sábado, 31 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XV

XV

Acordei no outro dia com mais sono do que eu tinha antes de dormir. Gritei com o relógio e fui até a cozinha. Peguei uma banana, joguei fora e comi a casca. Dei um berro:

- Aaaaaaaah!

Não entendi por que. Então dei com o dedinho no pé do sofá.

O tempo parecia correr de trás pra frente naquela manhã. Olhei no relógio e os ponteiros corriam para trás, feito loucos como sempre. Olhei na janela e o sol nascia do lado errado. Nada fazia sentido.

Vesti o calçado e depois a meia por cima, então a cueca por cima da calça. Despenteei meus cabelos com o pente. Sentia-me horrível, mas não podia me controlar. Tudo saia trocado, as palavras, os pensamentos e até o meu jeito de sentir.

Desci as escadas de costas e saí pela rua. Todo mundo estava meio perdido. Senti-me mal, Depois ri, então fiquei surpreso.

Vi Startakos. O tempo maluco parecia não incomoda-lo.

- Bom dia cavalheiro.

- Ei! Star, o que ta havendo aqui? Ta tudo meio maluco essa manhã.

- Ah. Primeiro dia do trocado?

- Dia do trocado!? Que porra é essa? Só sei que hoje de manhã balanguei o pinto, desci a tampa da privada, mijei em cima.

- É isso mesmo, amigo. Aqui os dias acabam de trinta em trinta, logo é preciso rebobinar. Sabe? Como as fitas VHS.

- Até quando vai rolar isso?

- É só por alguns dias.

- Dias?!

- Oh. Vou te ensinar um macete. Tudo o que for fazer... Nada de seqüências. Pense de trás pára frente. Entendeu?

- Ah, vou tentar.

- Algum progresso com o garoto?

- Ainda não. Ele é um tipo que aparece pouco.

- Ele vai estar num concerto hoje, às vinte e uma horas. Esteja lá.

- Feliz dia do trocado pra você Startakos.

Parei no ponto de ônibus e esperei.

Um ônibus chegou de marcha ré. Previsível. Mas um dia de sol naquela cidade estranha.

O dia prosseguiu estranho, mas aos poucos fui me acostumando com a sensação.

Comprei ingressos para o concerto. O cara do guichê era incrivelmente igual ao cara da loja de conveniência do posto.

- Aproveite o show.

Eu voltei pro quarto deitei no sofá deixando minha cabeça suspensa no ar. Precisava pensar, precisava de oxigênio.

Se tinha alguma coisa estranha com o garoto eu ia descobrir hoje.

Vinte um. O relógio que rodava até agora parou nessa hora, hora do concerto. Eu estava lá. Estádio Janela de elétrons.

Abri espaço por entre a multidão, Cyberpunks, Riots, Pin-ups, gente para todos os lados, de todos os tipos.

A banda entrou no palco.

O publico.

Gritavam como animais agonizando a beira da morte. Eu tinha que encontrar o garoto.

No camarote fechado com seguranças dos dois lados. Lá estava. Fiquei observando. Seu sorriso tinha um ar de escárnio, os outros fotógrafos batiam fotos em disparada, uma metralhadora de luz.

De repente o sorriso se transforma na expressão mais demoníaca de ódio.

- Chega!

Os fotógrafos todos de imediato param as máquinas. Menos um, um moleque magricela. Deixou escapar um ultimo flash quando todos haviam parado.

Todos ficaram imóveis.

A celebridade apenas franziu a testa.

- Dessa vez passa.

Todos riram.

Então um homem apareceu e soprou algumas palavras no ouvido do garoto.

- Está pronta? Ótimo, já estou indo.

Ele passou por um corredor e entrou numa porta sozinho, enquanto os dois grandalhões ficaram de guarda do lado de fora.

Dei a volta por trás do camarote e preparei a câmera. Havia uma janela, lá no alto.

Puxei um caixote e subi me pondo a espiar na janela.

Pude ver uma garota, estava nua, acorrentada nas paredes da sala mal iluminada. Ele se maquiava de costas para ela numa dessas mesas com lâmpadas no espelho. Sua aparência agora era de um monstro. Grotesco.

- Eu sou uma grande fã. – Ela dizia, parecia estar dopada.

- Cala a boca!

Ela se calava por instante e então continuava a dizer frases que para mim não faziam sentido.

- Por que os olhos tristes?

- Vocês não entendem. Ninguém. Só querem pedaços de mim!

- Eu sou uma grande fã.

- Preciso relaxar, é só uma dose do que eu preciso.

Abriu a gaveta e tirou comprimidos pretos de um frasco, engoliu. Tremia.

- Por que os olhos tão frios?

- É só uma foto... É só uma foto... Não... Não é uma foto. Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.

- Sou sua maior fã!

Ela gritava e se debatia entre as correntes. Então ele foi pra cima dela.

Dava-lhe golpes, mordia sua pele. Devorava sua carne e se transformava num monstro cada vez maior.

Preparei a câmera e bati a foto.

- Aaaaaaaaaaah!

Olhou pra mim com os olhos mais frios que eu já havia visto. O sangue jorrava da sua boca aberta.

- Por que me expõem?!

Pulei para trás e cai do caixote. Comecei a correr mais rápido que pude.

Então eu o vi sair pela pequena janela.

Nas suas costas cresciam asas negras.

- Por que me expõem?!

Disparei por entre a multidão. Corria sem olhar pra trás, sem pensar no perigo. Sentia suas asas negras me observando. Entre a atmosfera nefasta daquela feira de horrores.

Os seus gritos de ódio eram fortes como os da terra. Preste a devorar o universo.

Olhei no relógio, os ponteiros de novo estavam a rodar depressa.

Olhei para o céu e pude ver, entre as luzes pesadas e o ar.

Suas asas negras tinham feixes dourados de luz.

A besta.

- Porque me expõem? Malditos, sujos!

A besta batia as asas pesadas e um som ensurdecedor dominava a multidão em pânico.

De repente eu ouvi um disparo.

Um dos projeteis do show de pirotecnia atravessou o ar estilhaçando numa explosão incrivelmente mágica uma das asas da besta que desabou no centro das atenções naquele estádio lotado.

Uma multidão de curiosos fez um circulo a sua volta, disparando suas maquinas fotográficas como uma chuva de cometas.

A cada fotografia era como se uma parte da sua alma fosse arrancada, destruída.

- O flash!

Eu corri em direção dos fotógrafos.

- O flash! Parem suas bestas! Vocês vão matá-lo!

Então suas palavras foram essas:

- O que você procura não está aqui. Está do lado de fora e uma vez que sair não será mais o mesmo.

Estava morto.

Então das suas entranhas ela surgiu.

A garota mais bonita que eu já vi.

Ela tem asas pra esconder o medo! Ela tem asas, mas seus olhos estão presos. Uma prisão fria para os meus instintos.

A besta escondia em suas entranha a beleza mais pura do mundo.

Sua beleza interior era uma jovem com asas de anjo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Janela de elétrons - capitulo XIV

Cheguei ao prédio do jornal e toquei o interfone.

- Pois não?

- Eu vim pela vaga de fotografo.

A porta se abriu.

Entrei pela sala e cheguei ao balcão.

A secretaria era um andróide.

- Por favor. O senhor Startakos o espera em sua sala.

Entrei e dei de cara com aquele esquisito que encontrei outro dia na praça. O cara de chapéu.

- Eu estava a sua espera cavalheiro.

- Você... Você é o maluco da praça. Queria comprar o rabisco do pombo.

- Ah... O Pombo... Que criatura adorável. – Ficou por alguns segundos contemplando a memória do pombo, então voltou. - Meu nome é Franz Favos Startakos sou diretor do Clarim Intradimencional.

Estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ele parecia desconhecer o gesto.

- Prazer. Meu nome é Vermelho. Vim pelo anuncio lá fora, fotografo.

- Sim... Então quer o emprego?

- Sim.

- É seu.

- Simples assim?

- É... Tenho uma missão pra você.

- Que tipo de missão?

Startakos fechou as cortinas. Então tirou da gaveta um anúncio de uma tradicional casa de tortas.

- Senhor Tortas é nosso maior patrocinador. Ele tem um problema e quer que agente resolva.

- Senhor Tortas?

- Não idiota! É claro que esse não é o nome dele! É um nome fictício. Mas vamos usar códigos. Tudo bem?

- Ok. – Me sentia tão maluco quanto ele no meio daquela conversa.

- Há pouco mais de dois meses, uma nova casa de tortas chegou à cidade. – Então me entregou o anúncio. Publicidade barata. - Nós temos as melhores tortas, os melhores preços, os melhores recheios, mas eles têm o garoto...

- O garoto?

- Sim o garoto da novela!

- E qual é o problema?

- Você sabe o quanto eles amam o garoto da novela. Comem a porcaria que for, fazem tudo que o garoto da novela diz.

- Não gosto do garoto da novela.

- Também não. E é aí que você entra. Quero uma foto do garoto da novela em algo comprometedor. Algo sujo! Quero que a sociedade o odeie. Quero que o persigam com seus tridentes e tochas! É isso que eu quero.

- Considere feito senhor.

Então ele assinou um cheque e me passou.

- Espere! –Disse antes que eu saísse.

Tirou uma maquina fotográfica da gaveta. Uma Pentax K1000.

- Use essa.

Deixei o prédio e peguei o caminho da taverna.

Cheguei, e lá estava o misterioso cara do violão com seu paletó amarelo. Sem conversa, passei reto. Entrei no bar e peguei uma garrafa de vinho barato.

- O que você sabe sobre o garoto? – Perguntei ao barman. Então mostrei o anúncio das tortas.

- Ah... O garoto da novela! – Ligou a TV – Está bem na hora.

Segredos da paixão.

Um parque de diversões abandonado. Uma roda gigante. Lá estava o garoto, e com ele... Não, eu não pude acreditar...

Era Laura na TV... Ela me olhava de dentro da tela e sorria.

- Fugindo como sempre...?

- Talvez.

- Você é um covarde!

O mesmo sorriso.

- Acho que sim.

- Matou alguém?

- Não... Só quero ir embora daqui

- Meu nome é Laura.

- Meu nome é...

A TV saiu do ar. Tudo apagou. A completa escuridão tomou conta do bairro.

- Sempre acaba a luz por aqui? – Perguntei meio preocupado.

- É... – Respondeu o barman.

Então pude ouvir um som nefasto. Como o rugido de mil bestas das profundezas mais nefastas do inferno. Um grito de desespero e ódio.

- Aaaaaaaaaaaaahh!!!

As pessoas pararam em tudo o que estavam fazendo.

O cara que jogava sinuca parou. A gótica fumando um cigarro engoliu seco seu ultimo trago. O punk que passava um copo pelo buraco da orelha parou. O gordo engasgou com um arroto, então tossiu bem baixinho, depois parou também.

Aquele grito vinha da terra.

Então o silencio prevaleceu por uns vinte segundos.

Olhávamos uns para os outros, como pastéis, imóveis.

Então tudo voltou ao normal.

- Algum tipo de terremoto?!

- Não, é só o ódio da terra.

- Essa cidade tem vida.

Era o cara do violão. Acendeu um cigarro.

Tragou a fumaça e então soprou no ar.

As imagens tomavam forma na fumaça. Imagens destorcidas.

- O fundador dessa cidade tinha um sonho... Ele sonhava com uma terra livre onde as pessoas pudessem viver fora da sombra da ignorância. Arquitetos, poetas, cientistas, artistas de todos os cantos do mundo vieram fundar essa cidade.

A cidade prosperava como capital das artes e da ciência. Laboratórios, teatros, instalações arquitetônicas fantásticas. Nenhuma igreja, ou instituição moral que pudesse reprimir a criatividade dos habitantes da cidade.

Então eles vieram...

Entre a fumaça tomavam forma quatro cavaleiros. No alto da colina com seus olhares amaldiçoados.

- A cidade comemorava seu décimo segundo aniversário. E pela madrugada enquanto todos dormiam, eles entraram. Um exército.

Massacraram a população, eram arrastados para fora de suas casas e os executavam a sangue frio em plena madrugada.

Na manhã seguinte as ruas estavam vermelhas, rios de sangue.

Então um homem de armadura negra apareceu por entre a fumaça. Ele dizia:

- Uma sociedade não pode existir sem a lei de Deus! Essa cidade vive no pecado, é amaldiçoada por aqueles que permitem que essa aberração continue.

O estranho terminou sua dose e colocou uma nota na mesa.

- Enterraram nosso fundador vivo nessa mesma terra. A dor e o sofrimento dele foram consumidos. O solo se tornou infértil, tomou a consciência e o espírito do fundador, então a cidade foi engolida pela terra, banida para outra dimensão.

- Então a terra está viva?

Ele virou as costas e saiu.

- Melhor ir para casa, amigo. Amanhã vai ser um dia daqueles.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

janela de elétrons - capitulo XIII

Acordei com o sol na cara e peguei o rumo da estrada. Voltei ao centro da cidade.

Entre os prédios e as estruturas metálicas. Um paraíso de cinza de concreto e válvulas. Um inferno frio. Caminhei até chegar num prédio onde li numa placa.

Precisa-se de fotografo.

Precisava de um emprego, olhei numa vitrine e então me vi refletido.

Uma aparência horrível.

Precisava de roupas novas. Precisava de um banho.

Voltei até a pousada, Lar Doce Lar.

- Não tem pão velho. – Respondeu a senhoria e fechou a porta na minha cara.

Parei a porta com o pé e me apressei em dizer.

- Não lembra de mim dona?! Me hospedei aqui uma semana atrás.

- Sim agora me lembro... Você é o maluco que quebrou minha mobília. – Fechou a cara e voltou a bater a porta. Parei a porta com o pé outra vez.

- Quer parar de fazer isso com o pé?!

- Eu fui assaltado senhora, só preciso de umas roupas emprestadas. Tenho uma entrevista de emprego hoje e...

- Pro inferno você, garoto! Sai daqui se não eu chamo a policia!

Fechou a porta. Bateu a cara, voltou a fechar a porta e desta vez eu nem tinha colocado o pé.

Não teve jeito...

Olhei por cima do muro e vi algumas roupas estiradas no varal. Pensei. Vou roubar.

Pulei o muro peguei uma camisa, uma calça, uma cueca, meias, tudo que tinha direito, então pude ouvir a senhoria gritando:

- Ladrão!

Corri com tudo o que podia e me joguei por cima do muro.

Eu tinha roupas.

As coisas começavam a dar certo para mim. Tomei banho no rio. Roubei o sabão, mas não tinha toalha. Então fiquei secando pelado no sol.

Limpei meus sapatos e me preparei para a entrevista de emprego.

Tudo corria dentro do plano.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Janela de eletréns - XIII

Saí do bar, tentei segui-lo. Atravessou a praça e entrou num beco. Assim que percebeu que eu o estava seguindo ele disse:

- Melhor parar de me seguir, cara.

- Ok.

Então ele se foi, estranho como sempre.

Precisava de um lugar pra dormir. Caminhei horas pelas ruas até chegar num ferro velho abandonado. Passei por um buraco na cerca e encontrei um velho Opala.

Eu entrei pela janela e deitei no banco de trás. Cheirava mofo e mijo de gato e aquário, mas parecia um bom lugar pra ficar.

No sonho eu estava sozinho num parque de diversões. Tudo era preto e branco.

Então eu via Ana me acenando da roda gigante. Feliz.

- Ei, Vermelho sou eu, Ana!

O parque estava cheio.

Estava feliz em vê-la tão contente. Eu acenava com as duas mãos enquanto ela me mandava beijos no vento.

- Ela vai ficar bem. – ouvi uma voz ao meu ouvido.

Era Laura. Linda como sempre. Usava um vestido preto, como naqueles filmes antigos de faroeste. Todos no parque usavam roupas estranhas. Paletós, chapéus, bengalas e relógios de bolso. Até eu tinha um.

- Onde nós estamos...?

-Estamos dentro de uma fotografia. Coloquei todos eles aqui.

Eu olhei ao redor e pude ver Alex com seus pés de porco. Se preparava para acertar o alvo. Ele equilibrava uma marreta pesada no ar, estava sorrindo.

Era estranho, estavam todos tão contentes. Talvez o inferno não fosse um lugar tão ruim, pensei.

- Tirei as almas deles do inferno e as coloquei aqui. Era o mínimo que eu poderia fazer. Eram inocentes.

Pude ver Stu no carrossel feliz da vida como se fosse uma criança de novo.

- Matou toda essa gente? – Tive que perguntar, o parque estava cheio de almas.

- Não, Vermelho. A maioria já estava na fotografia. Ela foi tirada em 1915 pelo meu avô.

- Avô?

- Meu avô me levava ao parque todos os domingos quando eu era criança.

A cidade tinha se tornado maligna.

-Criei essa dimensão. Um lugar só meu... Como nos sonhos. E agora ele parece ter vida de novo.

- Foi uma boa idéia traze-los aqui Laura.

- É acho que foi sim.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XII

XII

Ainda chovia muito quando eu saí. Peguei um ônibus e parei no centro daquela cidade perversa. Abri o guarda-chuva e fui seguindo.

Eu vi Laura entrar no prédio do velho teatro. Corri, mas a perdi de vista. Talvez não fosse ela. Eu pensava. Mas não poderia deixá-la ir.

Mesmo que não fosse ela.

Comprei entradas. Entrei, subi as escadas e procurei entre as poltronas. Nada. Eu estava louco.

Sentei num dos acentos e fiquei. Esperando o show começar.

As luzes se apagaram.

Um homem apareceu no palco e disse algumas palavras:

- A função mais nobre do teatro é divertir.

Eu não conseguia me divertir.

A atmosfera dos risos e aplausos da platéia me deprimia como se eu comesse um biscoito Cream Cracker no meio do deserto do Saara, sozinho, engolindo seco toda tristeza como se eu fosse a batata. Talvez fosse a minha insensibilidade ou minha incapacidade de rir naquele momento que me deprimia mais ainda, não sei.

Distração, entretenimento são fugas da realidade. Momentos sem pensar em você mesmo ou no amanhã. O egoísmo do egoísmo.

A atmosfera ficava cada vez mais densa... Então a moçinha no palco disse:

- Quando deus criou o homem. Fez o cérebro e o pênis como suas partes mais importantes. – Houve silêncio... - Mas o sangue era pouco, de modo que o homem só pode usar um de cada vez. Fazer o que?

De repente eu ri. Senti-me estranho com aquela sensação.

Então o homem dizia:

- Pior é a mulher. Pinto não tem e o cérebro não usa. Todo mês tem que jogar o sangue fora.

Eu ria como se não houvesse amanhã.

- Deus fez o homem. E então pensou: Posso fazer melhor. E assim criou a mulher.

- Fez a mulher por ultimo por que não queria ouvir palpite. Isso sim.

E o casal da peça brigava. Era hilário.

Como era doce aquele momento. Eu estava envolvido com o espetáculo, a dança. A distração me conquistava por completo. Não pensava em Ana, não pensava nos planos maiores e o que era melhor: Não pensava em Laura.

Saí da peça mais leve. Sai pela rua. Precisava de um lugar pra dormir. Precisava de algo pra comer. Precisava de alguém pra amar. Precisava de um emprego. Eu estava fodido e nem dava conta disso. Eu precisava de um banho e de roupas novas. Eu precisava de um relógio que funcionasse e uma lanterna pra me guiar nessa escuridão maligna.

Cheguei num bar. Pedi uma Coca-Cola. Tive a impressão de ouvir um violão. Na calçada do outro lado da rua estava um cara muito estranho tocando. As outras pessoas pareciam não interferir na sua existência inerte.

Eu quero ser a luz que alisa, eu quero a sua mão.

Tentei soprar no seu ouvido, A cor ataca os meus sentidos...

Era um cara bem estranho.

- Quem é o estranho? – Perguntei a um dos caras sentados no balcão.

- Ninguém sabe o nome dele. Ele vem aqui todas as noites. Pede uma dose de Vodca e vai sentar lá do outro lado pra tocar sozinho. As meninas já foram puxar papo com ele, mas ele parece não se interessar por nada que não seja a bebida e o violão. Acho que é retardado.

- Talvez seja um gênio.

- Quem sabe...?

Chegaram três motoqueiros em suas motos. Todos carecas, uniformizados. Neonazistas, assassinos. Vai saber o que eram? Só sei que a galera começou a sair e o bar se esvaziou por completo.

Os caras davam medo. Um deles tinha uma cicatriz enorme no rosto, devia ter uns dois metros de altura. Abaixei a cabeça pra evitar os olhos. A coca-cola me ajudava a engolir o medo.

- Isso é musica de homossexual. – disse um dos brutamontes. – Poe uma de homem ai nessa Juke Box cara.

Colocou Ace Spade do MötorHead. Isso acalmou o animal. Gostava do MötorHead, mas preferia os Beatles.

- Você! – Fingi que não era comigo continuei tomando a coca-cola. – Ei mané eu to falando com você! Não ta me ouvindo?

- Ah...

- Você é algum tipo de retardado?

- Talvez... Posso ser um gênio.

- Ta fazendo piada comigo otário?

- Não amigo. Eu não quero confusão. Já estava de saída. Foi um prazer conhecer vocês.

Tentei sair, mas ai o idiota me puxou pelo ombro.

- Nem tão cedo amigão.

Deu-me um soco bem no meio do estomago. Não foi o primeiro.

- Agente quer fazer umas perguntinhas amigo. - Ele puxou um canivete do bolso e colocou na minha garganta.

- Conhece um cara chamado Vermelho?

- Posso dizer com certeza que sim. O filho da puta me deve uma grana.

- Ah é? – Olhou para seus companheiros esquisitos. – Roger, eu podia jurar que esse idiota aqui é o Vermelho.

- Pois é. – Respondeu Roger. – Tive a mesma impressão.

- Sem problemas amigos. As pessoas me dizem isso o tempo todo. Sabe como é.

- Não. Eu não sei...

Nisto entrou o cavalheiro estranho com seu violão. Passou entre os motoqueiros e parou em frente o balcão. Tinha cabelos pretos compridos e usava um paletó amarelo. Parecia nem notar o inferno que estava acontecendo ali.

- Ei otário! O bar fechou por hoje. – Disse o careca da cicatriz. – Melhor encher o cú em outro buteco.

O cavalheiro parecia nem notar os brutamontes. Era muito corajoso ou burro. Parou no balcão e pediu:

- Vodca e limão.

- Não ouviu o que eu falei bicha?

O estranho olhou com desprezo para o brutamonte e apenas disse:

- Vai se foder.

O careca ficou puto, me jogou no chão e foi pra cima do cavalheiro, mas antes que pudesse pensar em lhe acertar a cara, o estranho já tinha lhe deferido com um soco bem no meio do nariz estúpido e nazista. Arrebentou num estrondo horrível.

O grandalhão curvou que nem um anzol com as duas mãos no nariz sangrando. – Meu nariz! Ele quebrou meu nariz - Um chute no meio do peito e ele caiu de costas no chão do bar.

- Bicha! – Gritou Roger. Então foi pra cima do violeiro com o seu canivete.

O estranho pegou uma garrafa de cerveja e arrebentou na fuça do infeliz. Sem dó. Segurou pela nuca e começou a pressionar as mandíbulas com os polegares. Destruía a face dele como se a cabeça fosse uma abóbora podre.

O terceiro estava imóvel com um taco de sinuca na mão.

- Se afaste seu monstro.

- Ele é apenas humano – Gritava o chefe. – Acerte-o com o taco, idiota.

- Eu não faria isso.

O cara mordia os lábios, estava cagando de medo. Tentou cair pra cima do estranho, mas ele desviou do golpe fácil, pegou o idiota pelas costas numa chave de braço e bateu a sua cabeça no balcão de pedra.

Então o deixou deslizar inconsciente pelo balcão até cair de cara no chão. Como uma pedra.

- Sinto pelo transtorno, senhor. – Disse o estranho para o barman. - Eu já estou de saída. Colocou o dinheiro na mesa, virou o seu drink num gole e saiu.

Nunca vi ninguém lutar assim. Ele não era humano com certeza.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

XI

Acordei. Levantei e sorri. O guarda dormia. Gordo.

Sai pela porta da frente da delegacia, como muitos outros já fizeram antes.

Eu tinha que encontrar Laura.

Eu era um homem marcado. Não tinha onde me esconder. Peguei a avenida e segui em fuga.

Bati na porta, mas Ana não apareceu.

A procurei no restaurante e nada. Ada não estava em lugar algum.

Fechei meus olhos então pude escutar.

Sua voz cantando uma triste canção.

Eu vi você entrar por entre a porta aberta

Porque o bem me acompanha se é o mau que me completa.

Eu vi você me olhar por entre a porta aberta

Por que então me abandona? Se é que o mau em mim desperta...

A dor

Eu vi você passar por entre a luz da porta.

Minha amiga me acompanha enquanto a solidão conforta.

Eu vi você fumar por entre a luz da porta.

Envolvida do silencio seco das palavras mortas.

Eu que odiava o sol maldita luz do dia...

Sangrando nesse ódio que o meu ócio conduzia...

Eu escrevi essa musica pra ela.

Então eu pude vê-la. Projetada no fundo da minha lembrança...

Era um quarto escuro e calmo.

Ela chorava rios de sangue.

Eu vi você caindo com um beijo

Em Vermelho coloria a alegria em meu desejo.

Eu vi você caindo por um beijo

E o seu sangue refletia os passarinhos no azulejo.

Em suas mãos estava Laura Revolver.

Ada ia se matar. Eu não podia deixar.

Fechei meus olhos.

Projetei minha alma no infinito, deixando meu corpo ali imóvel.

Procurei na imensidão daquele vazio e então eu pude sentir sua tristeza.

Segui confuso em dimensão sonora seguindo um rio de sangue junto ao som dos seus soluços.

Então eu a vi...

Ela estava de joelhos com a arma apontada para cabeça.

- Ana. Não!

- Eu não posso ficar, Vermelho. Eu tenho que ir. – Ela soluçava. Se afogava na própria tristeza.

– Você me acha bonita?

Foi seu adeus, sua despedida. Ela sorriu fechou os olhos e puxou o gatilho.

Laura...

Meus olhos se encheram em ódio vivo.

Vermelhos de sangue.

-Eu te mato Laura. Te levo de volta pro inferno nem que seja a ultima coisa que eu faça

- A garota era um entrave Vermelho. Tive que fazer.

- Pro inferno você e o plano maior. Teve que fazer?! O que esta dizendo?

- Agora nada ficara entre nós, Vermelho. Se não se lembra temos uma missão a cumprir. A garota tinha que morrer.

- Ela não precisava morrer Laura. Foda-se o esquema. Foda-se os planos maiores. Foda-se você. Eu só queria que minha vida voltasse no tempo antes de todo esse inferno começar. Ana era o único elo com o meu passado e você a destruiu. Você é uma cobra.

- Vermelho. Não há tempo para emoções no campo de batalha. Sentimentos como amizade, amor e ódio, são ilusões que nos separam do nosso objetivo. Puro apego da alma que nos aprisiona às coisas mundanas. A verdadeira liberdade se conquista quando aprendemos a viver sem medo.

O veneno era doce nas suas palavras. Queria vomitar.

-Essa noite eu fiz Vermelho. – ela olhou nos meus olhos e disse: - Quando corria em pesadelo sem saber o que me seguia, eu fiz. Olhei para trás e vi o meu reflexo no espelho. Vi que eu mesma me perseguia. Precisa confiar em mim.

Eu não tinha mais em quem confiar. Ada estava morta. Eu só tinha Laura e ela de certo modo me tinha.

Voltei ao plano material.

Não sabia qual era o próximo passo a ser tomado. Minhas decisões já não me valiam de nada. A cada lugar que eu ia eu era manipulado em uma situação mais estranha. Entendia agora o que Laura havia me dito dias atrás.

Você acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres.

Sentimentos como amor, liberdade, ódio são ilusões. Você é uma peça nesse jogo assim como eu.

Eu não queria ser a peça, não queria ser o jogo.

Mas a cada dia que se passava naquela cidade eu me sentia mais preso.

Eu percebia que as regras não faziam sentido. E por mais que eu quisesse entender esse jogo, as cartas mudavam sua ordem e faziam-se ocultas.

Não me sinto feliz nem triste. Só sinto o enorme vazio que existe aqui.

As cidades e suas garras nos fazem raízes solitárias.

Pra sugar tudo aquilo que não presta. E apodrecer como uma batata.

Uma professora do primário uma vez me deu uma batata e disse:

- Vermelho, escreva nessa batata tudo aquilo que te chateia.

Então eu escrevi.

Passaram dias e dias e onde quer que eu fosse eu levava comigo a minha batata. Olhar para ela e ver meus sentimentos escritos ali me davam a impressão de que um dia eu iria apodrecer como ela.

Então ela me disse:

- Todos temos feridas expostas.

Era uma força maligna que eu sentia ali, que me fazia ficar, perder a rodada, voltar dez casas e esperar o fim.

E perder o jogo.

Se dissesse a flor que tu tinhas nas mãos. Que o maior desperdício da vida é viver por amor. Talvez pedisse ao vento:

Sopra-me quando todo mal me aquece...

Quem vai notar?

Se nessa doce solidão quem te acompanha não for eleita a perfeição eterna...

Janela de eletrons - Capitulo dez

X

De súbito eu voltei à consciência.

- Acorda vagabundo!

Era o policial. O mesmo da primeira noite na cidade. Me jogou numa cela suja e escura. Pervertidos, bêbados e andarilhos. Era a cela dos bebuns.

- Olha só quem chegou ao purgatório – Disse um dos Bêbados. Parecia ser o líder deles.

- Se afastem de mim seus vermes! Eu tenho uma faca.

- Não. Você não tem não. Mas eu tenho.

Tirou uma lamina, enferrujada, letal e infecciosa.

- Meu nome é Medo. Esse à esquerda é Fúria. Á direita aqui tem nosso amigo Dor, aquele de bigode. Bem... Aquele é o Bigode.

- E aquele estirado ali, o barbudo? – Perguntei.

- Aquele eu não conheço não. Ta dormindo dês de que agente chegou.

- Ah...

- Agente ouviu falar de você. Vermelho. Soube que tem muita gente atrás da sua cabeça. Pelo que ouvimos você foge da ordem. É o portador da alma “Z”.

- Alma Z?

- É um novo tipo de alma. Desenvolvida pelo plano maior. As forças divinas desconfiam que esse fluido espiritual seja o inicio de uma nova era. Alguém lá no topo quer começar tudo de novo. E mandou esse novo tipo de alma para testes na terra. Acredita-se que um novo deus surgirá para tomar o trono do antigo. Ambos os lados. Céu e Inferno se vêem ameaçado por esse individuo esse novo tipo de alma. E o que parece é que você é a chave.

- Como você sabe tudo isso?

- Não somos bêbados Vermelho. Somos Monges.

- Monges?

- Isso. Nossa doutrina estuda os planos maiores há séculos. Estamos infiltrados nessa cidade há décadas a sua espera.

- E como é que sabiam que eu estaria aqui?

- Essa cidade é uma distorção entre o tempo e espaço. A cidade não existe fisicamente. É uma aberração super-dimencional do tempo. Um reduto de almas sobre suspeita de Z. E o que parece é que o maior suspeito é você Vermelho.

- Merda!

Há essa hora o oficial Pereira deve estar ligando para um de seus superiores. Informando que você esta sob custódia. Escuta Vermelho! Você precisa sair daqui agora!

- Como eu vou sair daqui? Sou um rato enjaulado, fodido e mal pago, assim como todos vocês.

- Se você é o Z. deve ter poderes psíquicos, espirituais. Sei lá você deve fazer alguma coisa!

Eu estava perdido. Minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a explodir e espalhar feijão pra todo lado.

A musica ficava forte e cada vez mais alta na minha cabeça.

O feio, o belo e o esquisito, são partes do meu show.

O preto o branco, o bloco, o ciclo, imagens do que sou.

A obra prima, a falta, a rima, o erro e o perdão.

Cortei duas metades do meu eu interior perdido em...

Impressões

-O que ele ta cantando?

- Sei la... – respondeu o Medo - Ele é o Z.

Uma aura vermelha envolvia o meu corpo. Minha mente podia alcançar o infinito.

- Sim...

- Corra amigo. Semeie o tempo!

Fechei os olhos e desapareci.

Era como uma brincadeira.

Quando era criança eu lembro que brincava de esquecer o mundo.

Eu fechava os olhos e dizia:

- Onde estou? Quem sou eu? Que lugar é esse?

Eu deixava aquela sensação me embrulhar o estomago então eu abria os olhos e tentava esquecer das perguntas. Pensava em desenho animado. Formiga. Coisas de criança

Abri meus olhos e senti meus pés no chão outra vez.

Estava fora da cela. Sentia-me o mestre do tele transporte.

Então resolvi testar meus novos poderes psíquicos.

Vi uma poça d’água no chão. Me agachei e toquei meus dedos na água. Pensei na água toda escorregadia, fria e molhada. Desabei.

Virei água, escorria pra onde quisesse. Corri pelas ruas. Molhei o asfalto. Parei e pensei na minha forma humana e lá estava eu de volta.

Estava feliz com os meus novos poderes, tinha despertado como uma fênix pra dominar o meu poder.

Então eu pude ouvir vozes na minha cabeça.

- Vermelho. Acorda!

- Ele ta inconsciente.

- Droga o velho Pereira está voltando. Acorda Vermelho o seu corpo ainda está aqui!

Droga. Não tinha me tele transportado porra nenhuma. Minha consciência estava livre, mas meu corpo estava na mesma cela com Medo e os rapazes.

Pensei. Preciso voltar.

Imaginei a cela. Fechei os olhos e a sensação voltou. Me senti no elevador do Playcenter. Em queda livre. Alegria estúpida.

Um flash.

Estava de volta.

- Ei galera! Eu estou de volta.

Todos olharam para mim com espanto.

- Ah? Quem é você cara? – Perguntou Bigode.

- Vermelho porra!

Olhei pro lado e vi meu corpo imóvel no chão. Droga! Voltei no corpo do cara estranho que estava em coma alcoólico na cela. Aquele que ninguém sabia quem era. O barbudo.

Chegou Pereira. Cuspiu no chão como quem odeia onde pisa.

- Caramba, o anormal ai acordou? Pensei que estava morto.

Então ele viu meu corpo estirado no chão da cela, ficou roxo. Teve um chilique.

- O que o Vermelho ta fazendo caído ai. Seus bêbados! O que vocês fizeram.

Olhei para Medo e pisquei.

- Ele tava enchendo o saco seu guarda – Falou. – Aí agente deu um jeito nele.

- Droga! Tenho que levar o idiota pra interrogatório seus cretinos. Estão fodendo tudo.

Estava puto. Com certeza tinha ordens dos seus superiores para me levar dali. Abriu a cela. Entraram, ele e mais dois guardas. Tiraram meu corpo imóvel de lá.

- Tentem reanimar ele. Preciso dele falando! – Ordenou aos seus subordinados.

Então eles saíram.

- Ainda fodo vocês seus bêbados. Esperem e vão ver.

Saiu pisando fundo. Como quem odeia o chão.

- Essa foi por pouco, Vermelho. Que excelente idéia, voltar no corpo do indigente.

- É. Eu tinha que pensar numa maneira de não ser pego.

A verdade é que tudo não passou de um engano. Mas assumir pra que? Fiz pose de malandro e fiquei.

- E agora o que vai fazer?

- Vou esperar. Esse bêbado aqui deve sair em algumas horas.

- Tem razão eles não deixam os bêbados aqui por muito tempo. Depois de uns dias eles começam a feder mais do que o normal.

- Há quanto tempo estão presos aqui?! – O cheiro era insuportável.

Sentia-me horrível naquele corpo. Varias partes doíam e a barba fedia. Tinha carrapatos, Hemorróidas e mau hálito. Sentia-me o rei da porquisse.

Esperamos horas e horas naquela cela imunda.

Então chegou Pereira e seus homens.

- Você, você, você e você podem sair. Estão livres.

Seguiram felizes em rumo à liberdade.

Levantei-me e fui andando em direção a porta. Então Pereira colocou o dedo na minha fuça e disse:

- Nem tão cedo vagabundo. Ainda não acabei com você.

Fodeu. Pensei. Problema.

- Não achou que ia fazer o que fez e sair assim?

- O que eu fiz?

- Não se faça de retardado seu porco. Garotos! Leva esse pedaço de merda para a sala de eletrocussão.

- O que?!

Estava fodido. Pensei. Problema.

Carregaram-me até uma sala escura. Iluminada por uma única lâmpada no teto. Sentaram-me na cadeira elétrica. Amarraram meus braços, minhas pernas. Colocaram um capacete escroto e amarraram no meu queixo.

Deve ser um susto. Eu pensei. Não tem como eu ser executado sem nem mesmo um julgamento. É loucura.

- Não posso ser executado assim. Não tive um julgamento. Sou inocente porra.

- Ok, Ok. – Apontou para o guarda do lado direito e disse.

- Soldado Ferreira você será o advogado de defesa do senhor Belias.

- Sim senhor.

- Soldado Matias. Vai ser o advogado de acusação.

- Mas e o juiz? – Perguntei embora já esperasse a resposta cruel.

- O juiz. É eu!

Eu estava fodido...

- O senhor está sendo acusado por esse tribunal pela lei municipal 526532746532746. Parágrafo 2.

- Hã?

- Urinar em público!

- Fui condenado à cadeira elétrica por urinar em publico?

- Não meu amigo. Você foi condenado por infringir a lei. As leis foram feitas para serem seguidas, não questionadas.

- Cara...

Eu não tinha como argumentar contra as leis da sociedade. Eles iam me fritar de qualquer modo.

- Ta. Podem me fritar nessa cadeira idiota então.

- E nós iremos.

Puxou a alavanca. Meu advogado de defesa. Nunca confie no seu advogado.

Com a primeira descarga e pude sair daquele corpo. Vi ele se retorcendo na cadeira. Foi horrível.

Sai pela sala. Precisava encontrar meu corpo verdadeiro antes que o provisório virasse churrasco.

Passei pelos corredores escuros. Seguia minha intuição. Sentia sua presença e fui correndo até dar de cara com uma porta de metal.

A placa dizia: sala de interrogatório.

Pensei na água, fria escorregadia e desabei.

Escorri por baixo da porta metálica e retomei minha forma natural. Lá estava meu corpo, debruçado na mesa. Sem vida.

De volta à carne.

Um flash. Era bom ser um mesmo de novo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Janela de eletrons - capitulo nono

IX

A estação de ônibus, nosso primeiro encontro. Ela estava lá no banco onde nos conhecemos.

- Biscoito?

- Aceito.

Ela estava linda.

- Laura eu ouvi coisas muito estranhas no banheiro.

- É... Banheiros... Escutam-se muitas coisas nos banheiros.

- Eles falavam sobre você Laura. Algo sobre almas, registros falsificados, comunicadores oníricos. Coisa grande.

- Sim... Continue.

- Um deles era um bode e o outro era o mestre. Dizia o bode que você estava envolvida em algo, falavam sobre um plano.

- Preciso te contar uma coisa Vermelho. – ela olhou nos meus olhos. Fogo. - Eu sou uma agente. Uma organização maior do que tudo que qualquer homem conheceu.

- CIA? FBI?

- Não estou brincando, Vermelho. Planos maiores. Almas. Depois que Lúcifer foi expulso do céu ele fundou seu próprio negócio.

- O inferno.

- Exato. Deus tinha muito trabalho punindo os maus e tudo mais. Então entrou em reunião com o grupo e decidiram terceirizar tudo.

- Precisavam de alguém pra tomar conta do lixo.

- Pois bem. Lúcifer prosperou com a empresa e o inferno se tornou um grande império. Almas e mais almas todo dia e assim cada vez mais. Os negócios iam bem.

Acontece que o céu está à beira da falência. Sem almas saudáveis para importar para outros planos eles se viram obrigados a baixar o nível da coisa. Então começaram a diminuir os quesitos de qualidade. E assim mais e mais almas chegavam cada dia ao céu, que já não era tão perfeito.

- Evangelização.

-Exato. Igrejas e mais igrejas foram construídas, mas o mau já estava muito alem. Deus pediu então que seu filho Jesus voltasse. Para arrebanhar novas almas e ensinar aos homens outra vez a palavra de Deus.

- Hum... Ação de recursos divinos.

- Exato. Mas ele não teve sucesso. Caiu numa favela do Rio de Janeiro.

- E ai?

- E ai que converteu a maior galera, pois é. Chegou falando de amar o próximo, transformou água em vinho, multiplicou os pães. Distribuiu botijões de gás.

- Serio?

- Pois é, mas ai chegou um traficante da área com a farinha e mandou ele multiplicar aquilo. Jesus na inocência multiplicou o pão e deixou descontente os malucos da facção rival.

Um tal de Judas X-9 entregou Jesus pra policia e os canas prenderam ele.

Apanhou, e foi torturado até falar. Ninguém acreditou que o cara era o messias. Delegado falou:

- Incrível como todo mundo que vem pro xadrez vira crente. Ai vem com essa lengalenga de lei de deus e tudo mais.

- Crucificaram?

Não, depois que ele abriu o bico os canas soltaram ele na favela de novo. O delegado lavou as mãos. E você sabe o que acontece com X-9s. Queimaram ele dentro de uma pilha de pneu e desovaram o que sobrou em outra quebrada na mesma madrugada.

- Caramba...

Jesus esperou a poeira baixar por uns três dias e ressuscitou. Despediu da galera e saiu vazado pro céu.

- Que loucura Laura.

- Eu sei. A verdade é que o Inferno já esta pequeno de mais, e Lúcifer quer expandir os negócios até o Céu.

- E de que lado você está?

- Nenhum dos dois. Sou uma agente dupla, Vermelho Por isso troquei os registros. Preciso de você.

- Não estou entendendo Laura. Tudo o que você diz faz sentido. Não consigo nem me lembrar quem sou?

- Você é o predestinado. Por um plano maior. Está fora da compreensão de ambas as forças. Por isso os dois lados querem a sua cabeça.

- Entre o céu e do inferno...

- Tem mais uma coisa que eu preciso te falar. Tenho que...