quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Janela de eletrons - capitulo oitavo




Eu corri como se não houvesse amanhã.

Estava decidido a deixar a cidade. Definitivamente. Andei a noite, pelas ruas e bares. Fumei. Corri como se não houvesse amanhã.

Corri até a rodoviária. Não tinha dinheiro para passagens.

Pedi.

Inventava uma história comovente para cada um que passava. Nada.

Entrei no banheiro e me fechei na cabine.

Abri a mochila e peguei o caderno. Quando abri o caderno eu vi o pombo. Feio como sempre. Isso me alegrava, era ótimo olhar pra ele. No verso do desenho eu tinha um verso.


A janela aberta só me faz sentir o frio

Do vento que carrega o seu perfume de navio


Eu pensei. Não sou assassino. Um assassino não teria virtude no coração para escrever uma musica tão linda.

Se suas cores tomam parte em seu perfume

Eu te digo amor que morro de ciúmes

Se quem não colheu a mais perfeita flor

Fui eu...



Eu terminei a musica no verso do desenho. Estava pronto, linda.

Cagar sempre me fazia sentir melhor.

Escrever e cagar são coisas distintas e ao mesmo tempo muito parecidas em suas funções.

Cagar me tirava as porcarias do corpo. Escrever me tirava as porcarias da alma.


Um alívio instantâneo. Como respirar, beber água, comer. Passamos a vida jogando porcaria pra dentro e depois pra fora. Ciclos da porcaria.


A porcaria está em toda parte. No álcool, nos cigarros, na pornografia, nos conservantes, nos corantes nos acidulantes e nas gorduras trans. Agente caga, mas a sujeira fica na alma, se não põe pra fora a alma apodrece e agente se transforma em porco.


Faz sentido.


Pude ouvir dois homens entrando no banheiro. Passos pesados de quem odeia onde pisa. Homens grandes.

Eu pude escutar a conversa.


- Tem certeza que esse lugar é seguro?

- Sim.

- Tudo corre dentro do plano?

- Sim mestre. Mas uma coisa não me sai da cabeça. Me preocupa.

- Um problema?

- Laura senhor.

- Escuta aqui! Laura é a nossa melhor agente. Ela tem nos encaminhado mais almas do que qualquer um envolvido nessa operação. Espero que saiba o que está dizendo.

- Sim senhor. Mas creio que ela interceptou por um dos mundanos recém chegados. O qual se conhece pelo nome de Vermelho. Sua alma estava encaminhada para ontem. Suicídio. Mas ela entregou um tal de Alex em seu lugar. Ela trocou os registros.

- Alex Noir? O imbecil deveria morrer de overdose aos vinte e sete numa banheira de hotel.

- Laura não só trocou os registros dele como usou um dos nossos comunicadores oníricos para fazer contato com Vermelho. Primeiro assumiu a forma de uma aranha gigante. Em seguida induziu um coma de curta duração, usando um perturbador mental de bolso.

- Que motivos levariam ela a fazer uma loucura dessas.

- Não sei senhor...

- Você tem vinte e quatro horas pra descobrir e me provar que ela esta envolvida nesses incidentes. Caso contrário você será responsabilizado. Estamos perto Alberto. Não posso admitir que traidores ponham em risco meu plano.

- Sim mestre.


Pela fresta da cabine eu pude ver um dos homens.


Era um bode. Usava terno e gravata. Andava em duas pernas e fumava cigaro.

Os dois saíram, mas eu só pude ver o servo. Quem seria o mestre? Almas, Laura, comunicador onírico? Mas que porra estava acontecendo nessa cidade.


Eu era um homem marcado.

Laura...


Eu fugia, e ela tinha razão. Ela me impediu do suicídio. Tudo fazia sentido agora. Lutar me fazia esquecer de fugir. As musicas, os poemas, Ana.


Eu precisava falar com Laura. E sabia como encontra-la.

Eu precisava sonhar.



Deitei e fechei os olhos.


Nada.


Não conseguia dormir com os pensamentos rodando sobre minha cabeça como moscas. Giravam até me deixar tonto e enjoado de pensar. Era difícil dormir ali naquele chão gelado. Estava cedo demais. Eu não tinha sono e nem vontade de dormir.

Ganhei as ruas, entrei num bar. Não tinha dinheiro pra passagens, mas pra encher a cara deu. Tomei o que tinha de mais barato e vagabundo. Fiz amigos. Agente ria e enchia os copos. Estava sonolento e então alguém disse:

Recite um de seus poemas Vermelho, vamos lá.

Eu subi na mesa e olhei pra baixo, quase me desequilibrei.


Se um pesadelo se repete, é sinal que a cura caminha longe.

Eles voltam pelos buracos da alma cedo ou tarde pela noite cálida

Pra te fazer sangrar além da vida.


Como a dor que te avisa quando estás ferida, minha pequena.

Como as cobras traiçoeiras no sol a queimar.

Enigmáticas elas profetizam pelos sonhos

Seus olhos sangrando sentem o gosto no ar.



O veneno é doce e inibe a alma.

Parece desgrudar da carne, a vida.

Desliza... Sobre a face inquisitória da morte

Gozando o inferno enquanto todos choram


Na ironia que é viver na terra.

Ficar sozinha... Ser traída.



Pude ver seus olhos em brasa.

Laura...

A luz de novo vinha curta e sonolenta pelo arrepio de almas perdidas.

domingo, 4 de outubro de 2009

Janela de elétrons - VII

VII

- Acorda otário. Não acabei com você ainda.

Foi um chute cruel no estomago.

Cuspi uma poça de sangue densa, mercúrio vermelho pela minha garganta. Eu estava cego. A embaçada atmosfera dos meus olhos assim como a minha mente, poluída demais para ver, odiar, e reconhecer quem me agredia.

- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.

Alex...

O grandalhão estúpido. Com seus amigos punks. Droga. Devia ter imaginado. O filho da puta me pegou enquanto estava atormentado. Dói tanto que até rima.

- Sabia que ia te encontrar amigo. Porque um covarde sempre deixa rastro de medo onde passa.

Deu outro chute na boca do estomago. Me fez vomitar sangue. E ódio.

– Eu não sei quem é você e de onde veio. Sei que se acha melhor que todo mundo aqui, mas a verdade é que você esta entre os porcos agora, amigo, então se acostume com o chiqueiro. – Outro chute - Vou dizer só mais uma vez. Estaremos de olho em você, a cada esquina a cada rua, a cada peido que der, estaremos lá. E mais uma coisa, fique longe da Laura ta me entendendo.

- Eu vou matar vocês seus putos. Eu vou matar todos.

Não conseguia levantar. Era fraco, eles riam como porcos. Uma risada nasal e estúpida. Levantei os olhos e pude ver. Seus pés eram estranhos. Eram pés de porco, coxas de porco, eram porcos até a cintura.

- Alex! Seus pés! – Eu ria – Você tem pés de porco! Hahahahahahaha!

Há muito tempo não dava uma boa risada, era ridículo, ele estava se transformando num porco.

Seus amigos se afastaram pra longe, correram. E varias pessoas começavam a chegar de todos os lados.

- Merda o que ta acontecendo comigo – Ele estava em pânico, chorava, tremia. – Não olhem pra mim! Eu estou feio... – Ele chorava, tentando cobrir as pernas.

Eu ria do fundo dos meus pulmões era hilário. Ria do ódio do meu coração.

- Olhem só que otário – Gritavam um grupo de garotas que acabava de chegar, - Ele é feio. Feio como um porco.

- Não! Eu não sou assim. – Alex começou a encolher como nos desenhos animados até ficar muito pequeno. Ele chorava. Um choro nasal e estúpido.

- Sim Alex é o que você é: Um porco. Tem pernas de porco. Chora como um porco e fede como um porco.

- Porcalhão, porcalhão, Porcalhão! – gritavam em coro as meninas.

- Olha só pessoal ele esta comendo a própria caca – eu apontava pra ele e me sentia forte, bonito, vivo de novo.

Eles riam, todos riam, eu estava oferecendo um espetáculo de violência e humilhação gratuita. Me sentia o cara que inventou a TV. Me sentia forte, bonito.

Os garotos que estavam lá jogavam cenouras e restos de comida nele.

- Hora do lanche porquinho – Dizia um dos garotos. – Tem que comer tudinho.

Jogava restos de comida nele.

Comecei a me sentir desconfortável com aquilo tudo, sabe. Comecei a pensar que fomos longe demais na brincadeira.

Mas ai alguém gritou:

- Ele tem uma arma!

Alex puxou o gatilho. Foram cinco disparos. Cinco tiros certeiros. A multidão se espalhara e sobre o chão só ficaram cinco corpos.

Eu pude ver em suas mãos.

Laura. Seus olhos brilhavam. Anéis de fogo.

Só tinha mais uma bala, só uma. Laura era um revolver de seis tiros eu tinha certeza.

Só restara eu e ele naquela Avenida fria.

Olhou nos meus olhos. E os seus eram frios como o espaço, cores frias e o zero absoluto. Apontou pra minha cara. Voltou a arma contra sua própria cabeça e apertou o gatilho.

O atirador sorria provocando a morte.

Não havia arma depois disso. Laura sumia diante dos meus olhos.

Eu o vi cair.

Senti um frio na espinha.

Eu corri como se não houvesse amanhã.

De certo modo me sentia responsável por tudo que aconteceu. Me sentia sujo, estava fora de mim.

Não sabia nem quem eu era.

Como poderia estar fora de mim se nem sabia quem eu era.

Talvez fosse um assassino.

sábado, 3 de outubro de 2009

VI

VI

A janela aberta só me faz sentir o frio

Do vento que carrega o seu perfume de navio

-Dois os mares, quem diria a solidão de quem não viu...

Uma canção beijou minha memória. Como a água fria e inconsistente.

Eu comecei a me lembrar. Era músico, e dos bons, decifrara uma parte daquilo, do enigma... Estava feliz. Precisava falar com alguém. A garçonete, do endereço talvez.

Segui pelas ruas... Seguindo o endereço no guardanapo de papel.

Avenida da saudade.

Conheço esse lugar pensei, lembrei que havia colocado uma carta no correio a esse endereço, na quarta-feira, no dia em que meu relógio parou. O envelope era amarelo. Eu pude me lembrar.

Eu toquei a campainha e esperei a garçonete. Ela abriu a porta.

- Quem é você? – Ela perguntou assustada.

Tinha os cabelos pretos e curtos, a pele clara, olhos tristes.

- Meu nome é Vermelho. – respondi sem muita certeza.

- Meu deus! Vermelho, é você!

Ela pulou nos meus braços e me abraçou com muita força. Não me lembrava de como era um abraço.

Lembrei seu nome. Ana.

Nós nos sentamos na sala e ela pegou um envelope amarelo.

- Essa carta é minha? – Perguntei.

- Sim recebi ela ontem pela tarde.

- Posso ler?

- Claro. Você que escreveu.

A janela aberta só me faz querer fugir

Pra me esconder na escuridão desse vazio.

Ah e o meu domingo é muito calmo por aqui

Sem você...

Em seus olhos vi a mais perfeita flor

Aquela que não se encontra em mil jardins

Se, no entanto perguntar se é amor digo que sim.

-É uma musica...

- É, você sempre me escreve suas musicas nas cartas.

Prosseguiu enquanto eu lia.

- Isso rima. – eu ria, estava contente. - Quantos poemas. Escrevi tudo isso?

-A janela aberta significa fuga da realidade, você escreveu aqui no verso desse desenho.

Peguei o desenho nas mãos e não pude acreditar.

Era uma borboleta numa pintura no cansom.

Era linda. Viva. Eu pude ouvir o bater das suas asas, estava viva, se mexia no desenho, e o barulho ficava cada vez mais alto, agudo, alto.

- E não estou agüentando mais Ana! O barulho, esta me deixando cego!

- Não escuto barulho algum. - dizia Ana desesperada.

- Eu tenho que sair daqui!

Corri pela porta, ganhei as ruas.

Corri pela avenida como se não houvesse amanhã. As asas estavam atrás de mim. Estava cego, corria feito louco. Caí sobre chão e pensei que não levantaria mais.

Então eu vi a luz...

Laura.

- Fugindo como sempre. – Ela dizia. Era incrível a doçura de suas palavras mesmo em momentos críticos de extrema loucura.

- Você ta certa Laura. Eu fujo. Meus pensamentos me perseguem.

Por mais que eu tento eu não consigo me lembrar quem sou, e agora eu sei que estou fugindo Laura. Preciso de ajuda.

- Eu tenho um sonho, sabia? – ela molhou os lábios e começou a falar. - Você sabe, desses que se repetem toda noite. Sinto que alguém me persegue, e eu corro. Corro como se não houvesse amanhã.

- Então você foge.

- Sim, fujo de algo que eu não sei o que é. Não tenho coragem o suficiente de olhar para trás, nunca tive, então eu continuo correndo até hoje sem saber o que me persegue. Sabe o que eu sinto não sabe?

- Sim...

- É por isso que estamos aqui. Acredite. Vermelho isso não é um sonho.

- Isso me parece um pesadelo.

- Não docinho, isso é a loucura.

Tic...

O som da minha vida se estendia ao disparo de um revolver. Onomatopéia mortal. Odisséia dos sonhos. Assonância do encontro. Pesadelo eterno. Acorde!

Onde estou?...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

V

V

Eu saí do restaurante e passei o resto do dia pensando sobre o que havia acontecido. Peguei meu caderno e comecei a riscar. Desenhei um pombo.
Um cara de chapéu chegou, começou a me observar.
- Estás desenhando?
- Qual é otário? Cai fora.
- Pois bem amigo, não quis de forma alguma te causar distúrbios. Só me impressiona como consegue desenhar tão mal.
- Vai se foder cara.
- Posso dizer que nunca vi em toda vida desenho tão ruim.
- Eu to pouco me lixando para o que você pensa cara. Cai fora!
- Estou impressionado! Quero comprar esse.
- Você é maluco cara? Cai fora. Já disse!
- Pago dez mil pelo pombo!
- Ta me zoando filho da puta?

Mas ai o desgraçado tirou um bolo de dinheiro do bolso. Muita grana.
- Onze mil e não se fala mais nisso!
- É seu cara.
Catei com as duas mãos, com fome de grana, nunca tinha visto tanto dinheiro na vida. Coloquei na mochila com pressa. Onze mil Dólares por um rabisco, o cara devia ser maluco.
Ele saiu correndo feliz da vida com o rabisco de pombo. E eu me sentia esperto.
Então comecei a entender...
Estava contente, feliz, sei la, em êxtase, mas ai comecei a pensar no pombo. Era feio e mal feito, mas eu quem havia feito. Fazia parte de mim.

A partir do momento que minha imaginação conseguiu materializar a imagem do pombo na minha cabeça (visto que tinha pouca noção de como anatomicamente seria um pombo, por falta de observação e estudos anatômicos talvez), até o momento em que meu cérebro enviava milhares de estímulos para que meus músculos se movessem a rabiscar a estrutura do papel, que então gerava atrito com a ponta do lápis 6B fazendo com que partículas de carbono grafassem ilusões bidimensionais do que seria um pombo na minha concepção naquela folha de papel, até o momento que meus olhos enviassem a imagem do que eu havia criado numa percepção agora de fora pra dentro, acionando meu bom senso em admitir que esse fosse um péssimo desenho e... Bem, comecei a pensar em todos os processos químicos e físicos para reproduzir a ridícula imagem que eu tinha na minha imaginação do que seria um pombo, eu vi que onze mil dólares era um preço muito baixo, pela minha individualidade.
Não acreditara que havia me vendido por dinheiro. Fui atrás do maluco.
- Ei senhor – o puxei pelo ombro – Preciso do pombo, pega seu dinheiro e vaza daqui.
Seus olhos se encheram de lagrimas, então ele me devolveu o desenho. Devolvi-lhe o dinheiro. Não precisava dele.

Percebi que tinha realizado algo notável. Desenhei o desenho mais feio do mundo. Era quase como desenhar o mais belo. Eu era o melhor. Estava orgulhoso.
Assinei o desenho e escrevi no verso.

A janela aberta só me faz sentir o frio
Do vento que carrega o seu perfume de navio

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Janela de elétrons - capitulo quarto

Deitei a cabeça no travesseiro e tentei parar de pensar, Laura eu não consigo parar de pensar em você.

Senti meu corpo inteiro formigar debaixo dos lençóis.

Isso já acontecera muitas vezes enquanto pensava em garotas, mas parecia muito estranho dessa vez. Garras. Era como se eu fosse a montanha mais alta do mundo, atacado por um exercito de escaladores assassinos.

Então pude ver.

Aranhas, milhares delas, para todos os lados. Um mar de aranhas.

- Filhas da puta! – eu gritava - Socorro! Esse lugar está cheio de aranhas, abra a porta sua gorda vadia! Me tire daqui!

Eu dava socos, chutes na porta e nem sinal da senhoria, não tinha como arrombar com todas aquelas travas e cadeados.

Então debaixo da cama saiu um monstro, com certeza a maior aranha da terra, devia ter um metro e meio, Garras afiadas e pêlos, muitos pêlos. Patas estúpidas, mil olhos.

- Oh, que ótimo hahaha, a senhoria me trouxe um hospede novo, eu estava tão solitária.

- Nem pense em chegar mais perto seu monstro!

- Nada pessoal docinho, minhas crianças precisam comer.

- O caralho! Pro inferno com suas crianças.

- Não seja rude. Facilite as coisas, você não tem saída.

Peguei uma cadeira e acertei a maldita aranha, a filha da puta nem se quer sentiu o golpe.

-Criança má!... Sabe por que está aqui não sabe?

- Vai se foder!

- Acha que tem controle sobre seu destino, sobre suas ações, mas é só mais um instrumento dos mestres. Sentimentos como amor, liberdade, ódio são doces ilusões. Você é uma peça nesse jogo. E se você cai fora do esquema, AGENTE TE PEGA!

Não pude pensar em nada na hora. Minto. Pensei. “Isso é um pesadelo e eu vou acordar”, mas eu não acordei.

- Eu sou dono do meu tempo agora sua puta do inferno, então poupe a conversa mole e me mata. Filha da puta. Ta esperando o que? Me mata.

Ela parou, pensou e apenas respondeu:

- Não.

Fiquei parado por um instante, perplexo.

-Não vai me matar?

-Não.

- Por que não?

- Não vou fazer uma coisa só por que você quer que eu faça.

- É algum tipo de jogo?

Então ela começou.

- As coisas não funcionam assim querido. Você não pode ter tudo o que quer, acorda! “Me mata”, fala como se fosse grande coisa. O mundo não gira em torno da sua vontade idiota. Quer saber. Por que você não deita a sua cabeça cheia de merda nesse travesseiro e dorme? Ta me enchendo, babaca. – e então começou a entrar debaixo da cama resmungando - Homens... Sempre querem estar no controle da situação.

As mulheres são todas iguais mesmo. Pensei. Se quer que elas façam alguma coisa, diga: Não faça. Se quiser que elas não façam é só dizer: Faça. Funciona com todas as espécies.

Pois é...

Onze horas as luzes se apagaram, deitei a minha cabeça no travesseiro e perguntei à aranha.

- Como é ser uma aranha?

- Sei lá... Não me imagino sendo um tamanduá ou um morcego, os dias passam depressa demais e enquanto tentamos ser aqueles que não somos. Nós acabamos por esquecer quem verdadeiramente importa.

- Devia estar feliz por ser uma aranha senhora. Ser humano é muito difícil.

- Não é não... Vocês que complicam.

- Talvez.

As sete a senhoria me acordou.

-O que houve nesse quarto? Eu disse nada de vadias!

- Como poderia estar com vadias! A senhora me deixou trancado a noite inteira com essas malditas aranhas, devia processar a senhora.

- Ninguém nunca reclamou das aranhas.

- Talvez ninguém tenha vivido pra reclamar.

- Me deve dinheiro moleque, quebrou minha melhor mobília.

- Já disse, não tenho dinheiro e se me encher sou capaz de te processar, sabia que tem aranhas alienígenas nesse quarto?

- Esta bem, esta bem, me pague pela noite e me sai logo daqui. Vamos lá, cai fora!

Hoje mesmo dou o pé desse lugar.

Fui até um restaurante:

Casa do Frango: Comida barata aqui, dizia a placa.

Eu sentei a mesa e a garçonete apareceu tão do nada que tive a impressão de que ele brotara do chão.

- Docinho, o que vai pedir?

- Eu quero o que tiver de mais barato, e que não seja frango.

- Só tem frango.

- Então me vê um prato cheio de frango.

- Já vai docinho.

Eu esperei enquanto a comida não chegava e tentei entender o que estava acontecendo. Primeiro: Seria a garota, Laura Revolver, a arma que matou Stu?

Segundo: Será que eu fiquei louco?

Por mais que tentasse não podia lembrar de nada que acontecera antes da terça. Terça-feira exatamente quando meu relógio parou!

Olhei no pulso e os ponteiros giravam feito loucos, o das horas corria atrás do dos minutos e eles mudavam de direção repentinamente, sentido horário, anti-horário.

- Vocês estão loucos seus idiotas?

Dava umas pancadinhas no visor, mas eles estavam ocupados de mais pra me ouvir. Acho que eles queriam transar.

O prato chegou. Eu estava morrendo de fome. A comida parecia boa. Mas antes que eu pudesse dar a primeira garfada a garçonete perguntou.

- Você me acha bonita?

Olhei pra ela. Não era feia, pensei em Laura, pensei no frango.

- Você é.

Ela saiu pulando, deu uma risadinha ridícula. Quase ri, mas estava com fome. O prato tava com uma cara boa.

Pela primeira vez as coisas corriam em seu curso natural. Terminei o prato e me espreguicei na cadeira.

Ela apareceu novamente, deixou um guardanapo com um endereço marcado na minha mesa.

No guardanapo tinha um bilhete:

A janela aberta só me faz querer fugir

Pra me esconder na escuridão desse vazio.

De primeiro não entendi, resolvi aparecer no endereço mais tarde.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Janela de elétrons- Capitulo terceiro

Vinte e duas e quinze, eu espero o ônibus das dez e meia pra lugar nenhum, só tenho trinta e sete reais no bolso, e na mochila um pacotes de biscoitos em forma de animais.

Eu não sabia o que estava fazendo.

- Pra onde vai?

Uma voz feminina...

Um tipo de beleza estranha. Usava um moletom velho dos Ramones e tinha alguns piercings, um do lado direito dos lábios.

O mais incrível é que seus olhos eram verdes acastanhados. Suas pupilas eram enormes, mal dava pra ver os olhos. O verde parecia um anel muito fino perdido naquela escuridão humana.

- Eu não sei... Lugares. – Respondi puxando um biscoito do pacote.

- Está fugindo?

- Talvez.

- Então você é um covarde?

- Acho que sim.

- Matou alguém ou sei lá?

- Não... Só quero ir embora daqui.

- Ir pra onde?

-Eu não sei.

- É longo daqui?

-Não sei. Quer biscoito?

- Obrigada. Ah, eu peguei um macaco e você?

- A tartaruga... Estranho é a quarta vez que eu pego a tartaruga nesse pacote.

Eu olhei para o lado e a menina havia desaparecido. Sumiu.

Será que estava louco? Antes dos trinta. Merda! Melhor pegar o ônibus.

Sentei no acento vinte e dois. O ônibus estava vazio. Pensei: O que há de errado comigo?

Olhei na janela e lá estava a menina, alimentando os pombos.

Recostei no acento e tentei pegar no sono, devo estar ficando louco eu pensava. Stu, a garota, os pombos e as tartarugas do biscoito. Nada fazia sentido.

Eu devo ter dormido...

Acordei com o motorista me cutucando com uma espiga de milho.

- Ei garoto! Chegamos! Acorde.

Estava escuro demais, eu levantei e peguei minha mochila.

- Vamos! Está fodendo tudo moleque! Tenho que levar essas almas pro inferno!

Eu olhei ao redor e o ônibus estava cheio de homens e mulheres, todos eram porcos, as faces, horríveis. Fedia mijo.

Os do lado esquerdo riam e os porcos do lado direito choravam, enquanto o motorista jogava espigas de milho encima deles.

- Comam!

- Eu tenho que sair daqui! – gritava um porco da esquerda desesperado. – Eu sou padre, não posso ir para o inferno! Vocês sabem o que eles fazem com os padres no inferno!

O motorista olhou pra mim e perguntou.

- O que acha desse ai? Quer levar ele com você?

- Não - Eu disse – Deixe-o queimar!

Então sai do ônibus enquanto o motorista ria, cantava uma canção boba.

Nós vamos ter porquinhos pro jantar!

Baconzinhos, feijoada, todos vamos nos fartar.

Essa farra é bem vinda pro inferno vamos lá... La la la, la la la...

Desci numa estrada escura, ar pesado, neblina densa, pedras rochosas, muitas pedras... E uma placa pichada com suásticas nazistas:

Bem vindo a Janela de elétrons, dizia a placa.

- Ei! Você garoto! - Disse uma voz estranha. – Quer carona pra cidade?

Era um policial de bigode. Encostou a viatura e desligou o motor

- Não obrigado senhor.

- Você não é um destes Nazistas, é?

- Não senhor. – respondi.

- To de olho em você garoto, não pise fora da linha, ou a linha pega você! Entendeu?! Oficial Pereira ao seu dispor.

- Não pretendo ficar muito tempo pra causar qualquer tipo de problema por aqui seu guarda.

- Todo mundo diz a mesma coisa. – Então ligou o motor outra vez – Mas se está fugindo. Cedo ou tarde o que te persegue vai te encontrar. E as coisas não vão mudar pra você nem pra ninguém, pra onde quer que você vá, ainda será você mesmo. Eu não sei o que você fez, mas as conseqüências vão te perseguir às casas do inferno, até que você as enfrente. De qualquer forma... Ah, deixa pra lá. Estou de olho em você.

A viatura desapareceu no meio da noite e eu não tinha outra saída se não caminhar.

Cheguei até um posto de gasolina.

O lugar estava cheio de gente estranha. Alguns Hippies estavam numa roda no chão fumando maconha e cantando ao som de violão – Light my fire dos Doors.

Então eu a vi.

A mesma garota. Com as pupilas mais cheias do que nunca. Ainda dava pra ver o verde dos olhos. Pensei no que dizer e disse:

- Oi

- Oi – Esticou os lábios num sorriso bonito. - Você ainda foge?

- Não. Quem foge vive no passado, mata o amanhã. Eu persigo o futuro. Prefiro ser dono do meu tempo.

As palavras pareciam legais saindo da minha boca.

- Corta a conversa mole. Você foge como todo mundo aqui. Aposto que vai ficar louco antes dos trinta.

Pude ver um sorriso de escárnio nos seus belos lábios.

- O que você sabe sua Puta? Eu te conheço pelo tempo de comer um biscoito e você acha que sabe tudo de mim? Você não me parece feliz, seus olhos dizem “tristeza”, se veste como se fosse um cara, é tão fracassada quanto todo mundo aqui, e nem sabe disso.

Nós nos encaramos por segundos e então rimos. Nada fazia sentido, era doce.

- Meu nome é Laura.

- Meu nome é...

- Vermelho.

Ela sabia meu nome.

Olhei no fundo dos seus olhos e havia fogo neles, anéis de fogo. Ela era aquela arma tive certeza.

- Tic – ela fez sorrindo. Soprou um anel de fumaça pelos lábios. Ela não estava fumando.

- Nos conhecemos não é?

- Claro docinho.

Olhei no fundo dos seus olhos, me aproximei, tentei beija-la. Quase...

Aparece um sujeito grande. Jaqueta de couro, correntes, piercings. Tinha um soco inglês no cinto. Típico fracassado, burro, revoltado com uma bandana na cabeça.

- Ei docinho, esse idiota ta te perturbando?

- Não amor, é só um amigo, um velho amigo.

- Porque não manda seu amigo ir embora daqui amor?

- Não seja grosso Alex. Ele esta fugindo como nós. Você sabe bem que situação envolve a crise não sabe?

- Vão se foder vocês dois. – Perdi a paciência e virei às costas.

Entrei na loja de conveniência do posto.

Peguei uma Coca-Cola e umas batatas.

Incrível como a distribuição da coca-cola alcança até os portões do inferno.

- Três e quarenta e cinco. – Era um balconista muito estranho.

- Aqui está. – entreguei o dinheiro. - Deixa eu te perguntar uma coisa cara, conhece alguma pensão barata por perto.

Ele parou por alguns segundos como se recebesse a resposta do além. Então disparou dizendo muito rápido.

- Pegue essa rua, mas não fique nela, ela se incomoda com esse tipo de coisa... Você sabe, a calçada é boa, mas existem... Coágulos nessas coisas, você pode se machucar. Vai achar uma casa. A senhoria é branca. A casa eu já não sei. Se te oferecerem o quarto dois, não aceite, conselho de amigo.

Então voltou ao seu estado normal. Como se nada daquilo tivesse saído da sua boca.

- Valeu pelo conselho amigão. To indo nessa.

Saí da loja e dei de cara com Alex.

- Escuta aqui idiota, é melhor tomar cuidado.

Passei reto pelo babaca e peguei a rua.

Parece que algo errado acontece nessa cidade. Bem só uma noite e eu saio daqui.

Deixa eu me lembrar... Não fique na rua, foi o que o esquisito me disse. Mas e daí, que se foda vou andar na rua mesmo. Me sentia vivo de novo, há muito tempo não me sentia assim.

Cheguei a tal casa. Tinha uma placa bem grande, toda pichada... Suásticas outra vez:

Pensão Doce Lar, servimos marmitex, quartos baratos. Não admitimos vadias.

Toquei a campainha, demorou pra alguém sair. Então veio uma gorda de camisola e touca de banho.

- Oi senhora, boa noite. Eu preciso de um quarto barato pra ficar.

- Tem dinheiro?

- Não muito... Talvez o suficiente pra umas noites.

- Não é um desses nazistas, é?

- Não senhora, só quero um quarto.

- Ta, olha só. Tenho o quarto numero dois pra você.

- Está ótimo, vou ficar.

Entrei na casa, por um corredor estreito até o tal quarto. Havia trancas e mais trancas nele. A senhoria abriu as trancas com uma chave enorme e pelo que pude ver era um quarto normal, a não ser pelas luzes verdes e as imagens de santos e velas pra todos os lados.

- Eu te deixo sair às sete horas – disse a senhoria – vou trancar a porta pelo lado de fora, se precisar usar o banheiro, espere até as sete.

- Ok dona, obrigado.

Fechou a porta e eu pude ouvi-la colocar as travas e os cadeados.

- Desligo as luzes ás onze. Nada de vadias.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Janela de elétrons- Capitulo segundo

Vinte e três horas e vinte três minutos. Eu estou de frente a aquela janela de elétrons de novo. Espero alguém aparecer na tela, alguém pra conversar. Nada.

As horas passam solitárias na promessa do século XXI.

Quando a TV já não podia, a internet tomou o grande pódio da escravidão dos sentidos. Chega a ser engraçado.

Anos atrás eram precisos milhares de dólares e grandes produções para entreter e alienar as pessoas, mantê-las presas na frente das suas janelas de elétrons.

Não era uma tarefa fácil e até hoje não é. Só que a grande diferença do século, é que hoje nós mesmos fazemos todo esse trabalho. E ainda pagamos para isso.

Estamos todos esperando. Uns esperando os outros em frente a essas janelas de elétrons. Mas ninguém chama, talvez porque ninguém quer ser o primeiro a fazer o contato.

Estamos todos presos a essa janela porque somos incompletos. Solitários.

Vinte três e cinqüenta e nove.

Meus olhos fecharam por instantes descansando a retina daquela janela. Então eu escuto uma campainha.

Recebi um e-mail, não tinha remetente.

Você foi convidado a participar de uma experiência única.

Mais spam...

Então pude ouvir uma voz...

- Tempo... A maior preocupação em você é o tempo. A partir da consciência de que você o tem, a grande incógnita é o que fazer com ele. Assim como tudo que te pertence, o tempo também te tem e ele sabe bem disso. O que fazer com o dinheiro? O que vai fazer da sua vida?

Eu devia estar louco.

Foi quando puxei o computador da tomada, e ele não desligou.

Aquela janela de elétrons estava viva em minha frente e ela sabia mais do que ninguém quem eu era. O teclado deslizou como uma serpente e caiu sobre minhas mãos.

No monitor uma mensagem.

Aceito os termos e condições.

Em uma caixa tinha o sim, e na outra o sim também. Muitas escolhas.

Eu não podia controlar minha mente então eu cliquei na caixa. Sim.

E foi assim que tudo começou.