias. Vai ser o advogado de acusação.
- Mas e o juiz? – Perguntei embora já esperasse a resposta cruel.
- O juiz. É eu!
Eu estava fodido...
- O senhor está sendo acusado por esse tribunal pela lei municipal 526532746532746. Parágrafo 2.
- Hã?
- Urinar em público!
- Fui condenado à cadeira elétrica por urinar em publico?
- Não meu amigo. Você foi condenado por infringir a lei. As leis foram feitas para serem seguidas, não questionadas.
- Cara...
Eu não tinha como argumentar contra as leis da sociedade. Eles iam me fritar de qualquer modo.
- Ta. Podem me fritar nessa cadeira idiota então.
- E nós iremos.
Puxou a alavanca. Meu advogado de defesa. Nunca confie no seu advogado.
Com a primeira descarga e pude sair daquele corpo. Vi ele se retorcendo na cadeira. Foi horrível.
Sai pela sala. Precisava encontrar meu corpo verdadeiro antes que o provisório virasse churrasco.
Passei pelos corredores escuros. Seguia minha intuição. Sentia sua presença e fui correndo até dar de cara com uma porta de metal.
A placa dizia: sala de interrogatório.
Pensei na água, fria escorregadia e desabei.
Escorri por baixo da porta metálica e retomei minha forma natural. Lá estava meu corpo, debruçado na mesa. Sem vida.
De volta à carne.
Um flash. Era bom ser um mesmo de novo.

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