quarta-feira, 30 de setembro de 2009
V
Eu saí do restaurante e passei o resto do dia pensando sobre o que havia acontecido. Peguei meu caderno e comecei a riscar. Desenhei um pombo.
Um cara de chapéu chegou, começou a me observar.
- Estás desenhando?
- Qual é otário? Cai fora.
- Pois bem amigo, não quis de forma alguma te causar distúrbios. Só me impressiona como consegue desenhar tão mal.
- Vai se foder cara.
- Posso dizer que nunca vi em toda vida desenho tão ruim.
- Eu to pouco me lixando para o que você pensa cara. Cai fora!
- Estou impressionado! Quero comprar esse.
- Você é maluco cara? Cai fora. Já disse!
- Pago dez mil pelo pombo!
- Ta me zoando filho da puta?
Mas ai o desgraçado tirou um bolo de dinheiro do bolso. Muita grana.
- Onze mil e não se fala mais nisso!
- É seu cara.
Catei com as duas mãos, com fome de grana, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Coloquei na mochila com pressa. Onze mil Dólares por um rabisco, o cara devia ser maluco.
Ele saiu correndo feliz da vida com o rabisco de pombo. E eu me sentia esperto.
Então comecei a entender...
Estava contente, feliz, sei la, em êxtase, mas ai comecei a pensar no pombo. Era feio e mal feito, mas eu quem havia feito. Fazia parte de mim.
A partir do momento que minha imaginação conseguiu materializar a imagem do pombo na minha cabeça (visto que tinha pouca noção de como anatomicamente seria um pombo, por falta de observação e estudos anatômicos talvez), até o momento em que meu cérebro enviava milhares de estímulos para que meus músculos se movessem a rabiscar a estrutura do papel, que então gerava atrito com a ponta do lápis 6B fazendo com que partículas de carbono grafassem ilusões bidimensionais do que seria um pombo na minha concepção naquela folha de papel, até o momento que meus olhos enviassem a imagem do que eu havia criado numa percepção agora de fora pra dentro, acionando meu bom senso em admitir que esse fosse um péssimo desenho e... Bem, comecei a pensar em todos os processos químicos e físicos para reproduzir a ridícula imagem que eu tinha na minha imaginação do que seria um pombo, eu vi que onze mil dólares era um preço muito baixo, pela minha individualidade.
Não acreditara que havia me vendido por dinheiro. Fui atrás do maluco.
- Ei senhor – o puxei pelo ombro – Preciso do pombo, pega seu dinheiro e vaza daqui.
Seus olhos se encheram de lagrimas, então ele me devolveu o desenho. Devolvi-lhe o dinheiro. Não precisava dele.
Percebi que tinha realizado algo notável. Desenhei o desenho mais feio do mundo. Era quase como desenhar o mais belo. Eu era o melhor. Estava orgulhoso.
Assinei o desenho e escrevi no verso.
A janela aberta só me faz sentir o frio
Do vento que carrega o seu perfume de navio
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Janela de elétrons - capitulo quarto
Deitei a cabeça no travesseiro e tentei parar de pensar, Laura eu não consigo parar de pensar em você.
Senti meu corpo inteiro formigar debaixo dos lençóis.
Isso já acontecera muitas vezes enquanto pensava em garotas, mas parecia muito estranho dessa vez. Garras. Era como se eu fosse a montanha mais alta do mundo, atacado por um exercito de escaladores assassinos.
Então pude ver.
Aranhas, milhares delas, para todos os lados. Um mar de aranhas.
- Filhas da puta! – eu gritava - Socorro! Esse lugar está cheio de aranhas, abra a porta sua gorda vadia! Me tire daqui!
Eu dava socos, chutes na porta e nem sinal da senhoria, não tinha como arrombar com todas aquelas travas e cadeados.
Então debaixo da cama saiu um monstro, com certeza a maior aranha da terra, devia ter um metro e meio, Garras afiadas e pêlos, muitos pêlos. Patas estúpidas, mil olhos.
- Oh, que ótimo hahaha, a senhoria me trouxe um hospede novo, eu estava tão solitária.
- Nem pense em chegar mais perto seu monstro!
- Nada pessoal docinho, minhas crianças precisam comer.
- O caralho! Pro inferno com suas crianças.
- Não seja rude. Facilite as coisas, você não tem saída.
Peguei uma cadeira e acertei a maldita aranha, a filha da puta nem se quer sentiu o golpe.
-Criança má!... Sabe por que está aqui não sabe?
- Vai se foder!
- Acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres. Sentimentos como amor, liberdade, ódio são doces ilusões. Você é uma peça nesse jogo. E se você cai fora do esquema, AGENTE TE PEGA!
Não pude pensar em nada na hora. Minto. Pensei. “Isso é um pesadelo e eu vou acordar”, mas eu não acordei.
- Eu sou dono do meu tempo agora sua puta do inferno, então poupe a conversa mole e me mata. Filha da puta. Ta esperando o que? Me mata.
Ela parou, pensou e apenas respondeu:
- Não.
Fiquei parado por um instante, perplexo.
-Não vai me matar?
-Não.
- Por que não?
- Não vou fazer uma coisa só por que você quer que eu faça.
- É algum tipo de jogo?
Então ela começou.
- As coisas não funcionam assim querido. Você não pode ter tudo o que quer, acorda! “Me mata”, fala como se fosse grande coisa. O mundo não gira em torno da sua vontade idiota. Quer saber. Por que você não deita a sua cabeça cheia de merda nesse travesseiro e dorme? Ta me enchendo, babaca. – e então começou a entrar debaixo da cama resmungando - Homens... Sempre querem estar no controle da situação.
As mulheres são todas iguais mesmo. Pensei. Se quer que elas façam alguma coisa, diga: Não faça. Se quiser que elas não façam é só dizer: Faça. Funciona com todas as espécies.
Pois é...
Onze horas as luzes se apagaram, deitei a minha cabeça no travesseiro e perguntei à aranha.
- Como é ser uma aranha?
- Sei lá... Não me imagino sendo um tamanduá ou um morcego, os dias passam depressa demais e enquanto tentamos ser aqueles que não somos. Nós acabamos por esquecer quem verdadeiramente importa.
- Devia estar feliz por ser uma aranha senhora. Ser humano é muito difícil.
- Não é não... Vocês que complicam.
- Talvez.
As sete a senhoria me acordou.
-O que houve nesse quarto? Eu disse nada de vadias!
- Como poderia estar com vadias! A senhora me deixou trancado a noite inteira com essas malditas aranhas, devia processar a senhora.
- Ninguém nunca reclamou das aranhas.
- Talvez ninguém tenha vivido pra reclamar.
- Me deve dinheiro moleque, quebrou minha melhor mobília.
- Já disse, não tenho dinheiro e se me encher sou capaz de te processar, sabia que tem aranhas alienígenas nesse quarto?
- Esta bem, esta bem, me pague pela noite e me sai logo daqui. Vamos lá, cai fora!
Hoje mesmo dou o pé desse lugar.
Fui até um restaurante:
Casa do Frango: Comida barata aqui, dizia a placa.
Eu sentei a mesa e a garçonete apareceu tão do nada que tive a impressão de que ele brotara do chão.
- Docinho, o que vai pedir?
- Eu quero o que tiver de mais barato, e que não seja frango.
- Só tem frango.
- Então me vê um prato cheio de frango.
- Já vai docinho.
Eu esperei enquanto a comida não chegava e tentei entender o que estava acontecendo. Primeiro: Seria a garota, Laura Revolver, a arma que matou Stu?
Segundo: Será que eu fiquei louco?
Por mais que tentasse não podia lembrar de nada que acontecera antes da terça. Terça-feira exatamente quando meu relógio parou!
Olhei no pulso e os ponteiros giravam feito loucos, o das horas corria atrás do dos minutos e eles mudavam de direção repentinamente, sentido horário, anti-horário.
- Vocês estão loucos seus idiotas?
Dava umas pancadinhas no visor, mas eles estavam ocupados de mais pra me ouvir. Acho que eles queriam transar.
O prato chegou. Eu estava morrendo de fome. A comida parecia boa. Mas antes que eu pudesse dar a primeira garfada a garçonete perguntou.
- Você me acha bonita?
Olhei pra ela. Não era feia, pensei em Laura, pensei no frango.
- Você é.
Ela saiu pulando, deu uma risadinha ridícula. Quase ri, mas estava com fome. O prato tava com uma cara boa.
Pela primeira vez as coisas corriam em seu curso natural. Terminei o prato e me espreguicei na cadeira.
Ela apareceu novamente, deixou um guardanapo com um endereço marcado na minha mesa.
No guardanapo tinha um bilhete:
A janela aberta só me faz querer fugir
Pra me esconder na escuridão desse vazio.
De primeiro não entendi, resolvi aparecer no endereço mais tarde.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Janela de elétrons- Capitulo terceiro
Vinte e duas e quinze, eu espero o ônibus das dez e meia pra lugar nenhum, só tenho trinta e sete reais no bolso, e na mochila um pacotes de biscoitos em forma de animais.
Eu não sabia o que estava fazendo.
- Pra onde vai?
Uma voz feminina...
Um tipo de beleza estranha. Usava um moletom velho dos Ramones e tinha alguns piercings, um do lado direito dos lábios.
O mais incrível é que seus olhos eram verdes acastanhados. Suas pupilas eram enormes, mal dava pra ver os olhos. O verde parecia um anel muito fino perdido naquela escuridão humana.
- Eu não sei... Lugares. – Respondi puxando um biscoito do pacote.
- Está fugindo?
- Talvez.
- Então você é um covarde?
- Acho que sim.
- Matou alguém ou sei lá?
- Não... Só quero ir embora daqui.
- Ir pra onde?
-Eu não sei.
- É longo daqui?
-Não sei. Quer biscoito?
- Obrigada. Ah, eu peguei um macaco e você?
- A tartaruga... Estranho é a quarta vez que eu pego a tartaruga nesse pacote.
Eu olhei para o lado e a menina havia desaparecido. Sumiu.
Será que estava louco? Antes dos trinta. Merda! Melhor pegar o ônibus.
Sentei no acento vinte e dois. O ônibus estava vazio. Pensei: O que há de errado comigo?
Olhei na janela e lá estava a menina, alimentando os pombos.
Recostei no acento e tentei pegar no sono, devo estar ficando louco eu pensava. Stu, a garota, os pombos e as tartarugas do biscoito. Nada fazia sentido.
Eu devo ter dormido...
Acordei com o motorista me cutucando com uma espiga de milho.
- Ei garoto! Chegamos! Acorde.
Estava escuro demais, eu levantei e peguei minha mochila.
- Vamos! Está fodendo tudo moleque! Tenho que levar essas almas pro inferno!
Eu olhei ao redor e o ônibus estava cheio de homens e mulheres, todos eram porcos, as faces, horríveis. Fedia mijo.
Os do lado esquerdo riam e os porcos do lado direito choravam, enquanto o motorista jogava espigas de milho encima deles.
- Comam!
- Eu tenho que sair daqui! – gritava um porco da esquerda desesperado. – Eu sou padre, não posso ir para o inferno! Vocês sabem o que eles fazem com os padres no inferno!
O motorista olhou pra mim e perguntou.
- O que acha desse ai? Quer levar ele com você?
- Não - Eu disse – Deixe-o queimar!
Então sai do ônibus enquanto o motorista ria, cantava uma canção boba.
Nós vamos ter porquinhos pro jantar!
Baconzinhos, feijoada, todos vamos nos fartar.
Essa farra é bem vinda pro inferno vamos lá... La la la, la la la...
Desci numa estrada escura, ar pesado, neblina densa, pedras rochosas, muitas pedras... E uma placa pichada com suásticas nazistas:
Bem vindo a Janela de elétrons, dizia a placa.
- Ei! Você garoto! - Disse uma voz estranha. – Quer carona pra cidade?
Era um policial de bigode. Encostou a viatura e desligou o motor
- Não obrigado senhor.
- Você não é um destes Nazistas, é?
- Não senhor. – respondi.
- To de olho em você garoto, não pise fora da linha, ou a linha pega você! Entendeu?! Oficial Pereira ao seu dispor.
- Não pretendo ficar muito tempo pra causar qualquer tipo de problema por aqui seu guarda.
- Todo mundo diz a mesma coisa. – Então ligou o motor outra vez – Mas se está fugindo. Cedo ou tarde o que te persegue vai te encontrar. E as coisas não vão mudar pra você nem pra ninguém, pra onde quer que você vá, ainda será você mesmo. Eu não sei o que você fez, mas as conseqüências vão te perseguir às casas do inferno, até que você as enfrente. De qualquer forma... Ah, deixa pra lá. Estou de olho em você.
A viatura desapareceu no meio da noite e eu não tinha outra saída se não caminhar.
Cheguei até um posto de gasolina.
O lugar estava cheio de gente estranha. Alguns Hippies estavam numa roda no chão fumando maconha e cantando ao som de violão – Light my fire dos Doors.
Então eu a vi.
A mesma garota. Com as pupilas mais cheias do que nunca. Ainda dava pra ver o verde dos olhos. Pensei no que dizer e disse:
- Oi
- Oi – Esticou os lábios num sorriso bonito. - Você ainda foge?
- Não. Quem foge vive no passado, mata o amanhã. Eu persigo o futuro. Prefiro ser dono do meu tempo.
As palavras pareciam legais saindo da minha boca.
- Corta a conversa mole. Você foge como todo mundo aqui. Aposto que vai ficar louco antes dos trinta.
Pude ver um sorriso de escárnio nos seus belos lábios.
- O que você sabe sua Puta? Eu te conheço pelo tempo de comer um biscoito e você acha que sabe tudo de mim? Você não me parece feliz, seus olhos dizem “tristeza”, se veste como se fosse um cara, é tão fracassada quanto todo mundo aqui, e nem sabe disso.
Nós nos encaramos por segundos e então rimos. Nada fazia sentido, era doce.
- Meu nome é Laura.
- Meu nome é...
- Vermelho.
Ela sabia meu nome.
Olhei no fundo dos seus olhos e havia fogo neles, anéis de fogo. Ela era aquela arma tive certeza.
- Tic – ela fez sorrindo. Soprou um anel de fumaça pelos lábios. Ela não estava fumando.
- Nos conhecemos não é?
- Claro docinho.
Olhei no fundo dos seus olhos, me aproximei, tentei beija-la. Quase...
Aparece um sujeito grande. Jaqueta de couro, correntes, piercings. Tinha um soco inglês no cinto. Típico fracassado, burro, revoltado com uma bandana na cabeça.
- Ei docinho, esse idiota ta te perturbando?
- Não amor, é só um amigo, um velho amigo.
- Porque não manda seu amigo ir embora daqui amor?
- Não seja grosso Alex. Ele esta fugindo como nós. Você sabe bem que situação envolve a crise não sabe?
- Vão se foder vocês dois. – Perdi a paciência e virei às costas.
Entrei na loja de conveniência do posto.
Peguei uma Coca-Cola e umas batatas.
Incrível como a distribuição da coca-cola alcança até os portões do inferno.
- Três e quarenta e cinco. – Era um balconista muito estranho.
- Aqui está. – entreguei o dinheiro. - Deixa eu te perguntar uma coisa cara, conhece alguma pensão barata por perto.
Ele parou por alguns segundos como se recebesse a resposta do além. Então disparou dizendo muito rápido.
- Pegue essa rua, mas não fique nela, ela se incomoda com esse tipo de coisa... Você sabe, a calçada é boa, mas existem... Coágulos nessas coisas, você pode se machucar. Vai achar uma casa. A senhoria é branca. A casa eu já não sei. Se te oferecerem o quarto dois, não aceite, conselho de amigo.
Então voltou ao seu estado normal. Como se nada daquilo tivesse saído da sua boca.
- Valeu pelo conselho amigão. To indo nessa.
Saí da loja e dei de cara com Alex.
- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.
Passei reto pelo babaca e peguei a rua.
Parece que algo errado acontece nessa cidade. Bem só uma noite e eu saio daqui.
Deixa eu me lembrar... Não fique na rua, foi o que o esquisito me disse. Mas e daí, que se foda vou andar na rua mesmo. Me sentia vivo de novo, há muito tempo não me sentia assim.
Cheguei a tal casa. Tinha uma placa bem grande, toda pichada... Suásticas outra vez:
Pensão Doce Lar, servimos marmitex, quartos baratos. Não admitimos vadias.
Toquei a campainha, demorou pra alguém sair. Então veio uma gorda de camisola e touca de banho.
- Oi senhora, boa noite. Eu preciso de um quarto barato pra ficar.
- Tem dinheiro?
- Não muito... Talvez o suficiente pra umas noites.
- Não é um desses nazistas, é?
- Não senhora, só quero um quarto.
- Ta, olha só. Tenho o quarto numero dois pra você.
- Está ótimo, vou ficar.
Entrei na casa, por um corredor estreito até o tal quarto. Havia trancas e mais trancas nele. A senhoria abriu as trancas com uma chave enorme e pelo que pude ver era um quarto normal, a não ser pelas luzes verdes e as imagens de santos e velas pra todos os lados.
- Eu te deixo sair às sete horas – disse a senhoria – vou trancar a porta pelo lado de fora, se precisar usar o banheiro, espere até as sete.
- Ok dona, obrigado.
Fechou a porta e eu pude ouvi-la colocar as travas e os cadeados.
- Desligo as luzes ás onze. Nada de vadias.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Janela de elétrons- Capitulo segundo
Vinte e três horas e vinte três minutos. Eu estou de frente a aquela janela de elétrons de novo. Espero alguém aparecer na tela, alguém pra conversar. Nada.
As horas passam solitárias na promessa do século XXI.
Quando a TV já não podia, a internet tomou o grande pódio da escravidão dos sentidos. Chega a ser engraçado.
Anos atrás eram precisos milhares de dólares e grandes produções para entreter e alienar as pessoas, mantê-las presas na frente das suas janelas de elétrons.
Não era uma tarefa fácil e até hoje não é. Só que a grande diferença do século, é que hoje nós mesmos fazemos todo esse trabalho. E ainda pagamos para isso.
Estamos todos esperando. Uns esperando os outros em frente a essas janelas de elétrons. Mas ninguém chama, talvez porque ninguém quer ser o primeiro a fazer o contato.
Estamos todos presos a essa janela porque somos incompletos. Solitários.
Vinte três e cinqüenta e nove.
Meus olhos fecharam por instantes descansando a retina daquela janela. Então eu escuto uma campainha.
Recebi um e-mail, não tinha remetente.
Você foi convidado a participar de uma experiência única.
Mais spam...
Então pude ouvir uma voz...
- Tempo... A maior preocupação em você é o tempo. A partir da consciência de que você o tem, a grande incógnita é o que fazer com ele. Assim como tudo que te pertence, o tempo também te tem e ele sabe bem disso. O que fazer com o dinheiro? O que vai fazer da sua vida?
Eu devia estar louco.
Foi quando puxei o computador da tomada, e ele não desligou.
Aquela janela de elétrons estava viva em minha frente e ela sabia mais do que ninguém quem eu era. O teclado deslizou como uma serpente e caiu sobre minhas mãos.
No monitor uma mensagem.
Aceito os termos e condições.
Em uma caixa tinha o sim, e na outra o sim também. Muitas escolhas.
Eu não podia controlar minha mente então eu cliquei na caixa. Sim.
E foi assim que tudo começou.quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Janela de életrons Capitulo primeiro
Tarde de agosto.
A rua derrete debaixo dos meus cabelos, entre as sobrancelhas desabam rios no desespero que derrete aqui dentro.
Meu relógio parou ás quinze pras duas da tarde de ontem. Na mesma tarde de agosto que se repete a cada esquina, como se os ponteiro do meu relógio quebrado ilustrassem que o tempo havia parado naquela cidade pequena.
No suor eu sinto que as idéias estão se esvaindo. No vento eu vejo um alivio imediato. Os dias recomeçam nos restos de ontem.
Não há trégua no amor e na batalha com o tempo.
Na fila dos correios os porcos estão todos inertes, carregam nos rostos o medo que sentem da vida. Alguns riem na agonia das horas e outros tossem, como se expulsassem o que lhe restara das almas.
A quarta feira era bem vinda. Os pombos comiam as casquinhas de sorvete na calçada com os seus bicos estúpidos e pequenos, e o sol era a coisa mais próxima da beleza estranha que ainda sobrevivia ali. Sua vida cegava, e o seu calor derretia. A sua força fundia tudo nas placas do asfalto. Cheiros, cores, gostos, tampinhas. Uma singela sinergia de ódio escondida nos pilares da arquitetura celeste.
Destinara uma carta, a um endereço estranho naquele dia. Destinada à avenida da saudade. A carta de envelope amarelo para mim não fazia sentido. Só sabia que deveria encaminhá-la. Era só isso.
Eu cruzei a praça e os sinos eletrônicos da igreja me diziam as horas, eu nunca entendi como funcionavam esses relógios, deviam ser dezessete horas ou até mais.
Passava distraído, olhava os meus sapatos, cantava uma canção.
Um falso início.
Uma cigana agarrou meu braço, a força incomum de uma preguiça, derrubou a idéia do pensamento e talvez a cabeça do pescoço, suas palavras foram essas:
- Vou te mostrar teu futuro!
Deixou o seio enrugado escapar do vestido.
- Não me interesso pelo futuro dona. – desviei meus olhos daquela visão.
- Um falso amigo! – Balbuciava as palavras entre os dentes de ouro sujos.
- Não tenho amigos dona.
Talvez tivesse amigos.
Eu tentava puxar meu braço. Sentia nojo. Queria me ver livre. Não conseguia.
Arregalou os olhos verdes imundos olhando na alma, vidrada na palma da minha mão, como uma cobra velha e traiçoeira com um cheiro velho de perigo e misticismo.
- Eu não quero saber porra!
- Eu vejo orgulho! Traição!
- Já disse que não!
Puxei o braço com força e sai andando enquanto ela rogava as pragas em mim.
- Orgulho! Morte e traição!
Tarde de agosto.
Aquela praça estava cheia deles, com as mãos estendidas como galhos podres.
Árvores velhas a pedir dinheiro, com os olhos traiçoeiros cheios de ódio, como pombos estúpidos, sujos.
Se eles têm o poder de ver o futuro e a sorte, porque vivem como ratos nessas ruas amaldiçoadas? Tanto ouro nas bocas imundas e nem tem o que comer.
O futuro não me interessa, sei que ele me pertence e talvez por isso sempre me recusei a acreditar em Deus.
Era insuportável a idéia de que alguém pudesse saber meu futuro antes de mim. Destino. Só você controla o seu destino.
Que o mesmo deus pudesse me mandar pro inferno por meus pecados. Sendo que ele é que me fez assim.
Sabia que sendo humano eu os cometeria cedo ou tarde.
Se assim me fez com meus defeitos e esquisitices. Por que me julga?
Meu nome é Vermelho, e a quarta feira sangra nos restos de ontem, a quinta feira quase morta esvai, e a semana vai seguindo leve.
Na sexta feira não tem nada pra fazer, nenhum lugar pra ir, se não sair pelas ruas e esperar que o pior aconteça.
Não me sinto feliz, nem triste, só sinto o vazio imenso que existe aqui. As pessoas são estranhas e estúpidas, e pra qualquer lugar que eu vá é assim.
Eu sinto e sei que lugar nenhum é o meu lugar. Esse mundo é mau, corrompido, eu não sou bonito, nem esperto, foda-se.
Andando pelas ruas escuras eu vejo todos aqueles idiotas. Parecem porcos chafurdando na própria caca.
No caminho de casa um amigo. O nome dele é Stu, estudamos dois anos no colégio.
Fomos até a sua casa. Disse que queria mostrar uma coisa.
- Cara. Quero te mostrar uma coisa. – Ele pegou uma caixa em cima do guarda roupas.
- Saca só.
Era uma arma. Um revolver de seis tiros. No cano prateado uma inscrição. “Laura”.
- O que?! Você é louco cara?
A arma exercia certo fascínio sobre os olhos. Um tipo de beleza estranha. Um imã. Onde arrumou isso?
- Não é isso. É Laura. Vai magoar seus sentimentos. Não te ensinaram como tratar uma dama?
- De onde tirou isso cara? Você comprou essa merda?
- Não. Ela me encontrou.
Mirou bem na minha cabeça e puxou o gatilho.
Tic... Sem balas.
- Ela nunca beijou ninguém.
Uma pergunta me veio à cabeça.
- Você é meu amigo Stu?
- Não.
- Que bom.
-Até amanhã cara.
- Até.
As ruas estão cheias de loucos, mais do que nunca eles estão por ai, a cada esquina, a cada beco. Prontos pra o que der e vier.
Nos jornais eu vejo todos os dias novas modalidades de loucos e loucuras.
Loucos que carregam carroças, loucos que pregam a paz. Loucos que tem armas de destruição em massa e um botão vermelho na palma da mão, prontos pra explodir o mundo.
Tic...
Apesar de tudo escondemos de todos a nossa própria loucura. Talvez com medo de nós mesmos, com medo dos outros estranhos. Com medo da imperfeição e da cura. Acuados por nós mesmos, com medo do oculto.
A verdade é que somos todos loucos em potencial.
Um homenzinho chamado Loucura vive na cabeça de cada um. Com um botão vermelho na mesa escrito “Foda-se”. Numa cadeira de patrão. Fumando charutos caros.
Se a coisa aperta, ele liga o botão. E ai não tem quem segura. A loucura é o estado de espírito que mais atrai e conquista. Faz-nos quebrar paredes com o cérebro e morrer de todo prazer.
É quase isso...
No dia seguinte eu acho que vi na TV.
Stu foi encontrado morto com um tiro na cabeça. Eles não encontraram a arma. Laura tinha dado seu primeiro beijo. Pobre Stu. Era um idiota, mas nunca matou ninguém. Resolveu começar logo por si próprio.
Ainda bem que não éramos amigos.
Eu nunca matei ninguém...
Não conheci em minha vida inteira alguém que merecesse uma bala. Todos nasceram mortos. Ninguém era digno o bastante pra levar um tiro, ninguém bom ou ruim o suficiente, talvez importante pra valer um disparo.
Stu atirou contra a própria cabeça por que se achou importante o suficiente pra se matar. Ou talvez fracassado demais pra enfrentar a vida de merda que ele tinha.
Eu vou pegar minhas coisas e vou sair daqui.
Pra não ficar maluco antes dos trinta. Pra não parar no tempo que nem meu relógio, numa terça-feira de agosto derretida entre as placas no concreto maciço e no carbono tóxico explodindo numa bola de gordura trans radioativa.
Pra não me arrepender da vida inteira quando for um velho.
Pra não me dar um tiro na cabeça.
Janela de elétrons
Amar...
Os poros, as portas, os olhos de ódio.
Parecem fechar...
Uma cortina, que esconde o mundo.
O deixando menor
Meus lábios teimam mentir não quero.
Fugir é pior.
Sei que não convém amar a quem distante está
Se é que existe alguém no mundo, tão completa.
Sua presença nem sempre certa
Me fez duvidar
A foto o retrato do estado, a janela.
Da minha lembrança
A imagem que tinge o vazio do meu quarto
É o que me faz pensar
Na estranha da infância que ainda procura o que a incomoda
Sei que não convém amar alguém que está distante
Se é que existe alguém, alem de mim, tão inconstante.
Meu sol não nasce ou se põe
Ela mora longe
Mal posso vê-la dessa janela de elétrons e cores
Imagens de cigarros no cinzeiro a queimar
Parece um retrato do que eu sinto por ela
Mensagem, meios, códigos perdidos no ar.
Dançando em sua atmosfera.
