VI
A janela aberta só me faz sentir o frio
Do vento que carrega o seu perfume de navio
-Dois os mares, quem diria a solidão de quem não viu...
Uma canção beijou minha memória. Como a água fria e inconsistente.
Eu comecei a me lembrar. Era músico, e dos bons, decifrara uma parte daquilo, do enigma... Estava feliz. Precisava falar com alguém. A garçonete, do endereço talvez.
Segui pelas ruas... Seguindo o endereço no guardanapo de papel.
Avenida da saudade.
Conheço esse lugar pensei, lembrei que havia colocado uma carta no correio a esse endereço, na quarta-feira, no dia em que meu relógio parou. O envelope era amarelo. Eu pude me lembrar.
Eu toquei a campainha e esperei a garçonete. Ela abriu a porta.
- Quem é você? – Ela perguntou assustada.
Tinha os cabelos pretos e curtos, a pele clara, olhos tristes.
- Meu nome é Vermelho. – respondi sem muita certeza.
- Meu deus! Vermelho, é você!
Ela pulou nos meus braços e me abraçou com muita força. Não me lembrava de como era um abraço.
Lembrei seu nome. Ana.
Nós nos sentamos na sala e ela pegou um envelope amarelo.
- Essa carta é minha? – Perguntei.
- Sim recebi ela ontem pela tarde.
- Posso ler?
- Claro. Você que escreveu.
A janela aberta só me faz querer fugir
Pra me esconder na escuridão desse vazio.
Ah e o meu domingo é muito calmo por aqui
Sem você...
Em seus olhos vi a mais perfeita flor
Aquela que não se encontra em mil jardins
Se, no entanto perguntar se é amor digo que sim.
-É uma musica...
- É, você sempre me escreve suas musicas nas cartas.
Prosseguiu enquanto eu lia.
- Isso rima. – eu ria, estava contente. - Quantos poemas. Escrevi tudo isso?
-A janela aberta significa fuga da realidade, você escreveu aqui no verso desse desenho.
Peguei o desenho nas mãos e não pude acreditar.
Era uma borboleta numa pintura no cansom.
Era linda. Viva. Eu pude ouvir o bater das suas asas, estava viva, se mexia no desenho, e o barulho ficava cada vez mais alto, agudo, alto.
- E não estou agüentando mais Ana! O barulho, esta me deixando cego!
- Não escuto barulho algum. - dizia Ana desesperada.
- Eu tenho que sair daqui!
Corri pela porta, ganhei as ruas.
Corri pela avenida como se não houvesse amanhã. As asas estavam atrás de mim. Estava cego, corria feito louco. Caí sobre chão e pensei que não levantaria mais.
Então eu vi a luz...
Laura.
- Fugindo como sempre. – Ela dizia. Era incrível a doçura de suas palavras mesmo em momentos críticos de extrema loucura.
- Você ta certa Laura. Eu fujo. Meus pensamentos me perseguem.
Por mais que eu tento eu não consigo me lembrar quem sou, e agora eu sei que estou fugindo Laura. Preciso de ajuda.
- Eu tenho um sonho, sabia? – ela molhou os lábios e começou a falar. - Você sabe, desses que se repetem toda noite. Sinto que alguém me persegue, e eu corro. Corro como se não houvesse amanhã.
- Então você foge.
- Sim, fujo de algo que eu não sei o que é. Não tenho coragem o suficiente de olhar para trás, nunca tive, então eu continuo correndo até hoje sem saber o que me persegue. Sabe o que eu sinto não sabe?
- Sim...
- É por isso que estamos aqui. Acredite. Vermelho isso não é um sonho.
- Isso me parece um pesadelo.
- Não docinho, isso é a loucura.
Tic...
O som da minha vida se estendia ao disparo de um revolver. Onomatopéia mortal. Odisséia dos sonhos. Assonância do encontro. Pesadelo eterno. Acorde!
Onde estou?...

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