quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Janela de elétrons - capitulo quarto

Deitei a cabeça no travesseiro e tentei parar de pensar, Laura eu não consigo parar de pensar em você.

Senti meu corpo inteiro formigar debaixo dos lençóis.

Isso já acontecera muitas vezes enquanto pensava em garotas, mas parecia muito estranho dessa vez. Garras. Era como se eu fosse a montanha mais alta do mundo, atacado por um exercito de escaladores assassinos.

Então pude ver.

Aranhas, milhares delas, para todos os lados. Um mar de aranhas.

- Filhas da puta! – eu gritava - Socorro! Esse lugar está cheio de aranhas, abra a porta sua gorda vadia! Me tire daqui!

Eu dava socos, chutes na porta e nem sinal da senhoria, não tinha como arrombar com todas aquelas travas e cadeados.

Então debaixo da cama saiu um monstro, com certeza a maior aranha da terra, devia ter um metro e meio, Garras afiadas e pêlos, muitos pêlos. Patas estúpidas, mil olhos.

- Oh, que ótimo hahaha, a senhoria me trouxe um hospede novo, eu estava tão solitária.

- Nem pense em chegar mais perto seu monstro!

- Nada pessoal docinho, minhas crianças precisam comer.

- O caralho! Pro inferno com suas crianças.

- Não seja rude. Facilite as coisas, você não tem saída.

Peguei uma cadeira e acertei a maldita aranha, a filha da puta nem se quer sentiu o golpe.

-Criança má!... Sabe por que está aqui não sabe?

- Vai se foder!

- Acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres. Sentimentos como amor, liberdade, ódio são doces ilusões. Você é uma peça nesse jogo. E se você cai fora do esquema, AGENTE TE PEGA!

Não pude pensar em nada na hora. Minto. Pensei. “Isso é um pesadelo e eu vou acordar”, mas eu não acordei.

- Eu sou dono do meu tempo agora sua puta do inferno, então poupe a conversa mole e me mata. Filha da puta. Ta esperando o que? Me mata.

Ela parou, pensou e apenas respondeu:

- Não.

Fiquei parado por um instante, perplexo.

-Não vai me matar?

-Não.

- Por que não?

- Não vou fazer uma coisa só por que você quer que eu faça.

- É algum tipo de jogo?

Então ela começou.

- As coisas não funcionam assim querido. Você não pode ter tudo o que quer, acorda! “Me mata”, fala como se fosse grande coisa. O mundo não gira em torno da sua vontade idiota. Quer saber. Por que você não deita a sua cabeça cheia de merda nesse travesseiro e dorme? Ta me enchendo, babaca. – e então começou a entrar debaixo da cama resmungando - Homens... Sempre querem estar no controle da situação.

As mulheres são todas iguais mesmo. Pensei. Se quer que elas façam alguma coisa, diga: Não faça. Se quiser que elas não façam é só dizer: Faça. Funciona com todas as espécies.

Pois é...

Onze horas as luzes se apagaram, deitei a minha cabeça no travesseiro e perguntei à aranha.

- Como é ser uma aranha?

- Sei lá... Não me imagino sendo um tamanduá ou um morcego, os dias passam depressa demais e enquanto tentamos ser aqueles que não somos. Nós acabamos por esquecer quem verdadeiramente importa.

- Devia estar feliz por ser uma aranha senhora. Ser humano é muito difícil.

- Não é não... Vocês que complicam.

- Talvez.

As sete a senhoria me acordou.

-O que houve nesse quarto? Eu disse nada de vadias!

- Como poderia estar com vadias! A senhora me deixou trancado a noite inteira com essas malditas aranhas, devia processar a senhora.

- Ninguém nunca reclamou das aranhas.

- Talvez ninguém tenha vivido pra reclamar.

- Me deve dinheiro moleque, quebrou minha melhor mobília.

- Já disse, não tenho dinheiro e se me encher sou capaz de te processar, sabia que tem aranhas alienígenas nesse quarto?

- Esta bem, esta bem, me pague pela noite e me sai logo daqui. Vamos lá, cai fora!

Hoje mesmo dou o pé desse lugar.

Fui até um restaurante:

Casa do Frango: Comida barata aqui, dizia a placa.

Eu sentei a mesa e a garçonete apareceu tão do nada que tive a impressão de que ele brotara do chão.

- Docinho, o que vai pedir?

- Eu quero o que tiver de mais barato, e que não seja frango.

- Só tem frango.

- Então me vê um prato cheio de frango.

- Já vai docinho.

Eu esperei enquanto a comida não chegava e tentei entender o que estava acontecendo. Primeiro: Seria a garota, Laura Revolver, a arma que matou Stu?

Segundo: Será que eu fiquei louco?

Por mais que tentasse não podia lembrar de nada que acontecera antes da terça. Terça-feira exatamente quando meu relógio parou!

Olhei no pulso e os ponteiros giravam feito loucos, o das horas corria atrás do dos minutos e eles mudavam de direção repentinamente, sentido horário, anti-horário.

- Vocês estão loucos seus idiotas?

Dava umas pancadinhas no visor, mas eles estavam ocupados de mais pra me ouvir. Acho que eles queriam transar.

O prato chegou. Eu estava morrendo de fome. A comida parecia boa. Mas antes que eu pudesse dar a primeira garfada a garçonete perguntou.

- Você me acha bonita?

Olhei pra ela. Não era feia, pensei em Laura, pensei no frango.

- Você é.

Ela saiu pulando, deu uma risadinha ridícula. Quase ri, mas estava com fome. O prato tava com uma cara boa.

Pela primeira vez as coisas corriam em seu curso natural. Terminei o prato e me espreguicei na cadeira.

Ela apareceu novamente, deixou um guardanapo com um endereço marcado na minha mesa.

No guardanapo tinha um bilhete:

A janela aberta só me faz querer fugir

Pra me esconder na escuridão desse vazio.

De primeiro não entendi, resolvi aparecer no endereço mais tarde.

Nenhum comentário:

Postar um comentário