segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Janela de elétrons- Capitulo terceiro

Vinte e duas e quinze, eu espero o ônibus das dez e meia pra lugar nenhum, só tenho trinta e sete reais no bolso, e na mochila um pacotes de biscoitos em forma de animais.

Eu não sabia o que estava fazendo.

- Pra onde vai?

Uma voz feminina...

Um tipo de beleza estranha. Usava um moletom velho dos Ramones e tinha alguns piercings, um do lado direito dos lábios.

O mais incrível é que seus olhos eram verdes acastanhados. Suas pupilas eram enormes, mal dava pra ver os olhos. O verde parecia um anel muito fino perdido naquela escuridão humana.

- Eu não sei... Lugares. – Respondi puxando um biscoito do pacote.

- Está fugindo?

- Talvez.

- Então você é um covarde?

- Acho que sim.

- Matou alguém ou sei lá?

- Não... Só quero ir embora daqui.

- Ir pra onde?

-Eu não sei.

- É longo daqui?

-Não sei. Quer biscoito?

- Obrigada. Ah, eu peguei um macaco e você?

- A tartaruga... Estranho é a quarta vez que eu pego a tartaruga nesse pacote.

Eu olhei para o lado e a menina havia desaparecido. Sumiu.

Será que estava louco? Antes dos trinta. Merda! Melhor pegar o ônibus.

Sentei no acento vinte e dois. O ônibus estava vazio. Pensei: O que há de errado comigo?

Olhei na janela e lá estava a menina, alimentando os pombos.

Recostei no acento e tentei pegar no sono, devo estar ficando louco eu pensava. Stu, a garota, os pombos e as tartarugas do biscoito. Nada fazia sentido.

Eu devo ter dormido...

Acordei com o motorista me cutucando com uma espiga de milho.

- Ei garoto! Chegamos! Acorde.

Estava escuro demais, eu levantei e peguei minha mochila.

- Vamos! Está fodendo tudo moleque! Tenho que levar essas almas pro inferno!

Eu olhei ao redor e o ônibus estava cheio de homens e mulheres, todos eram porcos, as faces, horríveis. Fedia mijo.

Os do lado esquerdo riam e os porcos do lado direito choravam, enquanto o motorista jogava espigas de milho encima deles.

- Comam!

- Eu tenho que sair daqui! – gritava um porco da esquerda desesperado. – Eu sou padre, não posso ir para o inferno! Vocês sabem o que eles fazem com os padres no inferno!

O motorista olhou pra mim e perguntou.

- O que acha desse ai? Quer levar ele com você?

- Não - Eu disse – Deixe-o queimar!

Então sai do ônibus enquanto o motorista ria, cantava uma canção boba.

Nós vamos ter porquinhos pro jantar!

Baconzinhos, feijoada, todos vamos nos fartar.

Essa farra é bem vinda pro inferno vamos lá... La la la, la la la...

Desci numa estrada escura, ar pesado, neblina densa, pedras rochosas, muitas pedras... E uma placa pichada com suásticas nazistas:

Bem vindo a Janela de elétrons, dizia a placa.

- Ei! Você garoto! - Disse uma voz estranha. – Quer carona pra cidade?

Era um policial de bigode. Encostou a viatura e desligou o motor

- Não obrigado senhor.

- Você não é um destes Nazistas, é?

- Não senhor. – respondi.

- To de olho em você garoto, não pise fora da linha, ou a linha pega você! Entendeu?! Oficial Pereira ao seu dispor.

- Não pretendo ficar muito tempo pra causar qualquer tipo de problema por aqui seu guarda.

- Todo mundo diz a mesma coisa. – Então ligou o motor outra vez – Mas se está fugindo. Cedo ou tarde o que te persegue vai te encontrar. E as coisas não vão mudar pra você nem pra ninguém, pra onde quer que você vá, ainda será você mesmo. Eu não sei o que você fez, mas as conseqüências vão te perseguir às casas do inferno, até que você as enfrente. De qualquer forma... Ah, deixa pra lá. Estou de olho em você.

A viatura desapareceu no meio da noite e eu não tinha outra saída se não caminhar.

Cheguei até um posto de gasolina.

O lugar estava cheio de gente estranha. Alguns Hippies estavam numa roda no chão fumando maconha e cantando ao som de violão – Light my fire dos Doors.

Então eu a vi.

A mesma garota. Com as pupilas mais cheias do que nunca. Ainda dava pra ver o verde dos olhos. Pensei no que dizer e disse:

- Oi

- Oi – Esticou os lábios num sorriso bonito. - Você ainda foge?

- Não. Quem foge vive no passado, mata o amanhã. Eu persigo o futuro. Prefiro ser dono do meu tempo.

As palavras pareciam legais saindo da minha boca.

- Corta a conversa mole. Você foge como todo mundo aqui. Aposto que vai ficar louco antes dos trinta.

Pude ver um sorriso de escárnio nos seus belos lábios.

- O que você sabe sua Puta? Eu te conheço pelo tempo de comer um biscoito e você acha que sabe tudo de mim? Você não me parece feliz, seus olhos dizem “tristeza”, se veste como se fosse um cara, é tão fracassada quanto todo mundo aqui, e nem sabe disso.

Nós nos encaramos por segundos e então rimos. Nada fazia sentido, era doce.

- Meu nome é Laura.

- Meu nome é...

- Vermelho.

Ela sabia meu nome.

Olhei no fundo dos seus olhos e havia fogo neles, anéis de fogo. Ela era aquela arma tive certeza.

- Tic – ela fez sorrindo. Soprou um anel de fumaça pelos lábios. Ela não estava fumando.

- Nos conhecemos não é?

- Claro docinho.

Olhei no fundo dos seus olhos, me aproximei, tentei beija-la. Quase...

Aparece um sujeito grande. Jaqueta de couro, correntes, piercings. Tinha um soco inglês no cinto. Típico fracassado, burro, revoltado com uma bandana na cabeça.

- Ei docinho, esse idiota ta te perturbando?

- Não amor, é só um amigo, um velho amigo.

- Porque não manda seu amigo ir embora daqui amor?

- Não seja grosso Alex. Ele esta fugindo como nós. Você sabe bem que situação envolve a crise não sabe?

- Vão se foder vocês dois. – Perdi a paciência e virei às costas.

Entrei na loja de conveniência do posto.

Peguei uma Coca-Cola e umas batatas.

Incrível como a distribuição da coca-cola alcança até os portões do inferno.

- Três e quarenta e cinco. – Era um balconista muito estranho.

- Aqui está. – entreguei o dinheiro. - Deixa eu te perguntar uma coisa cara, conhece alguma pensão barata por perto.

Ele parou por alguns segundos como se recebesse a resposta do além. Então disparou dizendo muito rápido.

- Pegue essa rua, mas não fique nela, ela se incomoda com esse tipo de coisa... Você sabe, a calçada é boa, mas existem... Coágulos nessas coisas, você pode se machucar. Vai achar uma casa. A senhoria é branca. A casa eu já não sei. Se te oferecerem o quarto dois, não aceite, conselho de amigo.

Então voltou ao seu estado normal. Como se nada daquilo tivesse saído da sua boca.

- Valeu pelo conselho amigão. To indo nessa.

Saí da loja e dei de cara com Alex.

- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.

Passei reto pelo babaca e peguei a rua.

Parece que algo errado acontece nessa cidade. Bem só uma noite e eu saio daqui.

Deixa eu me lembrar... Não fique na rua, foi o que o esquisito me disse. Mas e daí, que se foda vou andar na rua mesmo. Me sentia vivo de novo, há muito tempo não me sentia assim.

Cheguei a tal casa. Tinha uma placa bem grande, toda pichada... Suásticas outra vez:

Pensão Doce Lar, servimos marmitex, quartos baratos. Não admitimos vadias.

Toquei a campainha, demorou pra alguém sair. Então veio uma gorda de camisola e touca de banho.

- Oi senhora, boa noite. Eu preciso de um quarto barato pra ficar.

- Tem dinheiro?

- Não muito... Talvez o suficiente pra umas noites.

- Não é um desses nazistas, é?

- Não senhora, só quero um quarto.

- Ta, olha só. Tenho o quarto numero dois pra você.

- Está ótimo, vou ficar.

Entrei na casa, por um corredor estreito até o tal quarto. Havia trancas e mais trancas nele. A senhoria abriu as trancas com uma chave enorme e pelo que pude ver era um quarto normal, a não ser pelas luzes verdes e as imagens de santos e velas pra todos os lados.

- Eu te deixo sair às sete horas – disse a senhoria – vou trancar a porta pelo lado de fora, se precisar usar o banheiro, espere até as sete.

- Ok dona, obrigado.

Fechou a porta e eu pude ouvi-la colocar as travas e os cadeados.

- Desligo as luzes ás onze. Nada de vadias.

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