V
Eu saí do restaurante e passei o resto do dia pensando sobre o que havia acontecido. Peguei meu caderno e comecei a riscar. Desenhei um pombo.
Um cara de chapéu chegou, começou a me observar.
- Estás desenhando?
- Qual é otário? Cai fora.
- Pois bem amigo, não quis de forma alguma te causar distúrbios. Só me impressiona como consegue desenhar tão mal.
- Vai se foder cara.
- Posso dizer que nunca vi em toda vida desenho tão ruim.
- Eu to pouco me lixando para o que você pensa cara. Cai fora!
- Estou impressionado! Quero comprar esse.
- Você é maluco cara? Cai fora. Já disse!
- Pago dez mil pelo pombo!
- Ta me zoando filho da puta?
Mas ai o desgraçado tirou um bolo de dinheiro do bolso. Muita grana.
- Onze mil e não se fala mais nisso!
- É seu cara.
Catei com as duas mãos, com fome de grana, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Coloquei na mochila com pressa. Onze mil Dólares por um rabisco, o cara devia ser maluco.
Ele saiu correndo feliz da vida com o rabisco de pombo. E eu me sentia esperto.
Então comecei a entender...
Estava contente, feliz, sei la, em êxtase, mas ai comecei a pensar no pombo. Era feio e mal feito, mas eu quem havia feito. Fazia parte de mim.
A partir do momento que minha imaginação conseguiu materializar a imagem do pombo na minha cabeça (visto que tinha pouca noção de como anatomicamente seria um pombo, por falta de observação e estudos anatômicos talvez), até o momento em que meu cérebro enviava milhares de estímulos para que meus músculos se movessem a rabiscar a estrutura do papel, que então gerava atrito com a ponta do lápis 6B fazendo com que partículas de carbono grafassem ilusões bidimensionais do que seria um pombo na minha concepção naquela folha de papel, até o momento que meus olhos enviassem a imagem do que eu havia criado numa percepção agora de fora pra dentro, acionando meu bom senso em admitir que esse fosse um péssimo desenho e... Bem, comecei a pensar em todos os processos químicos e físicos para reproduzir a ridícula imagem que eu tinha na minha imaginação do que seria um pombo, eu vi que onze mil dólares era um preço muito baixo, pela minha individualidade.
Não acreditara que havia me vendido por dinheiro. Fui atrás do maluco.
- Ei senhor – o puxei pelo ombro – Preciso do pombo, pega seu dinheiro e vaza daqui.
Seus olhos se encheram de lagrimas, então ele me devolveu o desenho. Devolvi-lhe o dinheiro. Não precisava dele.
Percebi que tinha realizado algo notável. Desenhei o desenho mais feio do mundo. Era quase como desenhar o mais belo. Eu era o melhor. Estava orgulhoso.
Assinei o desenho e escrevi no verso.
A janela aberta só me faz sentir o frio
Do vento que carrega o seu perfume de navio
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
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