quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Janela de eletrons - capitulo oitavo




Eu corri como se não houvesse amanhã.

Estava decidido a deixar a cidade. Definitivamente. Andei a noite, pelas ruas e bares. Fumei. Corri como se não houvesse amanhã.

Corri até a rodoviária. Não tinha dinheiro para passagens.

Pedi.

Inventava uma história comovente para cada um que passava. Nada.

Entrei no banheiro e me fechei na cabine.

Abri a mochila e peguei o caderno. Quando abri o caderno eu vi o pombo. Feio como sempre. Isso me alegrava, era ótimo olhar pra ele. No verso do desenho eu tinha um verso.


A janela aberta só me faz sentir o frio

Do vento que carrega o seu perfume de navio


Eu pensei. Não sou assassino. Um assassino não teria virtude no coração para escrever uma musica tão linda.

Se suas cores tomam parte em seu perfume

Eu te digo amor que morro de ciúmes

Se quem não colheu a mais perfeita flor

Fui eu...



Eu terminei a musica no verso do desenho. Estava pronto, linda.

Cagar sempre me fazia sentir melhor.

Escrever e cagar são coisas distintas e ao mesmo tempo muito parecidas em suas funções.

Cagar me tirava as porcarias do corpo. Escrever me tirava as porcarias da alma.


Um alívio instantâneo. Como respirar, beber água, comer. Passamos a vida jogando porcaria pra dentro e depois pra fora. Ciclos da porcaria.


A porcaria está em toda parte. No álcool, nos cigarros, na pornografia, nos conservantes, nos corantes nos acidulantes e nas gorduras trans. Agente caga, mas a sujeira fica na alma, se não põe pra fora a alma apodrece e agente se transforma em porco.


Faz sentido.


Pude ouvir dois homens entrando no banheiro. Passos pesados de quem odeia onde pisa. Homens grandes.

Eu pude escutar a conversa.


- Tem certeza que esse lugar é seguro?

- Sim.

- Tudo corre dentro do plano?

- Sim mestre. Mas uma coisa não me sai da cabeça. Me preocupa.

- Um problema?

- Laura senhor.

- Escuta aqui! Laura é a nossa melhor agente. Ela tem nos encaminhado mais almas do que qualquer um envolvido nessa operação. Espero que saiba o que está dizendo.

- Sim senhor. Mas creio que ela interceptou por um dos mundanos recém chegados. O qual se conhece pelo nome de Vermelho. Sua alma estava encaminhada para ontem. Suicídio. Mas ela entregou um tal de Alex em seu lugar. Ela trocou os registros.

- Alex Noir? O imbecil deveria morrer de overdose aos vinte e sete numa banheira de hotel.

- Laura não só trocou os registros dele como usou um dos nossos comunicadores oníricos para fazer contato com Vermelho. Primeiro assumiu a forma de uma aranha gigante. Em seguida induziu um coma de curta duração, usando um perturbador mental de bolso.

- Que motivos levariam ela a fazer uma loucura dessas.

- Não sei senhor...

- Você tem vinte e quatro horas pra descobrir e me provar que ela esta envolvida nesses incidentes. Caso contrário você será responsabilizado. Estamos perto Alberto. Não posso admitir que traidores ponham em risco meu plano.

- Sim mestre.


Pela fresta da cabine eu pude ver um dos homens.


Era um bode. Usava terno e gravata. Andava em duas pernas e fumava cigaro.

Os dois saíram, mas eu só pude ver o servo. Quem seria o mestre? Almas, Laura, comunicador onírico? Mas que porra estava acontecendo nessa cidade.


Eu era um homem marcado.

Laura...


Eu fugia, e ela tinha razão. Ela me impediu do suicídio. Tudo fazia sentido agora. Lutar me fazia esquecer de fugir. As musicas, os poemas, Ana.


Eu precisava falar com Laura. E sabia como encontra-la.

Eu precisava sonhar.



Deitei e fechei os olhos.


Nada.


Não conseguia dormir com os pensamentos rodando sobre minha cabeça como moscas. Giravam até me deixar tonto e enjoado de pensar. Era difícil dormir ali naquele chão gelado. Estava cedo demais. Eu não tinha sono e nem vontade de dormir.

Ganhei as ruas, entrei num bar. Não tinha dinheiro pra passagens, mas pra encher a cara deu. Tomei o que tinha de mais barato e vagabundo. Fiz amigos. Agente ria e enchia os copos. Estava sonolento e então alguém disse:

Recite um de seus poemas Vermelho, vamos lá.

Eu subi na mesa e olhei pra baixo, quase me desequilibrei.


Se um pesadelo se repete, é sinal que a cura caminha longe.

Eles voltam pelos buracos da alma cedo ou tarde pela noite cálida

Pra te fazer sangrar além da vida.


Como a dor que te avisa quando estás ferida, minha pequena.

Como as cobras traiçoeiras no sol a queimar.

Enigmáticas elas profetizam pelos sonhos

Seus olhos sangrando sentem o gosto no ar.



O veneno é doce e inibe a alma.

Parece desgrudar da carne, a vida.

Desliza... Sobre a face inquisitória da morte

Gozando o inferno enquanto todos choram


Na ironia que é viver na terra.

Ficar sozinha... Ser traída.



Pude ver seus olhos em brasa.

Laura...

A luz de novo vinha curta e sonolenta pelo arrepio de almas perdidas.

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