segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Janela de elétrons - XII

XII

Ainda chovia muito quando eu saí. Peguei um ônibus e parei no centro daquela cidade perversa. Abri o guarda-chuva e fui seguindo.

Eu vi Laura entrar no prédio do velho teatro. Corri, mas a perdi de vista. Talvez não fosse ela. Eu pensava. Mas não poderia deixá-la ir.

Mesmo que não fosse ela.

Comprei entradas. Entrei, subi as escadas e procurei entre as poltronas. Nada. Eu estava louco.

Sentei num dos acentos e fiquei. Esperando o show começar.

As luzes se apagaram.

Um homem apareceu no palco e disse algumas palavras:

- A função mais nobre do teatro é divertir.

Eu não conseguia me divertir.

A atmosfera dos risos e aplausos da platéia me deprimia como se eu comesse um biscoito Cream Cracker no meio do deserto do Saara, sozinho, engolindo seco toda tristeza como se eu fosse a batata. Talvez fosse a minha insensibilidade ou minha incapacidade de rir naquele momento que me deprimia mais ainda, não sei.

Distração, entretenimento são fugas da realidade. Momentos sem pensar em você mesmo ou no amanhã. O egoísmo do egoísmo.

A atmosfera ficava cada vez mais densa... Então a moçinha no palco disse:

- Quando deus criou o homem. Fez o cérebro e o pênis como suas partes mais importantes. – Houve silêncio... - Mas o sangue era pouco, de modo que o homem só pode usar um de cada vez. Fazer o que?

De repente eu ri. Senti-me estranho com aquela sensação.

Então o homem dizia:

- Pior é a mulher. Pinto não tem e o cérebro não usa. Todo mês tem que jogar o sangue fora.

Eu ria como se não houvesse amanhã.

- Deus fez o homem. E então pensou: Posso fazer melhor. E assim criou a mulher.

- Fez a mulher por ultimo por que não queria ouvir palpite. Isso sim.

E o casal da peça brigava. Era hilário.

Como era doce aquele momento. Eu estava envolvido com o espetáculo, a dança. A distração me conquistava por completo. Não pensava em Ana, não pensava nos planos maiores e o que era melhor: Não pensava em Laura.

Saí da peça mais leve. Sai pela rua. Precisava de um lugar pra dormir. Precisava de algo pra comer. Precisava de alguém pra amar. Precisava de um emprego. Eu estava fodido e nem dava conta disso. Eu precisava de um banho e de roupas novas. Eu precisava de um relógio que funcionasse e uma lanterna pra me guiar nessa escuridão maligna.

Cheguei num bar. Pedi uma Coca-Cola. Tive a impressão de ouvir um violão. Na calçada do outro lado da rua estava um cara muito estranho tocando. As outras pessoas pareciam não interferir na sua existência inerte.

Eu quero ser a luz que alisa, eu quero a sua mão.

Tentei soprar no seu ouvido, A cor ataca os meus sentidos...

Era um cara bem estranho.

- Quem é o estranho? – Perguntei a um dos caras sentados no balcão.

- Ninguém sabe o nome dele. Ele vem aqui todas as noites. Pede uma dose de Vodca e vai sentar lá do outro lado pra tocar sozinho. As meninas já foram puxar papo com ele, mas ele parece não se interessar por nada que não seja a bebida e o violão. Acho que é retardado.

- Talvez seja um gênio.

- Quem sabe...?

Chegaram três motoqueiros em suas motos. Todos carecas, uniformizados. Neonazistas, assassinos. Vai saber o que eram? Só sei que a galera começou a sair e o bar se esvaziou por completo.

Os caras davam medo. Um deles tinha uma cicatriz enorme no rosto, devia ter uns dois metros de altura. Abaixei a cabeça pra evitar os olhos. A coca-cola me ajudava a engolir o medo.

- Isso é musica de homossexual. – disse um dos brutamontes. – Poe uma de homem ai nessa Juke Box cara.

Colocou Ace Spade do MötorHead. Isso acalmou o animal. Gostava do MötorHead, mas preferia os Beatles.

- Você! – Fingi que não era comigo continuei tomando a coca-cola. – Ei mané eu to falando com você! Não ta me ouvindo?

- Ah...

- Você é algum tipo de retardado?

- Talvez... Posso ser um gênio.

- Ta fazendo piada comigo otário?

- Não amigo. Eu não quero confusão. Já estava de saída. Foi um prazer conhecer vocês.

Tentei sair, mas ai o idiota me puxou pelo ombro.

- Nem tão cedo amigão.

Deu-me um soco bem no meio do estomago. Não foi o primeiro.

- Agente quer fazer umas perguntinhas amigo. - Ele puxou um canivete do bolso e colocou na minha garganta.

- Conhece um cara chamado Vermelho?

- Posso dizer com certeza que sim. O filho da puta me deve uma grana.

- Ah é? – Olhou para seus companheiros esquisitos. – Roger, eu podia jurar que esse idiota aqui é o Vermelho.

- Pois é. – Respondeu Roger. – Tive a mesma impressão.

- Sem problemas amigos. As pessoas me dizem isso o tempo todo. Sabe como é.

- Não. Eu não sei...

Nisto entrou o cavalheiro estranho com seu violão. Passou entre os motoqueiros e parou em frente o balcão. Tinha cabelos pretos compridos e usava um paletó amarelo. Parecia nem notar o inferno que estava acontecendo ali.

- Ei otário! O bar fechou por hoje. – Disse o careca da cicatriz. – Melhor encher o cú em outro buteco.

O cavalheiro parecia nem notar os brutamontes. Era muito corajoso ou burro. Parou no balcão e pediu:

- Vodca e limão.

- Não ouviu o que eu falei bicha?

O estranho olhou com desprezo para o brutamonte e apenas disse:

- Vai se foder.

O careca ficou puto, me jogou no chão e foi pra cima do cavalheiro, mas antes que pudesse pensar em lhe acertar a cara, o estranho já tinha lhe deferido com um soco bem no meio do nariz estúpido e nazista. Arrebentou num estrondo horrível.

O grandalhão curvou que nem um anzol com as duas mãos no nariz sangrando. – Meu nariz! Ele quebrou meu nariz - Um chute no meio do peito e ele caiu de costas no chão do bar.

- Bicha! – Gritou Roger. Então foi pra cima do violeiro com o seu canivete.

O estranho pegou uma garrafa de cerveja e arrebentou na fuça do infeliz. Sem dó. Segurou pela nuca e começou a pressionar as mandíbulas com os polegares. Destruía a face dele como se a cabeça fosse uma abóbora podre.

O terceiro estava imóvel com um taco de sinuca na mão.

- Se afaste seu monstro.

- Ele é apenas humano – Gritava o chefe. – Acerte-o com o taco, idiota.

- Eu não faria isso.

O cara mordia os lábios, estava cagando de medo. Tentou cair pra cima do estranho, mas ele desviou do golpe fácil, pegou o idiota pelas costas numa chave de braço e bateu a sua cabeça no balcão de pedra.

Então o deixou deslizar inconsciente pelo balcão até cair de cara no chão. Como uma pedra.

- Sinto pelo transtorno, senhor. – Disse o estranho para o barman. - Eu já estou de saída. Colocou o dinheiro na mesa, virou o seu drink num gole e saiu.

Nunca vi ninguém lutar assim. Ele não era humano com certeza.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

XI

Acordei. Levantei e sorri. O guarda dormia. Gordo.

Sai pela porta da frente da delegacia, como muitos outros já fizeram antes.

Eu tinha que encontrar Laura.

Eu era um homem marcado. Não tinha onde me esconder. Peguei a avenida e segui em fuga.

Bati na porta, mas Ana não apareceu.

A procurei no restaurante e nada. Ada não estava em lugar algum.

Fechei meus olhos então pude escutar.

Sua voz cantando uma triste canção.

Eu vi você entrar por entre a porta aberta

Porque o bem me acompanha se é o mau que me completa.

Eu vi você me olhar por entre a porta aberta

Por que então me abandona? Se é que o mau em mim desperta...

A dor

Eu vi você passar por entre a luz da porta.

Minha amiga me acompanha enquanto a solidão conforta.

Eu vi você fumar por entre a luz da porta.

Envolvida do silencio seco das palavras mortas.

Eu que odiava o sol maldita luz do dia...

Sangrando nesse ódio que o meu ócio conduzia...

Eu escrevi essa musica pra ela.

Então eu pude vê-la. Projetada no fundo da minha lembrança...

Era um quarto escuro e calmo.

Ela chorava rios de sangue.

Eu vi você caindo com um beijo

Em Vermelho coloria a alegria em meu desejo.

Eu vi você caindo por um beijo

E o seu sangue refletia os passarinhos no azulejo.

Em suas mãos estava Laura Revolver.

Ada ia se matar. Eu não podia deixar.

Fechei meus olhos.

Projetei minha alma no infinito, deixando meu corpo ali imóvel.

Procurei na imensidão daquele vazio e então eu pude sentir sua tristeza.

Segui confuso em dimensão sonora seguindo um rio de sangue junto ao som dos seus soluços.

Então eu a vi...

Ela estava de joelhos com a arma apontada para cabeça.

- Ana. Não!

- Eu não posso ficar, Vermelho. Eu tenho que ir. – Ela soluçava. Se afogava na própria tristeza.

– Você me acha bonita?

Foi seu adeus, sua despedida. Ela sorriu fechou os olhos e puxou o gatilho.

Laura...

Meus olhos se encheram em ódio vivo.

Vermelhos de sangue.

-Eu te mato Laura. Te levo de volta pro inferno nem que seja a ultima coisa que eu faça

- A garota era um entrave Vermelho. Tive que fazer.

- Pro inferno você e o plano maior. Teve que fazer?! O que esta dizendo?

- Agora nada ficara entre nós, Vermelho. Se não se lembra temos uma missão a cumprir. A garota tinha que morrer.

- Ela não precisava morrer Laura. Foda-se o esquema. Foda-se os planos maiores. Foda-se você. Eu só queria que minha vida voltasse no tempo antes de todo esse inferno começar. Ana era o único elo com o meu passado e você a destruiu. Você é uma cobra.

- Vermelho. Não há tempo para emoções no campo de batalha. Sentimentos como amizade, amor e ódio, são ilusões que nos separam do nosso objetivo. Puro apego da alma que nos aprisiona às coisas mundanas. A verdadeira liberdade se conquista quando aprendemos a viver sem medo.

O veneno era doce nas suas palavras. Queria vomitar.

-Essa noite eu fiz Vermelho. – ela olhou nos meus olhos e disse: - Quando corria em pesadelo sem saber o que me seguia, eu fiz. Olhei para trás e vi o meu reflexo no espelho. Vi que eu mesma me perseguia. Precisa confiar em mim.

Eu não tinha mais em quem confiar. Ada estava morta. Eu só tinha Laura e ela de certo modo me tinha.

Voltei ao plano material.

Não sabia qual era o próximo passo a ser tomado. Minhas decisões já não me valiam de nada. A cada lugar que eu ia eu era manipulado em uma situação mais estranha. Entendia agora o que Laura havia me dito dias atrás.

Você acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres.

Sentimentos como amor, liberdade, ódio são ilusões. Você é uma peça nesse jogo assim como eu.

Eu não queria ser a peça, não queria ser o jogo.

Mas a cada dia que se passava naquela cidade eu me sentia mais preso.

Eu percebia que as regras não faziam sentido. E por mais que eu quisesse entender esse jogo, as cartas mudavam sua ordem e faziam-se ocultas.

Não me sinto feliz nem triste. Só sinto o enorme vazio que existe aqui.

As cidades e suas garras nos fazem raízes solitárias.

Pra sugar tudo aquilo que não presta. E apodrecer como uma batata.

Uma professora do primário uma vez me deu uma batata e disse:

- Vermelho, escreva nessa batata tudo aquilo que te chateia.

Então eu escrevi.

Passaram dias e dias e onde quer que eu fosse eu levava comigo a minha batata. Olhar para ela e ver meus sentimentos escritos ali me davam a impressão de que um dia eu iria apodrecer como ela.

Então ela me disse:

- Todos temos feridas expostas.

Era uma força maligna que eu sentia ali, que me fazia ficar, perder a rodada, voltar dez casas e esperar o fim.

E perder o jogo.

Se dissesse a flor que tu tinhas nas mãos. Que o maior desperdício da vida é viver por amor. Talvez pedisse ao vento:

Sopra-me quando todo mal me aquece...

Quem vai notar?

Se nessa doce solidão quem te acompanha não for eleita a perfeição eterna...

Janela de eletrons - Capitulo dez

X

De súbito eu voltei à consciência.

- Acorda vagabundo!

Era o policial. O mesmo da primeira noite na cidade. Me jogou numa cela suja e escura. Pervertidos, bêbados e andarilhos. Era a cela dos bebuns.

- Olha só quem chegou ao purgatório – Disse um dos Bêbados. Parecia ser o líder deles.

- Se afastem de mim seus vermes! Eu tenho uma faca.

- Não. Você não tem não. Mas eu tenho.

Tirou uma lamina, enferrujada, letal e infecciosa.

- Meu nome é Medo. Esse à esquerda é Fúria. Á direita aqui tem nosso amigo Dor, aquele de bigode. Bem... Aquele é o Bigode.

- E aquele estirado ali, o barbudo? – Perguntei.

- Aquele eu não conheço não. Ta dormindo dês de que agente chegou.

- Ah...

- Agente ouviu falar de você. Vermelho. Soube que tem muita gente atrás da sua cabeça. Pelo que ouvimos você foge da ordem. É o portador da alma “Z”.

- Alma Z?

- É um novo tipo de alma. Desenvolvida pelo plano maior. As forças divinas desconfiam que esse fluido espiritual seja o inicio de uma nova era. Alguém lá no topo quer começar tudo de novo. E mandou esse novo tipo de alma para testes na terra. Acredita-se que um novo deus surgirá para tomar o trono do antigo. Ambos os lados. Céu e Inferno se vêem ameaçado por esse individuo esse novo tipo de alma. E o que parece é que você é a chave.

- Como você sabe tudo isso?

- Não somos bêbados Vermelho. Somos Monges.

- Monges?

- Isso. Nossa doutrina estuda os planos maiores há séculos. Estamos infiltrados nessa cidade há décadas a sua espera.

- E como é que sabiam que eu estaria aqui?

- Essa cidade é uma distorção entre o tempo e espaço. A cidade não existe fisicamente. É uma aberração super-dimencional do tempo. Um reduto de almas sobre suspeita de Z. E o que parece é que o maior suspeito é você Vermelho.

- Merda!

Há essa hora o oficial Pereira deve estar ligando para um de seus superiores. Informando que você esta sob custódia. Escuta Vermelho! Você precisa sair daqui agora!

- Como eu vou sair daqui? Sou um rato enjaulado, fodido e mal pago, assim como todos vocês.

- Se você é o Z. deve ter poderes psíquicos, espirituais. Sei lá você deve fazer alguma coisa!

Eu estava perdido. Minha cabeça parecia uma panela de pressão prestes a explodir e espalhar feijão pra todo lado.

A musica ficava forte e cada vez mais alta na minha cabeça.

O feio, o belo e o esquisito, são partes do meu show.

O preto o branco, o bloco, o ciclo, imagens do que sou.

A obra prima, a falta, a rima, o erro e o perdão.

Cortei duas metades do meu eu interior perdido em...

Impressões

-O que ele ta cantando?

- Sei la... – respondeu o Medo - Ele é o Z.

Uma aura vermelha envolvia o meu corpo. Minha mente podia alcançar o infinito.

- Sim...

- Corra amigo. Semeie o tempo!

Fechei os olhos e desapareci.

Era como uma brincadeira.

Quando era criança eu lembro que brincava de esquecer o mundo.

Eu fechava os olhos e dizia:

- Onde estou? Quem sou eu? Que lugar é esse?

Eu deixava aquela sensação me embrulhar o estomago então eu abria os olhos e tentava esquecer das perguntas. Pensava em desenho animado. Formiga. Coisas de criança

Abri meus olhos e senti meus pés no chão outra vez.

Estava fora da cela. Sentia-me o mestre do tele transporte.

Então resolvi testar meus novos poderes psíquicos.

Vi uma poça d’água no chão. Me agachei e toquei meus dedos na água. Pensei na água toda escorregadia, fria e molhada. Desabei.

Virei água, escorria pra onde quisesse. Corri pelas ruas. Molhei o asfalto. Parei e pensei na minha forma humana e lá estava eu de volta.

Estava feliz com os meus novos poderes, tinha despertado como uma fênix pra dominar o meu poder.

Então eu pude ouvir vozes na minha cabeça.

- Vermelho. Acorda!

- Ele ta inconsciente.

- Droga o velho Pereira está voltando. Acorda Vermelho o seu corpo ainda está aqui!

Droga. Não tinha me tele transportado porra nenhuma. Minha consciência estava livre, mas meu corpo estava na mesma cela com Medo e os rapazes.

Pensei. Preciso voltar.

Imaginei a cela. Fechei os olhos e a sensação voltou. Me senti no elevador do Playcenter. Em queda livre. Alegria estúpida.

Um flash.

Estava de volta.

- Ei galera! Eu estou de volta.

Todos olharam para mim com espanto.

- Ah? Quem é você cara? – Perguntou Bigode.

- Vermelho porra!

Olhei pro lado e vi meu corpo imóvel no chão. Droga! Voltei no corpo do cara estranho que estava em coma alcoólico na cela. Aquele que ninguém sabia quem era. O barbudo.

Chegou Pereira. Cuspiu no chão como quem odeia onde pisa.

- Caramba, o anormal ai acordou? Pensei que estava morto.

Então ele viu meu corpo estirado no chão da cela, ficou roxo. Teve um chilique.

- O que o Vermelho ta fazendo caído ai. Seus bêbados! O que vocês fizeram.

Olhei para Medo e pisquei.

- Ele tava enchendo o saco seu guarda – Falou. – Aí agente deu um jeito nele.

- Droga! Tenho que levar o idiota pra interrogatório seus cretinos. Estão fodendo tudo.

Estava puto. Com certeza tinha ordens dos seus superiores para me levar dali. Abriu a cela. Entraram, ele e mais dois guardas. Tiraram meu corpo imóvel de lá.

- Tentem reanimar ele. Preciso dele falando! – Ordenou aos seus subordinados.

Então eles saíram.

- Ainda fodo vocês seus bêbados. Esperem e vão ver.

Saiu pisando fundo. Como quem odeia o chão.

- Essa foi por pouco, Vermelho. Que excelente idéia, voltar no corpo do indigente.

- É. Eu tinha que pensar numa maneira de não ser pego.

A verdade é que tudo não passou de um engano. Mas assumir pra que? Fiz pose de malandro e fiquei.

- E agora o que vai fazer?

- Vou esperar. Esse bêbado aqui deve sair em algumas horas.

- Tem razão eles não deixam os bêbados aqui por muito tempo. Depois de uns dias eles começam a feder mais do que o normal.

- Há quanto tempo estão presos aqui?! – O cheiro era insuportável.

Sentia-me horrível naquele corpo. Varias partes doíam e a barba fedia. Tinha carrapatos, Hemorróidas e mau hálito. Sentia-me o rei da porquisse.

Esperamos horas e horas naquela cela imunda.

Então chegou Pereira e seus homens.

- Você, você, você e você podem sair. Estão livres.

Seguiram felizes em rumo à liberdade.

Levantei-me e fui andando em direção a porta. Então Pereira colocou o dedo na minha fuça e disse:

- Nem tão cedo vagabundo. Ainda não acabei com você.

Fodeu. Pensei. Problema.

- Não achou que ia fazer o que fez e sair assim?

- O que eu fiz?

- Não se faça de retardado seu porco. Garotos! Leva esse pedaço de merda para a sala de eletrocussão.

- O que?!

Estava fodido. Pensei. Problema.

Carregaram-me até uma sala escura. Iluminada por uma única lâmpada no teto. Sentaram-me na cadeira elétrica. Amarraram meus braços, minhas pernas. Colocaram um capacete escroto e amarraram no meu queixo.

Deve ser um susto. Eu pensei. Não tem como eu ser executado sem nem mesmo um julgamento. É loucura.

- Não posso ser executado assim. Não tive um julgamento. Sou inocente porra.

- Ok, Ok. – Apontou para o guarda do lado direito e disse.

- Soldado Ferreira você será o advogado de defesa do senhor Belias.

- Sim senhor.

- Soldado Matias. Vai ser o advogado de acusação.

- Mas e o juiz? – Perguntei embora já esperasse a resposta cruel.

- O juiz. É eu!

Eu estava fodido...

- O senhor está sendo acusado por esse tribunal pela lei municipal 526532746532746. Parágrafo 2.

- Hã?

- Urinar em público!

- Fui condenado à cadeira elétrica por urinar em publico?

- Não meu amigo. Você foi condenado por infringir a lei. As leis foram feitas para serem seguidas, não questionadas.

- Cara...

Eu não tinha como argumentar contra as leis da sociedade. Eles iam me fritar de qualquer modo.

- Ta. Podem me fritar nessa cadeira idiota então.

- E nós iremos.

Puxou a alavanca. Meu advogado de defesa. Nunca confie no seu advogado.

Com a primeira descarga e pude sair daquele corpo. Vi ele se retorcendo na cadeira. Foi horrível.

Sai pela sala. Precisava encontrar meu corpo verdadeiro antes que o provisório virasse churrasco.

Passei pelos corredores escuros. Seguia minha intuição. Sentia sua presença e fui correndo até dar de cara com uma porta de metal.

A placa dizia: sala de interrogatório.

Pensei na água, fria escorregadia e desabei.

Escorri por baixo da porta metálica e retomei minha forma natural. Lá estava meu corpo, debruçado na mesa. Sem vida.

De volta à carne.

Um flash. Era bom ser um mesmo de novo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Janela de eletrons - capitulo nono

IX

A estação de ônibus, nosso primeiro encontro. Ela estava lá no banco onde nos conhecemos.

- Biscoito?

- Aceito.

Ela estava linda.

- Laura eu ouvi coisas muito estranhas no banheiro.

- É... Banheiros... Escutam-se muitas coisas nos banheiros.

- Eles falavam sobre você Laura. Algo sobre almas, registros falsificados, comunicadores oníricos. Coisa grande.

- Sim... Continue.

- Um deles era um bode e o outro era o mestre. Dizia o bode que você estava envolvida em algo, falavam sobre um plano.

- Preciso te contar uma coisa Vermelho. – ela olhou nos meus olhos. Fogo. - Eu sou uma agente. Uma organização maior do que tudo que qualquer homem conheceu.

- CIA? FBI?

- Não estou brincando, Vermelho. Planos maiores. Almas. Depois que Lúcifer foi expulso do céu ele fundou seu próprio negócio.

- O inferno.

- Exato. Deus tinha muito trabalho punindo os maus e tudo mais. Então entrou em reunião com o grupo e decidiram terceirizar tudo.

- Precisavam de alguém pra tomar conta do lixo.

- Pois bem. Lúcifer prosperou com a empresa e o inferno se tornou um grande império. Almas e mais almas todo dia e assim cada vez mais. Os negócios iam bem.

Acontece que o céu está à beira da falência. Sem almas saudáveis para importar para outros planos eles se viram obrigados a baixar o nível da coisa. Então começaram a diminuir os quesitos de qualidade. E assim mais e mais almas chegavam cada dia ao céu, que já não era tão perfeito.

- Evangelização.

-Exato. Igrejas e mais igrejas foram construídas, mas o mau já estava muito alem. Deus pediu então que seu filho Jesus voltasse. Para arrebanhar novas almas e ensinar aos homens outra vez a palavra de Deus.

- Hum... Ação de recursos divinos.

- Exato. Mas ele não teve sucesso. Caiu numa favela do Rio de Janeiro.

- E ai?

- E ai que converteu a maior galera, pois é. Chegou falando de amar o próximo, transformou água em vinho, multiplicou os pães. Distribuiu botijões de gás.

- Serio?

- Pois é, mas ai chegou um traficante da área com a farinha e mandou ele multiplicar aquilo. Jesus na inocência multiplicou o pão e deixou descontente os malucos da facção rival.

Um tal de Judas X-9 entregou Jesus pra policia e os canas prenderam ele.

Apanhou, e foi torturado até falar. Ninguém acreditou que o cara era o messias. Delegado falou:

- Incrível como todo mundo que vem pro xadrez vira crente. Ai vem com essa lengalenga de lei de deus e tudo mais.

- Crucificaram?

Não, depois que ele abriu o bico os canas soltaram ele na favela de novo. O delegado lavou as mãos. E você sabe o que acontece com X-9s. Queimaram ele dentro de uma pilha de pneu e desovaram o que sobrou em outra quebrada na mesma madrugada.

- Caramba...

Jesus esperou a poeira baixar por uns três dias e ressuscitou. Despediu da galera e saiu vazado pro céu.

- Que loucura Laura.

- Eu sei. A verdade é que o Inferno já esta pequeno de mais, e Lúcifer quer expandir os negócios até o Céu.

- E de que lado você está?

- Nenhum dos dois. Sou uma agente dupla, Vermelho Por isso troquei os registros. Preciso de você.

- Não estou entendendo Laura. Tudo o que você diz faz sentido. Não consigo nem me lembrar quem sou?

- Você é o predestinado. Por um plano maior. Está fora da compreensão de ambas as forças. Por isso os dois lados querem a sua cabeça.

- Entre o céu e do inferno...

- Tem mais uma coisa que eu preciso te falar. Tenho que...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Janela de eletrons - capitulo oitavo




Eu corri como se não houvesse amanhã.

Estava decidido a deixar a cidade. Definitivamente. Andei a noite, pelas ruas e bares. Fumei. Corri como se não houvesse amanhã.

Corri até a rodoviária. Não tinha dinheiro para passagens.

Pedi.

Inventava uma história comovente para cada um que passava. Nada.

Entrei no banheiro e me fechei na cabine.

Abri a mochila e peguei o caderno. Quando abri o caderno eu vi o pombo. Feio como sempre. Isso me alegrava, era ótimo olhar pra ele. No verso do desenho eu tinha um verso.


A janela aberta só me faz sentir o frio

Do vento que carrega o seu perfume de navio


Eu pensei. Não sou assassino. Um assassino não teria virtude no coração para escrever uma musica tão linda.

Se suas cores tomam parte em seu perfume

Eu te digo amor que morro de ciúmes

Se quem não colheu a mais perfeita flor

Fui eu...



Eu terminei a musica no verso do desenho. Estava pronto, linda.

Cagar sempre me fazia sentir melhor.

Escrever e cagar são coisas distintas e ao mesmo tempo muito parecidas em suas funções.

Cagar me tirava as porcarias do corpo. Escrever me tirava as porcarias da alma.


Um alívio instantâneo. Como respirar, beber água, comer. Passamos a vida jogando porcaria pra dentro e depois pra fora. Ciclos da porcaria.


A porcaria está em toda parte. No álcool, nos cigarros, na pornografia, nos conservantes, nos corantes nos acidulantes e nas gorduras trans. Agente caga, mas a sujeira fica na alma, se não põe pra fora a alma apodrece e agente se transforma em porco.


Faz sentido.


Pude ouvir dois homens entrando no banheiro. Passos pesados de quem odeia onde pisa. Homens grandes.

Eu pude escutar a conversa.


- Tem certeza que esse lugar é seguro?

- Sim.

- Tudo corre dentro do plano?

- Sim mestre. Mas uma coisa não me sai da cabeça. Me preocupa.

- Um problema?

- Laura senhor.

- Escuta aqui! Laura é a nossa melhor agente. Ela tem nos encaminhado mais almas do que qualquer um envolvido nessa operação. Espero que saiba o que está dizendo.

- Sim senhor. Mas creio que ela interceptou por um dos mundanos recém chegados. O qual se conhece pelo nome de Vermelho. Sua alma estava encaminhada para ontem. Suicídio. Mas ela entregou um tal de Alex em seu lugar. Ela trocou os registros.

- Alex Noir? O imbecil deveria morrer de overdose aos vinte e sete numa banheira de hotel.

- Laura não só trocou os registros dele como usou um dos nossos comunicadores oníricos para fazer contato com Vermelho. Primeiro assumiu a forma de uma aranha gigante. Em seguida induziu um coma de curta duração, usando um perturbador mental de bolso.

- Que motivos levariam ela a fazer uma loucura dessas.

- Não sei senhor...

- Você tem vinte e quatro horas pra descobrir e me provar que ela esta envolvida nesses incidentes. Caso contrário você será responsabilizado. Estamos perto Alberto. Não posso admitir que traidores ponham em risco meu plano.

- Sim mestre.


Pela fresta da cabine eu pude ver um dos homens.


Era um bode. Usava terno e gravata. Andava em duas pernas e fumava cigaro.

Os dois saíram, mas eu só pude ver o servo. Quem seria o mestre? Almas, Laura, comunicador onírico? Mas que porra estava acontecendo nessa cidade.


Eu era um homem marcado.

Laura...


Eu fugia, e ela tinha razão. Ela me impediu do suicídio. Tudo fazia sentido agora. Lutar me fazia esquecer de fugir. As musicas, os poemas, Ana.


Eu precisava falar com Laura. E sabia como encontra-la.

Eu precisava sonhar.



Deitei e fechei os olhos.


Nada.


Não conseguia dormir com os pensamentos rodando sobre minha cabeça como moscas. Giravam até me deixar tonto e enjoado de pensar. Era difícil dormir ali naquele chão gelado. Estava cedo demais. Eu não tinha sono e nem vontade de dormir.

Ganhei as ruas, entrei num bar. Não tinha dinheiro pra passagens, mas pra encher a cara deu. Tomei o que tinha de mais barato e vagabundo. Fiz amigos. Agente ria e enchia os copos. Estava sonolento e então alguém disse:

Recite um de seus poemas Vermelho, vamos lá.

Eu subi na mesa e olhei pra baixo, quase me desequilibrei.


Se um pesadelo se repete, é sinal que a cura caminha longe.

Eles voltam pelos buracos da alma cedo ou tarde pela noite cálida

Pra te fazer sangrar além da vida.


Como a dor que te avisa quando estás ferida, minha pequena.

Como as cobras traiçoeiras no sol a queimar.

Enigmáticas elas profetizam pelos sonhos

Seus olhos sangrando sentem o gosto no ar.



O veneno é doce e inibe a alma.

Parece desgrudar da carne, a vida.

Desliza... Sobre a face inquisitória da morte

Gozando o inferno enquanto todos choram


Na ironia que é viver na terra.

Ficar sozinha... Ser traída.



Pude ver seus olhos em brasa.

Laura...

A luz de novo vinha curta e sonolenta pelo arrepio de almas perdidas.

domingo, 4 de outubro de 2009

Janela de elétrons - VII

VII

- Acorda otário. Não acabei com você ainda.

Foi um chute cruel no estomago.

Cuspi uma poça de sangue densa, mercúrio vermelho pela minha garganta. Eu estava cego. A embaçada atmosfera dos meus olhos assim como a minha mente, poluída demais para ver, odiar, e reconhecer quem me agredia.

- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.

Alex...

O grandalhão estúpido. Com seus amigos punks. Droga. Devia ter imaginado. O filho da puta me pegou enquanto estava atormentado. Dói tanto que até rima.

- Sabia que ia te encontrar amigo. Porque um covarde sempre deixa rastro de medo onde passa.

Deu outro chute na boca do estomago. Me fez vomitar sangue. E ódio.

– Eu não sei quem é você e de onde veio. Sei que se acha melhor que todo mundo aqui, mas a verdade é que você esta entre os porcos agora, amigo, então se acostume com o chiqueiro. – Outro chute - Vou dizer só mais uma vez. Estaremos de olho em você, a cada esquina a cada rua, a cada peido que der, estaremos lá. E mais uma coisa, fique longe da Laura ta me entendendo.

- Eu vou matar vocês seus putos. Eu vou matar todos.

Não conseguia levantar. Era fraco, eles riam como porcos. Uma risada nasal e estúpida. Levantei os olhos e pude ver. Seus pés eram estranhos. Eram pés de porco, coxas de porco, eram porcos até a cintura.

- Alex! Seus pés! – Eu ria – Você tem pés de porco! Hahahahahahaha!

Há muito tempo não dava uma boa risada, era ridículo, ele estava se transformando num porco.

Seus amigos se afastaram pra longe, correram. E varias pessoas começavam a chegar de todos os lados.

- Merda o que ta acontecendo comigo – Ele estava em pânico, chorava, tremia. – Não olhem pra mim! Eu estou feio... – Ele chorava, tentando cobrir as pernas.

Eu ria do fundo dos meus pulmões era hilário. Ria do ódio do meu coração.

- Olhem só que otário – Gritavam um grupo de garotas que acabava de chegar, - Ele é feio. Feio como um porco.

- Não! Eu não sou assim. – Alex começou a encolher como nos desenhos animados até ficar muito pequeno. Ele chorava. Um choro nasal e estúpido.

- Sim Alex é o que você é: Um porco. Tem pernas de porco. Chora como um porco e fede como um porco.

- Porcalhão, porcalhão, Porcalhão! – gritavam em coro as meninas.

- Olha só pessoal ele esta comendo a própria caca – eu apontava pra ele e me sentia forte, bonito, vivo de novo.

Eles riam, todos riam, eu estava oferecendo um espetáculo de violência e humilhação gratuita. Me sentia o cara que inventou a TV. Me sentia forte, bonito.

Os garotos que estavam lá jogavam cenouras e restos de comida nele.

- Hora do lanche porquinho – Dizia um dos garotos. – Tem que comer tudinho.

Jogava restos de comida nele.

Comecei a me sentir desconfortável com aquilo tudo, sabe. Comecei a pensar que fomos longe demais na brincadeira.

Mas ai alguém gritou:

- Ele tem uma arma!

Alex puxou o gatilho. Foram cinco disparos. Cinco tiros certeiros. A multidão se espalhara e sobre o chão só ficaram cinco corpos.

Eu pude ver em suas mãos.

Laura. Seus olhos brilhavam. Anéis de fogo.

Só tinha mais uma bala, só uma. Laura era um revolver de seis tiros eu tinha certeza.

Só restara eu e ele naquela Avenida fria.

Olhou nos meus olhos. E os seus eram frios como o espaço, cores frias e o zero absoluto. Apontou pra minha cara. Voltou a arma contra sua própria cabeça e apertou o gatilho.

O atirador sorria provocando a morte.

Não havia arma depois disso. Laura sumia diante dos meus olhos.

Eu o vi cair.

Senti um frio na espinha.

Eu corri como se não houvesse amanhã.

De certo modo me sentia responsável por tudo que aconteceu. Me sentia sujo, estava fora de mim.

Não sabia nem quem eu era.

Como poderia estar fora de mim se nem sabia quem eu era.

Talvez fosse um assassino.

sábado, 3 de outubro de 2009

VI

VI

A janela aberta só me faz sentir o frio

Do vento que carrega o seu perfume de navio

-Dois os mares, quem diria a solidão de quem não viu...

Uma canção beijou minha memória. Como a água fria e inconsistente.

Eu comecei a me lembrar. Era músico, e dos bons, decifrara uma parte daquilo, do enigma... Estava feliz. Precisava falar com alguém. A garçonete, do endereço talvez.

Segui pelas ruas... Seguindo o endereço no guardanapo de papel.

Avenida da saudade.

Conheço esse lugar pensei, lembrei que havia colocado uma carta no correio a esse endereço, na quarta-feira, no dia em que meu relógio parou. O envelope era amarelo. Eu pude me lembrar.

Eu toquei a campainha e esperei a garçonete. Ela abriu a porta.

- Quem é você? – Ela perguntou assustada.

Tinha os cabelos pretos e curtos, a pele clara, olhos tristes.

- Meu nome é Vermelho. – respondi sem muita certeza.

- Meu deus! Vermelho, é você!

Ela pulou nos meus braços e me abraçou com muita força. Não me lembrava de como era um abraço.

Lembrei seu nome. Ana.

Nós nos sentamos na sala e ela pegou um envelope amarelo.

- Essa carta é minha? – Perguntei.

- Sim recebi ela ontem pela tarde.

- Posso ler?

- Claro. Você que escreveu.

A janela aberta só me faz querer fugir

Pra me esconder na escuridão desse vazio.

Ah e o meu domingo é muito calmo por aqui

Sem você...

Em seus olhos vi a mais perfeita flor

Aquela que não se encontra em mil jardins

Se, no entanto perguntar se é amor digo que sim.

-É uma musica...

- É, você sempre me escreve suas musicas nas cartas.

Prosseguiu enquanto eu lia.

- Isso rima. – eu ria, estava contente. - Quantos poemas. Escrevi tudo isso?

-A janela aberta significa fuga da realidade, você escreveu aqui no verso desse desenho.

Peguei o desenho nas mãos e não pude acreditar.

Era uma borboleta numa pintura no cansom.

Era linda. Viva. Eu pude ouvir o bater das suas asas, estava viva, se mexia no desenho, e o barulho ficava cada vez mais alto, agudo, alto.

- E não estou agüentando mais Ana! O barulho, esta me deixando cego!

- Não escuto barulho algum. - dizia Ana desesperada.

- Eu tenho que sair daqui!

Corri pela porta, ganhei as ruas.

Corri pela avenida como se não houvesse amanhã. As asas estavam atrás de mim. Estava cego, corria feito louco. Caí sobre chão e pensei que não levantaria mais.

Então eu vi a luz...

Laura.

- Fugindo como sempre. – Ela dizia. Era incrível a doçura de suas palavras mesmo em momentos críticos de extrema loucura.

- Você ta certa Laura. Eu fujo. Meus pensamentos me perseguem.

Por mais que eu tento eu não consigo me lembrar quem sou, e agora eu sei que estou fugindo Laura. Preciso de ajuda.

- Eu tenho um sonho, sabia? – ela molhou os lábios e começou a falar. - Você sabe, desses que se repetem toda noite. Sinto que alguém me persegue, e eu corro. Corro como se não houvesse amanhã.

- Então você foge.

- Sim, fujo de algo que eu não sei o que é. Não tenho coragem o suficiente de olhar para trás, nunca tive, então eu continuo correndo até hoje sem saber o que me persegue. Sabe o que eu sinto não sabe?

- Sim...

- É por isso que estamos aqui. Acredite. Vermelho isso não é um sonho.

- Isso me parece um pesadelo.

- Não docinho, isso é a loucura.

Tic...

O som da minha vida se estendia ao disparo de um revolver. Onomatopéia mortal. Odisséia dos sonhos. Assonância do encontro. Pesadelo eterno. Acorde!

Onde estou?...