quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Janela de életrons Capitulo primeiro

Tarde de agosto.

A rua derrete debaixo dos meus cabelos, entre as sobrancelhas desabam rios no desespero que derrete aqui dentro.

Meu relógio parou ás quinze pras duas da tarde de ontem. Na mesma tarde de agosto que se repete a cada esquina, como se os ponteiro do meu relógio quebrado ilustrassem que o tempo havia parado naquela cidade pequena.

No suor eu sinto que as idéias estão se esvaindo. No vento eu vejo um alivio imediato. Os dias recomeçam nos restos de ontem.

Não há trégua no amor e na batalha com o tempo.

Na fila dos correios os porcos estão todos inertes, carregam nos rostos o medo que sentem da vida. Alguns riem na agonia das horas e outros tossem, como se expulsassem o que lhe restara das almas.

A quarta feira era bem vinda. Os pombos comiam as casquinhas de sorvete na calçada com os seus bicos estúpidos e pequenos, e o sol era a coisa mais próxima da beleza estranha que ainda sobrevivia ali. Sua vida cegava, e o seu calor derretia. A sua força fundia tudo nas placas do asfalto. Cheiros, cores, gostos, tampinhas. Uma singela sinergia de ódio escondida nos pilares da arquitetura celeste.

Destinara uma carta, a um endereço estranho naquele dia. Destinada à avenida da saudade. A carta de envelope amarelo para mim não fazia sentido. Só sabia que deveria encaminhá-la. Era só isso.

Eu cruzei a praça e os sinos eletrônicos da igreja me diziam as horas, eu nunca entendi como funcionavam esses relógios, deviam ser dezessete horas ou até mais.

Passava distraído, olhava os meus sapatos, cantava uma canção.

Um falso início.

Uma cigana agarrou meu braço, a força incomum de uma preguiça, derrubou a idéia do pensamento e talvez a cabeça do pescoço, suas palavras foram essas:

- Vou te mostrar teu futuro!

Deixou o seio enrugado escapar do vestido.

- Não me interesso pelo futuro dona. – desviei meus olhos daquela visão.

- Um falso amigo! – Balbuciava as palavras entre os dentes de ouro sujos.

- Não tenho amigos dona.

Talvez tivesse amigos.

Eu tentava puxar meu braço. Sentia nojo. Queria me ver livre. Não conseguia.

Arregalou os olhos verdes imundos olhando na alma, vidrada na palma da minha mão, como uma cobra velha e traiçoeira com um cheiro velho de perigo e misticismo.

- Eu não quero saber porra!

- Eu vejo orgulho! Traição!

- Já disse que não!

Puxei o braço com força e sai andando enquanto ela rogava as pragas em mim.

- Orgulho! Morte e traição!

Tarde de agosto.

Aquela praça estava cheia deles, com as mãos estendidas como galhos podres.

Árvores velhas a pedir dinheiro, com os olhos traiçoeiros cheios de ódio, como pombos estúpidos, sujos.

Se eles têm o poder de ver o futuro e a sorte, porque vivem como ratos nessas ruas amaldiçoadas? Tanto ouro nas bocas imundas e nem tem o que comer.

O futuro não me interessa, sei que ele me pertence e talvez por isso sempre me recusei a acreditar em Deus.

Era insuportável a idéia de que alguém pudesse saber meu futuro antes de mim. Destino. Só você controla o seu destino.

Que o mesmo deus pudesse me mandar pro inferno por meus pecados. Sendo que ele é que me fez assim.

Sabia que sendo humano eu os cometeria cedo ou tarde.

Se assim me fez com meus defeitos e esquisitices. Por que me julga?

Meu nome é Vermelho, e a quarta feira sangra nos restos de ontem, a quinta feira quase morta esvai, e a semana vai seguindo leve.

Na sexta feira não tem nada pra fazer, nenhum lugar pra ir, se não sair pelas ruas e esperar que o pior aconteça.

Não me sinto feliz, nem triste, só sinto o vazio imenso que existe aqui. As pessoas são estranhas e estúpidas, e pra qualquer lugar que eu vá é assim.

Eu sinto e sei que lugar nenhum é o meu lugar. Esse mundo é mau, corrompido, eu não sou bonito, nem esperto, foda-se.

Andando pelas ruas escuras eu vejo todos aqueles idiotas. Parecem porcos chafurdando na própria caca.

No caminho de casa um amigo. O nome dele é Stu, estudamos dois anos no colégio.

Fomos até a sua casa. Disse que queria mostrar uma coisa.

- Cara. Quero te mostrar uma coisa. – Ele pegou uma caixa em cima do guarda roupas.

- Saca só.

Era uma arma. Um revolver de seis tiros. No cano prateado uma inscrição. “Laura”.

- O que?! Você é louco cara?

A arma exercia certo fascínio sobre os olhos. Um tipo de beleza estranha. Um imã. Onde arrumou isso?

- Não é isso. É Laura. Vai magoar seus sentimentos. Não te ensinaram como tratar uma dama?

- De onde tirou isso cara? Você comprou essa merda?

- Não. Ela me encontrou.

Mirou bem na minha cabeça e puxou o gatilho.

Tic... Sem balas.

- Ela nunca beijou ninguém.

Uma pergunta me veio à cabeça.

- Você é meu amigo Stu?

- Não.

- Que bom.

-Até amanhã cara.

- Até.

As ruas estão cheias de loucos, mais do que nunca eles estão por ai, a cada esquina, a cada beco. Prontos pra o que der e vier.

Nos jornais eu vejo todos os dias novas modalidades de loucos e loucuras.

Loucos que carregam carroças, loucos que pregam a paz. Loucos que tem armas de destruição em massa e um botão vermelho na palma da mão, prontos pra explodir o mundo.

Tic...

Apesar de tudo escondemos de todos a nossa própria loucura. Talvez com medo de nós mesmos, com medo dos outros estranhos. Com medo da imperfeição e da cura. Acuados por nós mesmos, com medo do oculto.

A verdade é que somos todos loucos em potencial.

Um homenzinho chamado Loucura vive na cabeça de cada um. Com um botão vermelho na mesa escrito “Foda-se”. Numa cadeira de patrão. Fumando charutos caros.

Se a coisa aperta, ele liga o botão. E ai não tem quem segura. A loucura é o estado de espírito que mais atrai e conquista. Faz-nos quebrar paredes com o cérebro e morrer de todo prazer.

É quase isso...

No dia seguinte eu acho que vi na TV.

Stu foi encontrado morto com um tiro na cabeça. Eles não encontraram a arma. Laura tinha dado seu primeiro beijo. Pobre Stu. Era um idiota, mas nunca matou ninguém. Resolveu começar logo por si próprio.

Ainda bem que não éramos amigos.

Eu nunca matei ninguém...

Não conheci em minha vida inteira alguém que merecesse uma bala. Todos nasceram mortos. Ninguém era digno o bastante pra levar um tiro, ninguém bom ou ruim o suficiente, talvez importante pra valer um disparo.

Stu atirou contra a própria cabeça por que se achou importante o suficiente pra se matar. Ou talvez fracassado demais pra enfrentar a vida de merda que ele tinha.

Eu vou pegar minhas coisas e vou sair daqui.

Pra não ficar maluco antes dos trinta. Pra não parar no tempo que nem meu relógio, numa terça-feira de agosto derretida entre as placas no concreto maciço e no carbono tóxico explodindo numa bola de gordura trans radioativa.

Pra não me arrepender da vida inteira quando for um velho.

Pra não me dar um tiro na cabeça.

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